Pretender que os fenómenos sociais têm causas meramente naturais é um obstáculo epistemológico habitualmente designado por ‘naturalismo’ ou ‘explicações naturalistas’. Eis um exemplo.
«Comparem-se os relatórios de psiquiatras acerca das causas das neuroses nas mulheres casadas e com filhos em diferentes países. Um psiquiatra da Checoslováquia informa que os problemas de neurose surgem, sobretudo, em mulheres que não trabalham e passam o tempo em casa com os filhos. Ou seja, os casos de neurose são menos frequentes em mulheres que acumulam o trabalho com o cuidar dos filhos. Por sua vez, um psiquiatra de Espanha, referindo os problemas das mulheres da classe média e da classe mais abastada do seu país, enuncia uma conclusão oposta à do seu colega checoslovaco: que as mulheres mais sujeitas a tensão psíquica são as que acumulam o trabalho com as ocupações de criar e educar os filhos. Como conciliar informações tão contraditórias?
O problema resolve-se desde que saibamos que na Checoslováquia é considerado normal que as mulheres com filhos trabalhem, ao passo que em Espanha, pelo contrário, isso não é considerado normal em relação às mulheres da classe média ou mais abastadas. Torna-se claro, desta maneira, que as causas dos chamados ‘problemas das mulheres’ são de natureza social [e não natural]. E um aspeto central da questão consiste em que o seu comportamento está em conflito com as expetativas da maioria das pessoas com as quais elas se encontram em relação na sociedade, e que daí resultam estados de tensão psíquica que se exprimem sob a forma de neurose.»
Adérito Sedas Nunes, Sobre o Problema do Conhecimento em Ciências Sociais, GIS, Lisboa.