Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Teatro escolar: O sonho de Alice

Cartaz 1

A peça “O sonho de Alice” é o chamado “produto final” de um trabalho  da disciplina de Área de Projecto (professora Catarina Soares). É da autoria do grupo "O Teatro". Este é constituído por alguns alunos (Brígida Martins, Daniela Pinto, Eurico Graça, Emanuel Castelo, Patrícia Modesto e Ricardo Pinto) da turma E do 12º Ano, da Escola Secundária de Pinheiro e Rosa. A peça será apresentada na próxima quarta-feira, dia 2 de Junho, pelas 21.30h no Grande Auditório das Gambelas. A entrada é livre.

Clique aqui para ver o blogue do deste grupo.

Blogues de alunos

Alguns dos meus alunos de Sociologia criaram blogues, no âmbito do trabalho desenvolvido na disciplina de Área de Projecto.   Ei-los:

Interculturalidade Juvenil

Grande Reportagem

O Teatro

Este último grupo apresenta-se deste modo:

À Descoberta do Teatro

Olá.

Somos um grupo de Área de Projecto que se juntou à volta dum tema interessante e intemporal: O Teatro.
Na sua essência, o Teatro é a arte de fingir a vida, que longe de ser algo fútil e meramente superficial, é extremamente importante tanto como expressão de arte como ferramenta para a aprendizagem de valores e a vivência de novas experiências.

No entanto, o Teatro tem vindo a perder o seu protagonismo e é muitas vezes desvalorizado entre a sociedade portuguesa.
Assim, o grupo decidiu realizar uma peça de Teatro com o objectivo de tentar aproximar (e nalguns casos reaproximar) a sociedade do Teatro, tendo consequentemente sempre em vista incutir a Cultura.

Através do nosso blogue, poderá ver e conhecer alguns aspectos do Teatro (como os géneros e a sua história) e ainda observar o desenvolvimento do nosso projecto.
Esperamos que nos visite e que assista à nossa peça (data a definir)

Atenciosamente,

Grupo “O Teatro”

Domingo, 30 de Maio de 2010

O caminho que não escolhi

THE ROAD NOT TAKEN

TWO roads diverged in a yellow wood,   
And sorry I could not travel both   
And be one traveler, long I stood   
And looked down one as far as I could   

To where it bent in the undergrowth;           
Then took the other, as just as fair,   
And having perhaps the better claim,   
Because it was grassy and wanted wear; 

Though as for that the passing there   
Had worn them really about the same,           
And both that morning equally lay   
In leaves no step had trodden black.

Oh, I kept the first for another day!   
Yet knowing how way leads on to way,   
I doubted if I should ever come back.          
I shall be telling this with a sigh

Somewhere ages and ages hence:   
Two roads diverged in a wood, and I—   
I took the one less traveled by,   
And that has made all the difference.

Robert Frost, Mountain Interval, 1920.

robert frost yy

Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

Espanhóis preferem a Internet ao sexo

Não, o título não é populista. Pelo menos completamente.

mais internet que sexo O jornal i refere um estudo, em que foram inquiridos 600 utilizadores da Internet, e estes   mostram-se mais angustiados com a impossibilidade de se conectar à internet, do que com a privação de manter relações sexuais.

Claro que o tamanho e, sobretudo, a representatividade da amostra são questionáveis, mas o estudo não deixa de indicar uma tendência comportamental que podemos comprovar no dia a dia, mesmo sem estudos. A importância da Internet na vida pessoal e profissional é cada vez maior e muitas vezes implica a desvalorização de outras actividades. A lista é grande: estudo e trabalhos de casa, actividades ao ar livre, encontros de amigos… e sexo.

Clique aqui para ler mais.

Terça-feira, 25 de Maio de 2010

Um dia muito especial

Hoje de manhã, ao comprar o jornal, ouvi um diálogo digno da imaginação de um  escritor:

- Amanhã é um dia muito especial! Faz quatro anos que o meu filho mais novo nasceu.
- Quatro anos? Como o tempo passa depressa…
- Pois é. Para mim parece que foi ontem. Lembro-me de tudo, sabes?
- O dia de amanhã também é diferente para mim… Faz dois anos que um amigo se matou.
- Porquê?
- …
- Não sabes?
- Bem, digamos que tinha um coração maior que o cérebro.

Jovens portugueses conseguem facilmente comprar álcool

Notícia do jornal Público:

jovens a beber cerveja Num “estudo da Deco (Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor), mais de metade dos jovens entre os 12 e os 15 anos que tentaram comprar bebidas alcoólicas conseguiram, apesar de a lei o proibir até aos 16 anos.

Em 54 das 97 visitas que foram feitas (56 por cento) os menores de 16 anos conseguiram comprar bebidas alcoólicas, sendo que em 26 dos casos ou estava afixado no estabelecimento um aviso sobre a proibição ou os empregados confirmaram a idade dos jovens e mesmo assim decidiram autorizar a venda.

Ainda este mês, a Sociedade Portuguesa de Hepatologia divulgou que cerca de 2,3 milhões de portugueses são considerados bebedores excessivos numa altura em que dois terços das doenças hepáticas são causados pelo consumo excessivo de álcool. Segundo a mesma fonte, há também perto de dois milhões de adolescentes que consomem álcool em excesso e um terço dos jovens com 13 anos já é consumidor deste tipo de bebidas. “Metade dos jovens com 15 anos já se embebedaram”, estima a sociedade.

Um outro estudo feito em 2007 pela Universidade Nova de Lisboa para o Instituto da Droga e da Toxicodependência também mostrou que 35 por cento dos jovens entre os 15 e os 19 anos se embebedam, pelo menos, uma vez por ano.

Clique aqui para ler mais.

Big Brother familiar

Notícia do jornal i: “Um Big Brother com trinta e duas famílias e montes de filhos aos berros”

família vendo TV «De 2002 a 2005,  os investigadores da Universidade da Califórnia (Los Angeles) recrutaram laboriosamente 32 famílias da zona e gravaram em vídeo uma semana do quotidiano das pessoas, cobrindo praticamente todos os momentos em que elas pessoas estão acordadas.

O projecto da UCLA constituiu um esforço para captar uma espécie sociológica relativamente recente: a família estado-unidense de classe média, com vários filhos e em que ambos os progenitores trabalham. Os investigadores acabaram há pouco de analisar as 1 540 horas videogravadas, codificando e classificando cada abraço, cada birra, cada procura obsessiva de um sapato de desporto perdido.

O estudo incidiu sobre um segmento restrito da diversidade de Los Angeles, abrangendo duas famílias negras, uma latino-americana, uma japonesa, alguns casais hetero-étnicos e ainda dois lares com pais homossexuais masculinos.

Após mais de 9 milhões de dólares e incontáveis horas de visionamento de material, os investigadores constataram que a vida nessas trincheiras é... bem, é exactamente como parece: uma barragem de ansiedade, de sobreposição de tarefas e de zangas inconsequentes. E constataram que havia muito por onde embirrarem uns com os outros.

As mães continuam a fazer a maior parte do trabalho doméstico: gastam nisso, em média, cerca de 27% do seu tempo, contra 18% dispendido pelos pais e 3% pelas crianças.»

Clique aqui para ler mais, nomeadamente se quiser saber que é a “nova matemática” familiar.

Quinta-feira, 20 de Maio de 2010

Fogo gelado

Fire and Ice

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I’ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

Robert Frost

Terça-feira, 18 de Maio de 2010

Chão cor-de-rosa

chão cor de rosa em Hokkaido flores sakura

Nalgumas zonas do Japão, na Primavera, o chão fica cor-de-rosa, devido a estas lindas florezinhas – cujo nome ignoro. E, algures no parque, lá está um bocadinho de Sociologia: uma família, a interagir debaixo de uma árvore – talvez uma cerejeira. Esperemos que se trate de uma família feliz e que a conversa flua com desembaraço, com mais sorrisos que silêncios, acerca de temas agradáveis: o livro que ela anda a ler, os sucessos escolares ou desportivos dos filhos, o próximo fim-de-semana...

Matriz do 5º teste de Sociologia

Matriz 5º teste Sociologia 2010

Matriz 5º teste Sociologia 2010y

Temas: Família. Estratificação: castas, classes sociais. Mobilidade social.

Segunda-feira, 17 de Maio de 2010

As classes sociais actuais

Quais são as classes sociais que existem nas sociedades actuais?

Não existe uma resposta consensual para esta questão. As respostas variam consoante o modelo teórico defendido pelo sociólogo, mas também consoante o país em causa, uma vez que a situação não é igual em todos. Há sociólogos que distinguem três classes principais, outros identificam cinco ou mesmo sete classes. Vejamos duas abordagens possíveis.

«Nas sociedades industriais, há, quase sempre, três classes fundamentais: uma classe superior de elite: (pessoas que vivem dos rendimentos das suas propriedades fundiárias e imobiliárias, empresários e dirigentes de alto nível), uma classe média bastante numerosa de profissionais e empregados das categorias superiores, e uma classe ainda mais numerosa de operários da indústria e de trabalhadores da agricultura e do terciário com escassa qualificação.»

Lucia DeMartis, Compêndio de Sociologia, Edições 70, Lisboa, 2006, pág. 118.

Embora as designações utilizadas nem sempre sejam iguais, muitos autores consideram que na actualidade existem cinco classes principais: classe alta, classe média alta, classe média, classe média baixa, classe baixa. Por vezes essas classes são designadas por letras: A, B, C1, C2 e D.  (Salvo erro, no Brasil utilizam-se as letras: A, B, C, D e E.)

Segundo estudos efectuados pela Marktest, em 2003 a população portuguesa dividia-se por essas classes sociais do seguinte modo:

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Ver também aqui.

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Bibliografia:

Anthony Giddens, Sociologia, 5ª edição, F. C. Gulbenkian, Lisboa, 2007.

Lucia DeMartis, Compêndio de Sociologia, Edições 70, Lisboa, 2006.

Richard T. Schaefer, Sociologia, 6ª edição, McGraw-Hill, São Paulo, 2006.

Marktest - http://www.marktest.com/wap/

Domingo, 16 de Maio de 2010

O sistema de classes nas sociedades actuais

«Podemos definir a classe como um conjunto grande de pessoas que partilham recursos económicos comuns, que influenciam fortemente o seu estilo de vida. A riqueza e a ocupação profissional constituem as principais bases das diferenças entre as classes. As classes diferem das anteriores formas de estratificação de várias formas:

  • Ao contrário de outros tipos de estratificação, as classes não são estabelecidas por disposições legais ou religiosas; a posição de classe não assenta numa posição herdada, determinada pela lei ou pelo costume. Os sistemas de classes são tipicamente mais fluidos do que os outros tipos de estratificação e as fronteiras entre as classes nunca são precisas. Não existem restrições formais ao casamento entre pessoas de classes diferentes.
  • A posição de classe de um indivíduo é, pelo menos em parte, alcançada e não simplesmente dada à nascença, como é comum em outros tipos de sistemas de estratificação. (No sistema de castas, a mobilidade individual de uma casta para outra não é possível.)
  • As classes dependem de diferenças económicas entre grupos de indivíduos - desigualdades na posse e no controlo de recursos materiais. Noutros tipos de sistemas de estratificação, os factores não económicos - como a influência da religião no sistema de castas indiano - são geralmente mais importantes.
  • Nos outros tipos de sistemas de estratificação, as desigualdades são primordialmente expressas em relações pessoais de dever ou obrigação - entre servo e senhor, escravo e dono, ou indivíduos de casta inferior e superior. O sistema de classes, pelo contrário, opera principalmente através de conexões em larga escala de tipo impessoal. Uma das maiores bases das diferenças entre classes, por exemplo, reside nas desigualdades em termos de remuneração e de condições de trabalho; estas afectam todas as pessoas em categorias profissionais específicas, em resultado de circunstâncias prevalecentes na economia global.»

Anthony Giddens, Sociologia, 5ª edição, F. C. Gulbenkian, 2007, Lisboa, pp. 284-285.

Sábado, 15 de Maio de 2010

O futuro imaginado no passado

Estas três gravuras fazem parte de uma colecção (da Biblioteca Nacional Francesa) de gravuras de 1910, em que se procurava imaginar como seria a vida no ano de 2000. (Pode ver outras gravuras da colecção no blogue há-dias-assim. Garanto que vale a pena dar uma espreitadela.)

É interessante observar que as previsões foram certeiras (hoje em dia existem diversos meios audiovisuais que são utilizados nas aulas e nas comunicações quotidianas e existem também meios aéreos para combater incêndios), mas influenciadas e limitadas pelos conhecimentos da época. O futuro previsto nestas gravuras é um futuro muito marcado pelo passado.

Passar-se-á certamente o mesmo se agora, em 2010, tentarmos imaginar a vida em 2100.  A imaginação é menos livre do que habitualmente se pensa, pois trabalha a partir dos materiais que a experiência actual e a memória do passado lhe oferecem.

aula do futuro Audiobooks em vez de livros

Audiobooks em vez de livros.

videoconferências de 2000 imaginadas em 1910

Videoconferências.

bombeiros do futuro imaginados no passado

Bombeiros voadores.

Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

O eterno retorno da crise

“Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal”.

Eça de Queirós, 1872, in “As Farpas”.

Repare-se na data e no autor da afirmação (encontrada no blogue Há Vida em Marta). Tem-se falado de dificuldades estruturais, não é?

Quarta-feira, 12 de Maio de 2010

Margem Sul State Of Mind: o sítio onde são desfeitos os sonhos

“Margem Sul State Of Mind”, de Diana Piedade e Rui Unas, é uma versão portuguesa e irónica de “Empire State Of Mind” de Jay-z e Alicia Keys (o original, que pode ouvir aqui, também é muito irónico). Infelizmente, a ironia e o humor não impedem que seja bastante realista. Eis a letra:

Estou aqui em Almada, ou aqui no fogueteiro
O seixal é mesmo ali, sou polícia sinaleiro
Para ali é o Barreiro, Montijo e Alcochete
Onde fica o Freeport que deu uma bronca do cacete
Props para o pessoal, que vive nesta margem
Que gasta 1,30€ quando passa na portagem
Sempre que passo aqui, tremo tipo gelatina
A primeira vez que fui, assaltado nesta esquina
A Segunda nesta rua, e a terceira foi aqui
A quarta foi agora, enquanto estou neste jardim!
Mando pausa, no Octavia da minha mãe
Ouço ganda maluco, eu respondo tá-se bem!
Sou poliglota, nas línguas eu sou forte
Falo português com sotaque dos PALOP
Falo em brasileiro, da Costa da Caparica
E criolo enquanto como uma cachupa rica

Refrão

Margem Sul, sítio onde são feitos os sonhos
Porque só se dorme, aqui!

Estar na Margem sul, vêm andar na selva de
asfalto e sofrer um assalto.

Bem-vindo à margem sul….

Sei dançar Kizomba, aprendi com a vizinha
o irmão não gostou, quase me partiu a espinha
Quando chego da discoteca às sete da la manhána
Vejo as paragens cheias de gente em fila Indiana
Margem sul é Graffiti, em paredes e muros
É Entrar numa loja, ouvir hip hop e Kuduro
É ver policias e ladrões jogar a apanhada
É às vezes ter que fazer queixa na esquadra
Foi aqui que me deram um excerto de porrada
Confundiram me com um niga que saiu de precária
Aqui jogava à bola ao frio e ao relento
Agora a praceta é parque de estacionamento
A primeira vez que fui, ao cinema foi, aqui
Vi o “Never ending story” e o “Karate Kid”

Refrão

Margem Sul, sítio onde são feitos os sonhos
Porque só se dorme, aqui!

Estar na Margem sul, vêm andar na selva de
asfalto e sofrer um assalto.

Bem-vindo à margem sul….

Aqui é só saude, temos óptimos hospitais
E poder de compra, temos centros comerciais
Para comprar mos DVD’s ou aquela Bike
Bens de primeira necessidade como o chapéu da Nike
Olha ali um casamento é só roupa cara
Homens com fato H&M as damas vestem Zara
Margem sul é cultura, não sei se sabes
É Rute Marlene, nos anos Soraia Chaves
Na relva faço piqueniques e também o pino!
Isto não é deserto, F FFFFUCK Mário Lino
Temos muito verde, mas aqui é só vermelhos
A festa do Avante é aqui todo os anos
Vou falar em cores também há amarelos
A loja dos chineses a onde eu comprava caramelos

Refrão

Margem Sul, sítio onde são feitos os sonhos
Porque só se dorme, aqui!

Estar na Margem sul, vêm andar na selva de
asfalto e sofrer um assalto.

Bem-vindo à margem sul….

Se precisas de apoio emocional
Cruza a ponte e
Vai ao Cristo no Pragal
Construído no tempo de Salazar
Têm os braços abertos para gritar:
ÉÉÉ´´EÉÉÉÉ´´EÉEÉ´´EIIIIIÉÉÉ

Refrão

Margem Sul, sítio onde são feitos os sonhos
Porque só se dorme, aqui!

Estar na Margem sul, vêm andar na selva de
asfalto e sofrer um assalto.

Bem-vindo à margem sul….

Terça-feira, 11 de Maio de 2010

O princípio da discriminação: nós e os outros

o sapo o porco e o estranho O sapo e o estranho excerto

o sapoe o estranho capa

 

 

Max Velthuijs

 

Max Velthuijs é um aclamado e premiado autor de livros infantis, que escreve e ilustra. É holandês. As histórias são curtas e  simples, mas não simplistas. A leitura dos seus livros permite aos adultos abordar com crianças pequenas temas como o racismo, o amor, a amizade, a tristeza, a morte, etc. Em Portugal estão editados diversos livros de Max Velthuijs  na Editorial Caminho. Por exemplo: “O Sapo Apaixonado” e “O Sapo e o Canto do Melro” (sobre a morte).  E “O Sapo e o Estranho”, claro.

Segunda-feira, 10 de Maio de 2010

Mudanças no sistema de castas indiano

K. R. Narayanan

K. R. Narayanan

«Em 2001, o assassinato de um jovem indiano na pequena vila de Kalvakol tornou-se objecto de uma revolta internacional. Um homem, um intocável ou dalit, foi arrastado para um campo, torturado e morto pelos habitantes da vila que pertenciam a uma casta superior. O seu crime: tinha ousado expressar a sua opinião na vila onde os intocáveis não podem ter opiniões. Os que foram presos pelo assassinato estavam presos. Um deles disse: “O que vocês esperam que façamos, que entreguemos a vila inteira para essa gente?”

O assassinato foi um sinal da tensão que cresce com o enfraquecimento do sistema de castas tradicional hindu. A Constituição da Índia, adoptada em 1950, aboliu formalmente a discriminação contra os intocáveis, cuja condição de párias os levava a ser excluídos dos templos, das escolas e da maior parte dos empregos. Mas o sistema de castas prevalece até hoje, porque ele não está fundamentado na lei, mas em costumes religiosos. É mais forte em vilas rurais, onde quase 90% dos intocáveis vivem, e mais fraco nas cidades que crescem, onde migrantes de castas mais baixas chegam do interior e se misturam nas populações irreconhecíveis das escolas públicas, dos hospitais e dos meios de transportes.

Historicamente, o sistema de castas não ficou imune à mudança. Durante o império da dinastia Mogul [entre 1526 e 1858], muitos intocáveis escaparam da sua condição de párias convertendo-se ao islamismo. E quando os britânicos assumiram o governo no período colonial impondo o estilo ocidental de agricultura, indústria e burocracia no país, abriram novas oportunidades para os indianos presos às castas. No século XX, os líderes do governo tentaram nivelar a situação para as castas mais baixas, mas o seu sucesso foi limitado. As ‘reservas’ do governo, um tipo de sistema de quotas, separavam uma certa percentagem dos empregos públicos e oportunidades educacionais para as castas mais desfavorecidas. Essa política [de discriminação positiva] produziu uma forte revolta entre as castas superiores.

A necessidade é maior entre os intocáveis - confinados a tarefas menores em empregos que, com o desenvolvimento tecnológico, estão a desaparecer -, que são impedidos de estudar e, portanto, impedidos de se preparar para empregos melhores. Hoje, esses 160 milhões de párias, que constituem aproximadamente um quarto da população da Índia, organizaram-se e estão fazendo com que as suas vozes sejam politicamente ouvidas. Em 1997, pela primeira vez na história da Índia, a posição simbólica - mas de alto status - de presidente foi para um intocável, K. R. Narayanan.

No total, os avanços tecnológicos e da urbanização trouxeram mais mudanças ao sistema de castas da Índia do que as políticas governamentais. Além disso, o anonimato da vida nas cidades - que tende a ocultar as fronteiras das castas - e a globalização da alta tecnologia abriram a vida social da Índia, trazendo novas oportunidades para aqueles que têm capacidades e habilidades para capitalizá-las.»

Ligeiramente adaptado a partir de: Richard T. Schaefer, Sociologia, 6ª edição, McGraw-Hill, São Paulo, 2006, pág. 202.

Castas: a desigualdade hereditária

Um dos sistemas de estratificação existentes é a estratificação por castas. O sistema de castas mais conhecido é o da Índia. Este existe há cerca de 1500 anos e, apesar de algumas mudanças ocorridas nas últimas décadas, continua implantado na sociedade indiana.

Uma casta é um agrupamento social hereditário, em que o estatuto do indivíduo passa de pai para filho. As castas caracterizam-se pela endogamia, ou seja, as pessoas só podem casar-se com pessoas da mesma casta. As várias castas dispõem-se na sociedade de forma hierárquica. (Em cada uma das castas existem muitas subcastas - no total, são mais de dois milhares.) Comparativamente com outros sistemas de estratificação, como as classes sociais e mesmo as ordens, o sistema de castas apresenta divisões muito nítidas e rígidas. A mobilidade social vertical é, portanto, muito reduzida.

pirãmide sistema de castas As castas indianas estão intimamente relacionadas com o hinduísmo, a principal religião indiana. Segundo uma lenda hindu, no princípio dos tempos as pessoas nasceram a partir do corpo de um deus e a zona do corpo de onde emergiram determinou que tivessem níveis de pureza e valor muito distintos. As diferentes castas exprimem esses diferentes níveis de pureza e valor e é por isso que algumas são superiores a outras.

A casta superior é a dos brâmanes, pois estes nasceram da cabeça do deus. A segunda casta mais importante é a dos xátrias, que nasceu dos braços do deus. Em terceiro lugar vem a casta dos vaisias, que nasceu das pernas do deus. Em quarto lugar encontra-se a casta dos sudras, que nasceu dos pés do deus. Por último, temos um agrupamento de pessoas chamadas intocáveis ou dalit, que não nasceram do próprio deus mas da poeira por ele pisada e que, por isso, são consideradas os seres mais inferiores da sociedade. Os intocáveis são tão desprezados que não constituem uma casta propriamente dita - são párias, excluídos.

A cada casta encontram-se associadas certas profissões, cuja hierarquia de pureza e valor acompanha a hierarquia das castas. Os brâmanes são sacerdotes, professores, etc. Os xátrias são guerreiros, políticos, etc. Os vaisias são comerciantes. Os sudras são artesãos e camponeses. Aos intocáveis cabem as profissões e actividades mais desvalorizadas, nomeadamente as que implicam contacto físico com sangue, cadáveres e excrementos: coveiros e cremadores de corpos, curtidores de couro, varredores, etc.

A hierarquização religiosa das castas em termos de pureza e impureza reflecte-se, portanto, numa hierarquização económica e política.

Como foi dito, os intocáveis são os membros da sociedade indiana mais desfavorecidos. Antes da constituição democrática de 1950, estavam proibidos de entrar nos templos e de frequentar as escolas. As leis não sancionavam as discriminações de que eram alvo. Num jardim ou noutro local público não se podiam sentar perto das pessoas de outras castas. Não podiam ir buscar água aos mesmos poços das pessoas de outras castas. Sucedeu (e por vezes ainda sucede) a muitos intocáveis serem insultados, espancados ou até mortos por motivos tão triviais como dirigirem a palavra a pessoas de castas superiores ou deixar a sua sombra tocar a sombra de uma pessoa de casta superior.

brâmane Brahmin boy ritual dalit1-1

Fotografias: brâmane a executar ritual religioso e mulher dalit com o filho.

Bibliografia:

A Enciclopédia, vol. 5, Editorial Verbo / jornal Público, Lisboa, 2004.

Anthony Giddens, Sociologia, 3ª edição, F.C. Gulbenkian, Lisboa, 2002.

Jean Cazeneuve, Dez grandes noções de Sociologia, Moraes Editores, Lisboa

Richard T. Schaefer, Sociologia, 6ª edição, McGraw-Hill, São Paulo, 2006.

Sábado, 8 de Maio de 2010

A banalidade do racismo

Fotografia de Thomas Shipp and Abram SmithQuando Abel Meeropol  viu esta fotografia escreveu um poema intitulado “Strange Fruit” e ofereceu-o a Billie Holiday. Cantado por esta, tornou-se um símbolo da luta contra o racismo, um hino aos direitos humanos.  E uma bela canção, claro.

Na fotografia podemos ver dois homens negros enforcados (Thomas Shipp e Abram Smith), num linchamento ocorrido em 1930 no sul dos EUA. Repara-se na assistência: pessoas de raça branca, de ambos os sexos e de diversas idades, algumas a sorrir e nenhuma delas indignada ou sequer incomodada.

A filósofa Hannah Arendt falou da “banalidade do mal” a propósito do facto de Adolf Eichmann (o nazi inventor da chamada “solução final”: a ideia de exterminar os judeus nos campos de concentração e nas câmaras de gás), não ser um indivíduo violento e agressivo, mas sim um indivíduo normal, um mero burocrata zeloso e sem princípios. As pessoas que vemos nesta fotografia são pessoas banais, não parecem especialmente perversas nem muito violentas e, no entanto, foram autoras ou pelo menos testemunhas coniventes do assassinato de dois seres humanos.

No blogue Dúvida Metódica pode encontrar o poema, a canção e uma pequena reflexão acerca do racismo e da desobediência civil. O post chama-se Strange fruit: o racismo não é estranho, é imoral.

Também escrevi acerca da “banalidade do mal” neste post: Obediência à autoridade ou a banalidade do mal.

Sexta-feira, 7 de Maio de 2010

Estratificação social

«Os sociólogos falam em estratificação social para descrever as desigualdades que existem entre indivíduos e grupos nas sociedades humanas. Pensamos frequentemente em estratificação em termos deestratos geológicos riqueza ou propriedade, mas ela também pode ocorrer com base noutros atributos como o género, a idade, a filiação religiosa ou a patente militar.

Os indivíduos e grupos gozam de um acesso (desigual) às recompensas, de acordo com a sua posição no esquema de estratificação. Assim, a forma mais simples de definir a estratificação consiste em vê-la como um sistema de desigualdades estruturadas entre diferentes agrupamentos de pessoas. Pode ser útil pensar-se na estratificação como uma sobreposição geológica de camadas de pedra sobre a superfície da terra. As sociedades podem ser vistas como constituindo ‘estratos’ hierarquizados, com os mais favorecidos no topo e os menos privilegiados perto do fundo.»

Anthony Giddens, Sociologia, 5ª edição, F. C. Gulbenkian, 2007, Lisboa, pág. 284.

 

«Podem distinguir-se quatro sistemas básicos de estratificação: a escravatura, as castas, os estados e as classes. Estes encontram-se algumas vezes em conjugação uns com os outros. A escravatura, por exemplo, coexistiu com as classes em Roma ou na Grécia Antiga, ou nos estados do sul dos EUA, antes da Guerra Civil Americana.»

Anthony Giddens, Sociologia, 3ª edição, F.C. Gulbenkian, Lisboa, 2002, pág. 296.

Mbuti: poucas desigualdades, mas ainda assim longe da igualdade

«As desigualdades existem em todos os tipos de sociedade humana. Mesmo nas culturas mais simples, onde as variações de riqueza e propriedade são praticamente inexistentes, há desigualdades entre os indivíduos. Entre homens e mulheres, jovens e idosos. A pessoa pode ter uma posição social superior a outra devido, por exemplo, à sua habilidade para caçar ou porque se acredita que tem dons especiais para contactar espíritos ancestrais. Os sociólogos falam da existência de estratificação social para descrever as desigualdades.»

Africa pigmeus MbutiUm exemplo de cultura “simples, onde as variações de riqueza e propriedade são praticamente inexistentes” é a sociedade dos Mbuti.

Os Mbuti são os pigmeus «que vivem numa área do Zaire, na África Central. Os Mbuti habitam uma região densamente florestada, de penetração difícil por forasteiros. Conhecem intimamente a floresta e movem-se com à vontade no seu interior. Há água em abundância, plantas silvestres comestíveis e animais para caçar. As casas dos Mbuti não são habitações permanentes e são construídas com folhas e ramos entrelaçados, podendo ser postas de pé numa questão de horas e abandonadas quando os Mbuti partem - o que fazem constantemente, visto que nunca permanecem mais do que um mês no mesmo sítio.

Mbuti cortanto árvore Os Mbuti vivem em pequenos bandos, constituídos por quatro ou cinco famílias. Cada grupo é composto por um conjunto de membros razoavelmente permanentes, mas nada há que impeça uma família ou um indivíduo isolado de abandonar um grupo para se juntar a outro. Ninguém ‘governa’ um bando - não há chefes. Os mais velhos têm, contudo, o dever de apaziguar o ‘barulho’ - disputas ou brigas - que os pigmeus acreditam poder ser do desagrado dos espíritos da floresta.»

Entre os Mbuti existem poucas desigualdades. Sucede o mesmo na «maioria dos grupos de caçadores e recolectores. Os bens materiais de que necessitam limitam-se a armas de caça, ferramentas para cavar e construir, armadilhas e utensílios para cozinhar. Há, assim, no que diz respeito ao número ou quantidade de posses materiais, poucas diferenças entre os membros deste tipo de sociedade - não há divisões entre ricos e pobres. As diferenças de posição e hierarquia tendem a estar limitadas à idade e ao sexo; os homens são quase sempre os caçadores, enquanto as mulheres colhem os frutos silvestres, cozinham e tomam contam das crianças. No entanto, a divisão de trabalho entre homens e mulheres é muito importante: os homens tendem a dominar as posições públicas e cerimoniais.

Os ‘anciãos’ - os homens mais velhos e experientes da comunidade -, por norma têm uma palavra importante a dizer nas principais decisões que afectam o grupo. Tal como há pouca variação em termos de riqueza entre os membros da comunidade, as diferenças de poder são muito menos acentuadas do que em sociedades maiores. As sociedades de caçadores e recolectores são, normalmente, ‘participativas’ - todos os membros masculinos adultos se reúnem na altura de tomar decisões importantes ou enfrentar crises.»

Textos retirados de Anthony Giddens, Sociologia, 3ª edição, F.C. Gulbenkian, Lisboa, 2002. Das páginas: 296, 70 e 68 e 70.

Quarta-feira, 5 de Maio de 2010

Confronto de Titãs

Nas salas de cinemas portuguesas está a ser exibido um filme que não vi e que provavelmente não verei: Confronto de Titãs. A avaliar pelo trailer é muito, muito mau, apesar de levemente inspirado na interessante mitologia grega.

Eis um confronto de Titãs muito melhor: Frank Sinatra e Johnny Hartman cantando “I See Your Face Before Me”. Até os deuses gregos teriam dificuldade em escolher o melhor dos dois.

Terça-feira, 4 de Maio de 2010

Lisboa, Lisboa…

Pencil eléctrico 28 Lisboa

LISBOA

Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores ...
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
A força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.

Álvaro de Campos

Fotografia roubada no blogue O Jansenista.

Retrato das famílias modernas

Modern Family: humor e alguma sociologia

Modern Family é uma série de TV, do canal americano ABC, que retrata humoristicamente alguns tipos de família contemporâneos, nomeadamente as famílias gay e as famílias reconstituídas. Também passam pela série diversos fenómenos sociologicamente associados à família: a dificuldade de conciliar os papéis familiares com a carreira profissional; a importância central das relações afectivas, nomeadamente o amor romântico; a adopção; a valorização social da infância; os problemas da adolescência; o divórcio; etc.

Pequenas imprecisões, como o narrador chamar família tradicional a uma família reconstituída, não anulam o interesse sociológico da série. Por isso, agora que concluímos o estudo do capítulo sobre a família,  veremos os dois primeiros episódios na aula.

Agradeço à minha aluna Ana Filipa Santos, do 12º E,  as informações sobre a série, que eu não conhecia.

Sábado, 1 de Maio de 2010

O Dia do Trabalhador

trabalhador no alto Sebastião Salgadotrabalhador Sebastião Salgado

O dia 1 de Maio foi escolhido como Dia do Trabalhador como homenagem aos trabalhadores que, nos primeiros dias de Maio de 1886, em Chicago, nos EUA, participaram em manifestações defendendo a redução do dia de trabalho para 8 horas. As manifestações foram reprimidas pela polícia, tendo-se registado dezenas de mortos e feridos. Muitos trabalhadores foram presos e alguns foram condenados a grandes penas de prisão ou mesmo à morte.

Depois destas e outras manifestações, os EUA e vários outros países foram pouco a pouco reduzindo o dia de trabalho para 8 horas.

Por curiosidade: o Dia do trabalhador nos EUA é comemorado na primeira segunda-feira do mês de Setembro.

(As fotografias são da autoria do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado e fazem parte de uma série chamada “Trabalho”.)