Jorge de Sena (poeta, novelista, ensaísta, tradutor e, entre outras artes, professor de literatura portuguesa) queixou-se muitas vezes da indiferença e falta de feedback que existia em Portugal relativamente à sua obra. Queixou-se também de maledicência, inveja, boicote e perseguição por parte do Estado Novo, mas também de outros autores portugueses. Mas queixou-se acima de tudo da hipocrisia: das pessoas que diante dele mostravam simpatia e até o elogiavam e depois, pelas costas, o “apunhalavam” das mais diversas maneiras.
Jorge de Sena viveu muitos anos no exílio: primeiro no Brasil e depois nos EUA, onde morreu em 1978.
Numa das muitas cartas que escreveu à sua amiga Sophia de Mello Breyner Andresen (que dispensa, julgo eu, apresentações) escreveu as palavras a seguir citadas. Nelas tudo me parece actual e certeiro, excepto a expressão “tirando o povo” e a ideia de que merecíamos ter continuado espanhóis como castigo – julgo que na realidade não merecíamos uma sorte tão grande e que a independência foi má para nós. Entretanto, houve algumas mudanças em Portugal, mas em vários aspectos fundamentais as coisas não mudaram muito. Por exemplo: actualmente em Portugal há muito ruído relativamente à situação política, económica, social e cultural, mas existe também um “silêncio de morte” relativamente às causas desses problemas.
“… de Portugal chegam-me elogios e um silêncio de morte, de todos os lados – como essa pátria, tirando o povo e uns raros, é vil canalha, e mesquinha… (e a minha amargura de erudito é a descoberta de que realmente o foi sempre – pelo menos do século XVII em diante, quando realmente não merecíamos senão ter continuado espanhóis). E, tudo isto, sem estímulo e sem calor humano é uma cruz muito triste de carregar.”
Correspondência de Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena – 1959-1978, Guerra e Paz Editores, Lisboa, 2006, pág. 99.