Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

Os ses da vida

Não se trata de um poema  sociológico, se é que há poemas sociológicos, uma vez que descreve uma pessoa ideal e não uma pessoa real, mas é um excelente poema.

SE

Se consegues continuar de cabeça fria quando à volta
Todos a perderam e dizem que a culpa é tua,
Se continuas a crer em ti quando todos duvidam,
Mas em ti conservas espaço para a dúvida deles;
Se consegues esperar e não ficar cansado pela espera,
Ou se mesmo vítima da mentira, não a usas,
Ou se, sendo odiado, o ódio não cultivas,
E não te armas em bom, nem falas de alto.

Se consegues sonhar e não deixares que os sonhos te submetam;
Se consegues pensar e não fazer do teu pensamento o teu escopo;
Se consegues encontrar-te com o Triunfo e o Desastre
E tratar esses dois impostores do mesmo modo;
Se consegues suportar ouvir a verdade que disseste
Transformada por velhacos em armadilha para enganar loucos,
Ou, vendo as coisas por que deste a vida aniquiladas,
Te resignas e as reconstróis com ferramentas em desuso.

Se consegues amontoar todas as vitórias
E o todo arriscar numa cara ou coroa,
E perder, e recomeçar tudo de novo
Sem nunca te lamentares da tua perda;
Se consegues forçar coração, nervos e tendões
Para fazeres o que deves, muito após eles terem ido embora
E assim aguentar-te quando nada resta em ti
Excepto o teu Querer que lhes diz: “Aguentem!”

Se consegues falar às multidões e manter-te virtuoso,
Ou acompanhar com reis e não perder a humildade,
Se nem inimigos nem amigos te podem magoar,
Se todos os homens contam contigo, mas não demasiado;
Se consegues preencher o minuto inelutável
Com um percurso que valha sessenta segundos,
O Mundo é teu e tudo o que ele contém,
E, acima de tudo, meu filho, um Homem serás!

Rudyard Kipling, in Livro Perigoso para Rapazes, de Hal Iggulden e Conn Iggulden Guerra & Paz, 2008.

Audição: Eine kleine Nachtmusik, de Mozart.

Terça-feira, 13 de Julho de 2010

A guerra sem fim

beijo-do-soldado-no-comboio

Na fotografia, cujo autor desconheço, um soldado beija acrobaticamente a namorada, antes de partir para a guerra.   A imagem pode levar-nos a pensar em canções românticas, como por exemplo “Aranjuez Mon Amour” de Richard Anthony, mas também em realidades mais tristes que o amor correspondido. Por exemplo: muitos soldados regressam da guerra com perturbações psicológicas graves, designadas por stress de guerra. Estima-se que em Portugal existam cerca de 150 mil homens com esse problema, por terem combatido na guerra do Ultramar. Para eles a guerra ainda não terminou.

Audição:  “Aranjuez Mon Amour” de Richard Anthony.

Domingo, 4 de Julho de 2010

E a dor fará de ti um homem

ritual de iniciação da Tucandeira

Os índios sateré-maués do Brasil só consideram adulto um rapaz que se tenha submetido ao seguinte ritual de iniciação:

“Devem enfiar a mão numa espécie de luva tramada em palha, que (…) tem centenas de watyamas (formigas tucandeiras) habilmente encravadas nos espaços da trama de palha, de forma que os ferrões delasluva de formigas fiquem voltados para dentro. Tão logo a mão é enfiada, as formigas – irritadas pela imobilização entre as tramas da palha – começam a ferroar. Não é de bom alvitre que os meninos gritem muito e não se espera que chorem. Alguns minutos depois, eles são convidados a trocar de mão. Esse ritual assustador começa nos fins de tarde e se prolonga até o meio da madrugada. É repetido em dias subsequentes, de forma que cada menino deve enfiar a mão na luva de formigas pelo menos 20 vezes, até ser aprovado pelos pajés. (…) Antigamente o ritual era muito mais doloroso: os meninos eram obrigados a introduzir o pénis no formigueiro. O órgão ficava inchado como uma bexiga de ar (…). As missões católicas proibiram esse formato e os sateré-maués inventaram a luva.”

Entre os sateré-maués existe uma elevada taxa de suicídio juvenil. Alguns sociólogos sugerem que a violência dos rituais de iniciação pode ser a causa de tal facto. Outros discordam e  consideram que “os suicídios podem ser causados pela mudança violenta de hábitos trazida pela invasão dos brancos”.

Independentemente de quem tenha razão, parece evidente que se trata de um ritual muito violento e doloroso. Será mesmo necessária tanta dor para tornar um rapazinho num homem?

Leia mais aqui.

Sexta-feira, 2 de Julho de 2010

Os cacos da vida

Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso,
ela nos espia do aparador.

Carlos Drummond de Andrade

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