Alguns comportamentos desviantes, mesmo que sejam considerados crimes, podem (como se mostra aqui e aqui) ter consequências positivas. Alguns e não todos!
Há comportamentos desviantes completamente negativos e reprováveis. Outros são simplesmente excêntricos. Vejamos dois exemplos.

«O milionário americano Howard Hughes construiu a sua imensa fortuna através de uma combinação entre trabalho árduo, ideias imaginativas e decisões astutas. Em termos de desejo de sucesso individual, as suas actividades empresariais conformaram-se com alguns valores-chave das sociedades ocidentais – valores que acentuam o desejo de recompensa material e o êxito individual. Por outro lado, em certos aspectos, o seu comportamento desviou-se profundamente das normas ortodoxas. Viveu os últimos anos da sua vida praticamente isolado do mundo exterior, raras vezes saindo da suite de hotel onde morava. Deixou crescer o cabelo e uma longa barba que faziam com que parecesse mais um profeta bíblico do que um homem de negócios de sucesso. Hughes foi, ao mesmo tempo, muito bem sucedido e altamente desviante quanto ao seu comportamento. (…)
O modo de vida de Ted Bundy, na aparência, conformava-se com as normas de comportamento de um bom cidadão. Mantinha, à primeira vista, o que parecia ser não apenas uma vida normal, mas mesmo meritória. Tinha, por exemplo, um papel activo nos Samaritanos, uma associação que prestava um serviço telefónico de 24 horas para apoio a pessoas sob tensão ou com intuitos suicidas. Não obstante, Bundy cometeu uma série de homicídios horrendos. Antes de o sentenciar à morte, o juiz que presidiu ao seu julgamento elogiou Bundy pela sua habilidade (tinha preparado a sua própria defesa), mas acabou por sublinhar o desperdício que havia sido a sua vida. A vida de Bundy demonstra que uma pessoa pode parecer perfeitamente normal e envolver-se secretamente em actos de desvio extremo.»
Anthony Giddens, Sociologia, 3ª edição, F. C. Gulbenkian, 2002, Lisboa, pág. 216.
Como distinguir entre os comportamentos desviantes que devem ser tolerados (por respeito à autonomia das pessoas e porque podem ser comportamentos promotores de mudanças positivas) e os comportamentos desviantes que não devem ser tolerados?
Um critério possível, e de facto muito usado nas sociedades democráticas, é o chamado “princípio do dano”, do filósofo Stuart Mill, segundo o qual o Estado e a sociedade só devem interferir nas acções de uma pessoa se elas prejudicarem outras pessoas (caso prejudiquem apenas a própria não deve haver interferência).