O título não é exagerado. As notícias são mesmo alarmantes. Verifique aqui.
Sábado, 28 de Agosto de 2010
Quinta-feira, 26 de Agosto de 2010
Crónica da desolação
Caveiras de vítimas dos Khmers Vermelhos no campo de extermínio S-21, no Camboja.
«Entre 1915 1 1917, os Turcos massacraram talvez um milhão e meio de arménios. Nos anos 30, Estaline deu ordem para que se matassem de 7 a 10 milhões de pessoas. É geralmente atribuído o número de 6 milhões ao genocídio nazi dos Judeus. Depois foi a vez dos massacres no Camboja, no Ruanda e, quando o século se aproximava do fim, na Bósnia, no Kosovo e em Timor-Leste. (…)
[Mas] as horrendas carnificinas do século XX não foram um fenómeno novo, salvo pelo facto de a tecnologia e as comunicações modernas permitirem matar muitas mais pessoas num período de tempo relativamente curto. Como Lawrence Keeley mostrou em War Before Civilization, a guerra tem sido uma constante na vida da vasta maioria das culturas humanas, não se fazendo geralmente prisioneiros masculinos, embora, por vezes, se capturem mulheres e crianças. Segundo tudo indica, não eram invulgares os massacres de grupos inteiros de pessoas. As valas comuns da Europa – locais de enterramento que contêm pessoas de todas as idades que tiveram uma morte violenta – têm pelo menos 7000 anos, conforme atesta a vala neolítica de Talheim. Em Crow Deek, no Dakota do Sul, mais de um século antes de Cristóvão Colombo ter partido para a América, 500 homens, mulheres e crianças foram escalpados e mutilados antes de serem lançados para uma vala. É tremendo pensar que em muitas sociedades tribais, apesar de não existirem metralhadoras nem explosivos sofisticados, a percentagem da população morta anualmente em guerras era muito superior à de qualquer sociedade moderna, incluindo a Alemanha e a Rússia no século XX.»
Peter Singer, Um Só Mundo – A Ética da Globalização, Gradiva, Lisboa, 2004, pp. 161 e 158.
Vítimas do massacre dos arménios perpetrado pelos turcos.
Foi por estas e por muitas outras coisas infelizmente semelhantes que Walter Benjamin, filósofo judeu alemão que se suicidou enquanto tentava fugir aos Nazis, disse que a história humana é uma crónica da desolação.
Terça-feira, 17 de Agosto de 2010
Fotografar o Jazz
Se gosta de Jazz e de fotografia, ofereça um presente a si mesmo clicando neste nome: Gottlieb Jazz Photos.
Além da imensa qualidade estética, as fotografias de William P. Gottlieb têm também bastante interesse sociológico.
Audição: Frank Sinatra, “I'm A Fool To Want You”.
Sábado, 14 de Agosto de 2010
Herança cultural e autonomia
«A história da vida individual de cada pessoa é acima de tudo uma acomodação aos padrões de forma e de medida tradicionalmente transmitidos na sua comunidade de geração para geração. Desde que o indivíduo vem ao mundo os costumes do ambiente em que nasceu moldam a sua experiência dos factos e a sua conduta. Quando começa a falar, ele é o frutozinho da sua cultura, e quando crescido e capaz de tomar parte nas actividades desta, os hábitos dela são os seus hábitos, as crenças dela, as suas crenças, as incapacidades dela, as suas incapacidades. Todo aquele que nasça no seu grupo delas partilhará com ele, e todo aquele que nasça num grupo do lado oposto adquirirá a milionésima parte dessa herança.»
Ruth Benedict, Padrões de Cultura, Edição Livros do Brasil, Lisboa, s/d, pág. 15.
Esta descrição que a antropóloga Ruth Benedict faz do “papel que o costume desempenha na formação do indivíduo” talvez se aplique à maior parte das pessoas, mas não a todas. Nem todas as pessoas são “escravas” dos costumes da sua sociedade. Algumas conseguem distanciar-se, pelo menos em parte, dessa influência. Esse distanciamento – que talvez se possa chamar autonomia ou mesmo liberdade - é um dos melhores frutos do exercício do pensamento crítico e, em particular, do estudo das ciências e da filosofia.
Segunda-feira, 9 de Agosto de 2010
Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010
O estatuto de doente
O estatuto social é a posição que um indivíduo ocupa na sociedade ou num grupo social específico, à qual estão associados diversos direitos. Dito por outras palavras: pelo facto de ocupar essa posição, o indivíduo pode legitimamente esperar certos comportamentos por parte das outras pessoas.
Há estatutos muito bem definidos e socialmente regulamentados, como por exemplo os estatutos profissionais. Mas há também estatutos mais vagos e menos determinados socialmente, como por exemplo o estatuto de pessoa de meia-idade ou de amigo. Por isso, a lista de comportamentos que é razoável um professor esperar das outras pessoas é bastante mais objectiva e consensual que a lista equivalente de um amigo.
O estatuto de doente pertence sem dúvida ao grupo dos estatutos vagos. Além de um pequeno núcleo de direitos óbvios, como ter tratamentos médicos adequados, não é muito claro o que deve um doente esperar das outras pessoas.
Por isso, não é fácil avaliar as palavras com que uma senhora, talvez a esposa, fulminou um fulano mirrado e cabisbaixo, num corredor de Hospital:
“Tens de fazer alguma coisa pela vida! És um homem ou um rato? Cura-te, senão…”
Fotografia encontrada aqui.
Terça-feira, 3 de Agosto de 2010
A TV e a dificuldade de ver ao perto
Uma professora do ensino básico pediu aos alunos que fizessem uma redacção sobre o que gostariam que Deus fizesse por eles.
Ao fim da tarde, quando corrigia as redacções, leu uma que a deixou muito emocionada. O marido, que, nesse momento, acabava de entrar, viu-a a chorar e perguntou:
- O que é que aconteceu?
Ela respondeu:
- Lê isto.
Era a redacção de um aluno.
Senhor, esta noite peço-te algo especial: transforma-me num televisor. Quero ocupar o lugar dele. Viver como vive a TV da minha casa. Ter um lugar especial para mim, e reunir a minha família à volta... Ser levado a sério quando falo... Quero ser o centro das atenções e ser escutado sem interrupções nem perguntas. Quero receber o mesmo cuidado especial que a TV recebe quando não funciona. E ter a companhia do meu pai quando ele chega a casa, mesmo quando está cansado. E que a minha mãe me procure quando estiver sozinha e aborrecida, em vez de me ignorar.. E ainda, que os meus irmãos lutem e se batam para estar comigo. Quero sentir que a minha família deixa tudo de lado, de vez em quando, para passar alguns momentos comigo. E, por fim, faz com que eu possa diverti-los a todos. Senhor, não te peço muito...Só quero viver o que vive qualquer televisor.
Naquele momento, o marido disse:
- Meu Deus, coitado desse miúdo! Que pais!
E ela olhou-o e respondeu:
- Essa redacção é do nosso filho!
História “roubada” ao blogue Aprendiz de Sociólogo.








