Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010

Etnocentrismo universal

Zuni girl withjar jovem Zuñi                                                    Apiatan-(Wooden-Lance)-Kiowa-1894

Rapariga Zuñi                                                                 Homem Kiowa

Quando se fala de etnocentrismo as pessoas pensam geralmente na atitude dos europeus que, durante séculos, ao contactarem com outros povos desprezavam muitas vezes os seus costumes e lhes impunham os costumes europeus. Contudo, como mostra a antropóloga Ruth Benedict, o etnocentrismo é uma atitude muito generalizada, talvez mesmo universal. Por exemplo: diversos povos dão a si mesmos um nome que, na sua língua, significa “seres humanos”; o que sugere que não consideram os outros povos realmente humanos e que, por conseguinte, não têm para com eles os deveres e obrigações que têm para com os membros do seu próprio povo.

A «diferença qualitativa entre ‘o meu próprio’ grupo fechado, e o que a ele é estranho» existe nas sociedades modernas mas não só: «a avaliar pela sua existência universal entre povos primitivos, parece ser uma das mais primitivas distinções humanas. (…) Todas as tribos primitivas concordam em reconhecer esta categoria dos estranhos ao seu grupo, aqueles que não só estão fora das disposições do código moral que é observado dentro dos limites do grupo de cada uma, mas a quem sumariamente se nega um lugar no esquema humano. Um grande número de nomes de tribos comummente usados – Zuñi, Déné, Kiowa, e outros – são nomes (…) que designam ‘seres humanos’ (…). Fora do grupo fechado não há seres humanos. E isto a despeito do facto de (…) cada tribo estar rodeada por povos que partilham das suas artes e invenções materiais, de práticas complicadas que se desenvolveram através de trocas mútuas de comportamento entre um povo e outro.

O homem primitivo nunca considerou o mundo nem viu a Humanidade como se fosse um grupo, nem fez causa comum com a sua espécie. Desde o início foi um habitante de uma província que se isolou por altas barreiras. Quer se tratasse de escolher mulher ou de cortar uma cabeça, a primeira distinção que fazia, e a mais importante, era entre o seu próprio grupo e os fora do grémio

Ruth Benedict, Padrões de Cultura, Edição Livros do Brasil, Lisboa, s/d, pp. 19-20.

The Dene Déné

Homens Déné (The Dene)

Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

Até que a senilidade nos separe

 

lindqvist Fleeing the War in Georgia

Fotografia de Lars Lindqvist: Fleeing the War in Georgia.

Face au Silence

Fotografia de Christophe Agou: Jean & Babette.

Fotografias descobertas aqui.

Música a condizer: “Speak Softly Love” , cantada por Scott Walker.

Matriz do 1º mini-teste de Sociologia

matriz 1º miniteste sociologia

Domingo, 26 de Setembro de 2010

Diariamente 12 adolescentes são mães

adolescente grávidaNotícia do jornal Público:

«São oriundas de famílias carenciadas, abandonaram a escola cedo e têm falta de objectivos profissionais. Para muitas raparigas entre os 12 e os 19 anos, a gravidez surge como "um projecto de vida, na ausência de outros", revela Teresa Bombas, da Sociedade Portuguesa da Contracepção. 

Diariamente, 12 adolescentes são mães e "a maior parte tem informação sobre contraceptivos", acrescenta. O mesmo acontece com as mulheres portuguesas - mais de 85 por cento usam contraceptivos, contudo, uma em cada três já teve uma gravidez indesejada.»

Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

Sociologia e pena de morte

enforcamento execução pública

Nos posts A Sociologia e as outras Ciências Sociais: o caso da pena de morteRaça e pena de morte foi explicado um dos tópicos que pode levar um sociólogo a estudar a pena de morte.  Eis outro, abordado pelo sociólogo inglês Anthony Giddens: Será que a pena de morte dissuade realmente o crime?

“Em muitos países existe pressão pública a favor do restabelecimento da  pena de morte, pelo menos para certo tipo de crimes (como o terrorismo ou o assassínio de polícias). Na Grã-Bretanha, sondagens da opinião pública mostram consistentemente que a maioria da população gostaria que a pena de morte fosse reinstalada. Aparentemente, muita gente acredita que a ameaça de execução desencoraja potenciais assassinos, mas, embora as discussões continuem, poucos ou nenhuns dados apoiam esta ideia. Os países que aboliram a pena de morte não registaram um aumento considerável da taxa de homicídios. Embora os E.U.A. mantenham a pena de morte, os níveis americanos de homicídio são, de longe, os mais elevados do mundo industrializado.”

Anthony Giddens, Sociologia, 3ª edição, Lisboa, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, pág. 235.

Raça e pena de morte

pena de morte cadeira eléctrica Homem negro a ser amarrado à cadeira eléctrica.

Em países como os EUA, a raça das pessoas envolvidas nos processos penais parece ter alguma influência nas sentenças aplicadas.

“Por exemplo, no seu estudo dos dados do tribunal federal norte-americano [publicado em 2000] os sociólogos Darrell Stenffensmeier e Stephen Demuth (…) descobriram que, em média, os infractores brancos recebem sentenças  menores em comparação com os infractores latinos e afro-americanos.”

Como se pode verificar no post A Sociologia e as outras Ciências Sociais: o caso da pena de morte  e no quadro seguinte, essa influência ocorre também no caso do castigo mais pesado do sistema penal norte-americano: a pena de morte.

pena de morte e raça nos EUA

“Os dados sobre a população são de 2000; os dados sobre os promotores são de 1988; os dados sobre os presos são de Dezembro de 2003; os dados sobre as vítimas são de 1977 a Dezembro de 2003.”

(Quadro com gráficos e textos entre parêntesis retirados de: Richard T. Schaefer, Sociologia, 6ª edição, McGraw-Hill, São Paulo, 2006, pág. 189. )

Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

O que são ritos de passagem?

jovem da etnia yawalapiti se submete a ritual de passagemJovem da etnia yawalapiti (Alto Xingu, Brasil) submete-se a um ritual de passagem, em que a sua pele é arranhada com dentes de peixe até sangrar.  (Fotografia e informação obtidas aqui.)

Os ritos de passagem (ou de iniciação) são cerimónias que assinalam transições importantes no desenvolvimento do indivíduo e em que ocorre uma mudança de estatuto social. Por exemplo: os ritos ligados ao nascimento (como o baptismo), os ritos da puberdade (a iniciação à condição de adulto), o casamento, ritos de integração em grupos específicos (nomeadamente as praxes nas escolas e nas Forças Armadas), ritos ligados à morte (como os funerais).

Vejamos com mais detalhe os ritos da puberdade. Estes assinalam o fim da infância e a entrada na maioridade (que por vezes tem várias fases), ou seja, o início da capacidade sexual e reprodutiva e o direito de desempenhar as funções próprias dos adultos. Essas cerimónias constituem uma iniciação na vida dos adultos. (Nalgumas sociedades não se reconhece a adolescência como um período diferenciado.)

Em muitas sociedades essa passagem para a condição de adulto é bastante dramatizada e é vista como uma grande mudança – como se a criança morresse e o adulto fosse outra pessoa. Muitas vezes chega-se ao ponto de atribuir um novo nome ao iniciado.

As características desses ritos dependem principalmente do estilo de vida do povo em causa e do sexo da pessoa iniciada, pois as provas incluídas nas cerimónias pretendem ser uma preparação para a vida e uma ocasião para o iniciado demonstrar as suas qualidades.

Por isso, quando se trata de um povo guerreiro (ou então um povo cuja sobrevivência depende de actividades, como a caça e a pesca, cujo exercício requer coragem, força e resistência) as provas exigidas aos iniciados são normalmente violentas e dolorosas.

Quando as actividades predominantes numa sociedade são mais “pacíficas”, como a agricultura, os ritos são normalmente menos violentos e menos exigentes.

Contudo, por vezes a violência e a exigência dos ritos deve-se a crenças religiosas e morais e é independente do estilo de vida. É por isso que nalgumas sociedades existem ritos de passagem femininos muito violentos e dolorosos (envolvendo, por exemplo, mutilações genitais).

Os ritos da puberdade, e outros ritos de passagem, simbolizam a aceitação por parte do indivíduo das crenças, costumes e normas comunitárias: ao submeter-se às provas ele dá o seu assentimento à tradição.

Esses ritos simbolizam também o reconhecimento social do indivíduo e a sua integração no grupo – dos homens, das mulheres, etc. É como se lhe dissessem: “agora és um de nós”, “agora podes viver (caçar, pescar, comer, conversar de igual para igual, casar, etc.) connosco”.

A repetição dos ritos e o facto de os iniciados de hoje serem os futuros iniciadores, reforçam a coesão do grupo e a sua identidade cultural colectiva.

Pertencer ao grupo, ser aceite pelos outros, partilhar essa identidade colectiva, é importante em termos psicológicos e ajuda a definir a identidade individual – ajuda a pessoa a saber quem é e a ser reconhecida pelos outros como tal. Sem isso, as pessoas normalmente sentem-se desenraizadas e “perdidas”.

Devido a essa necessidade de identificação e reconhecimento, em muitos ritos de iniciação são feitas marcas corporais características do grupo e que demonstram publicamente que aquele individuo dele faz parte: tatuagens, cicatrizes, dedos amputados, etc.

Nas modernas sociedades industrializadas continuam a existir ritos de passagem ou iniciação: baptismo, casamento, entrega de diplomas, praxes, etc.

Mas não têm a importância social que têm em sociedades mais pequenas e “primitivas”: não envolvem toda a comunidade e têm um significado mais vago e muito menos força simbólica. Não têm quase nunca um carácter obrigatório. Por isso, não têm o poder integrador dos ritos de outras sociedades e são menos eficazes a promover a identidade colectiva e influenciam menos a identidade individual.

No caso dos ritos de puberdade isso é muito notório. Nas nossas sociedades a passagem da infância à idade adulta é muito gradual, pois pelo meio existe o longo período da adolescência, e não se faz através de um grande e simbólico rito de iniciação, embora existam pequenos ritos de iniciação ligados à entrada na escola (nomeadamente as praxes universitárias) e à celebração de alguns aniversários (nomeadamente os 18 anos, que permitem votar, tirar carta de condução, etc.).

Quarta-feira, 15 de Setembro de 2010

Rituais de passagem


Pode encontrar aqui alguns vídeos com impressionantes rituais de passagem ou iniciação, bem como uma breve explicação dos mesmos.

O ritual da Tucandeira

Reportagem televisiva sobre o ritual da Tucandeira, na aldeia Inhaã-Bé, dos Sateré-Mawés (perto de Manaus, Amazonas).

Mais informações sobre esse ritual de iniciação neste post.

Terça-feira, 14 de Setembro de 2010

Fura a orelha e serás um homem

O vídeo mostra a cerimónia de perfuração da orelha, um ritual de iniciação através do qual os rapazes Xavante acedem à condição de adultos. (Mais informações aqui.)

homem Xavante

Homem Xavante com a orelha perfurada.

Domingo, 12 de Setembro de 2010

Boas vindas sociológicas

Votos de um bom ano lectivo para os alunos das turmas D, E e F do 12º ano! Bem vindos à Sociologia!

Bissau aula debaixo da árvore

Aula debaixo de uma árvore, na Guiné-Bissau.

Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010

Swing indígena

Amigos apihi-pihã. Foto de Eduardo Viveiros de Castro Fotografia de amigos apihi-pihã, de Eduardo Viveiros de Castro, 1982.

Entre os Araweté, o «novo casal começa imediatamente a ser visitado por outros casais, seu pátio é o mais alegre e bulhento à noite; ali se brinca, os homens se abraçam, as mulheres cochicham e riem. Dentro de alguns dias, nota-se uma associação freqüente entre o recém-casado e um outro homem, bem como entre sua mulher e a mulher deste. Os dois casais começam a sair juntos à mata, a pintar-se e decorar-se no pátio do casal mais novo. Está criada a relação de apihi-pihã.

A marca característica da relação apihi-pihã é a "alegria": tori. Os apihi-pihã (amigos de mesmo sexo) mantêm um convívio de camaradagem jocosa, sem nenhuma conotação agressiva; eles oyo mo-ori, "alegram-se reciprocamente": estão sempre abraçados, são companheiros assíduos na mata, usam livremente dos bens do outro. Quando os homens da aldeia saem para as caçadas coletivas, as mulheres apihi-pihã vão dormir na mesma casa. Na formação da dança do cauim, é esse o laço focal entre os homens. Os amigos de sexo oposto (a apihi e o apino) recebem o epíteto de tori pã: "alegrador".

O cimento dessa relação é a mutualidade sexual. Os apihi-pihã trocam de cônjuges temporariamente, segundo dois métodos: oyo iwi ("morar junto"), pelo qual os homens vão à noite à casa das apihi, ocupando a rede do amigo, e de manhã retornam para as esposas; e oyo pepi ("trocar"), pelo qual as mulheres passam a residir por alguns dias na casa dos apino. Em ambos os casos, porém, o quarteto é sempre visto junto, no pátio de um dos casais. Os casais trocados costumam sair à cata de jabotis, tomando direções diversas; à noite se reúnem para comer o que trouxeram. Essa mutualidade sexual, assim, é uma alternância, não um sistema de 'sexo grupal'.»

Informação retirada do site Povos Indígenas no Brasil.

O castigo do adultério

Karajá Brazilian-Indians Os Karajá, do Brasil,  “preferem a monogamia e o divórcio é censurado pelo grupo. Se a infidelidade do homem casado se torna pública, os parentes masculinos da mulher abandonada castigam severamente o infractor perante toda a aldeia, numa grande acção dramática, que pode tomar proporções maiores com o acirramento de ânimos entre os grupos domésticos envolvidos, resultando inclusive em queima da casa da família do marido.”

Informação retirada do site Povos Indígenas no Brasil.

Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010

Para que serve um blogue?

Há blogues sobre os mais diversos assuntos, com motivações e lógicas de publicação muito diferentes. A pergunta do título pode receber, portanto, respostas muito diferentes.

Se alguém tentar estudar este novo fenómeno social, ganhará em analisar o uso que o sociólogo moçambicano Carlos Serra está neste momento a dar ao seu blogue – Diário de um Sociólogo –, noticiando em permanência as manifestações que têm ocorrido em Maputo.  Carlos Serra vai contando o que sabe, nomeadamente através da divulgação de notícias que lhe enviam, e para manter a informação actualizada vai acrescentando adendas aos posts – com indicação da hora e do minuto de publicação. Uma espécie de blogue em directo, portanto.

Espreite aqui, aqui e aqui para acompanhar o “directo”.

As facilidades nem sempre facilitam

viajar num camião apinhado de pessoas procurar água Índia

As fotografias foram tiradas algures em África e na Índia. Em Portugal, viajar e arranjar água é muito mais fácil.

Talvez valesse a pena perguntar o que andamos a fazer com as facilidades e oportunidades que temos. Talvez descobríssemos que, afinal, as facilidades nem sempre facilitam.

A mesma ideia, mas a propósito da educação, aqui.