Domingo, 21 de Março de 2010

A globalização do Natal

“É época de Natal e as festas estão a todo o favor. A cidade está cheia de guirlandas e árvores de Natal, homens de neve e sinos prateados. Nas ruas, as pessoas vão às compras passando pelas vitrinas repletas de tentadoras guloseimas de Natal. Minolta DSC O “Messias” de Haendel será tocado hoje à noite no teatro. Não, isso não é Nova Iorque, Londres ou Berlim, isto é Beijing. A China, o país que exporta muitos dos brinquedos que terminam debaixo das árvores de Natal nos Estados Unidos, foi contagiada pelo espírito natalino. Mas não vamos encontrar muitos presépios ali, onde as pessoas que levam a sério a mensagem do Natal [isto é, as pessoas que são realmente cristãs] são uma pequena minoria. Para os chineses, o Natal é simplesmente um costume ocidental chique, uma oportunidade bem-vinda de relaxar com a família e os amigos.

Não apenas na China, mas também no Vietnã, na Coréia do Sul e nas Filipinas, festejar os feriados ocidentais é mais um sinal de acelerada globalização. (…) Cada vez mais expressões e práticas culturais cruzam as fronteiras nacionais e têm um efeito sobre as tradições e os costumes das sociedades expostas a elas.”

Richard Schaefer, Sociologia, 6ª edição, McGraw-Hill, São Paulo, pág. 58.

Uma nota breve que talvez diga muito acerca da globalização: o texto foi retirado da tradução brasileira de um livro norte-americano. No passado ano lectivo coloquei-o num teste, para alunos do 12º ano, na cidade de Faro, em Portugal. E agora aqui está, num blogue que tem leitores em diversos países do mundo: Portugal, Brasil, Angola, etc.

Quarta-feira, 17 de Março de 2010

Milhões e trilhões: os números da globalização

A dimensão económica da globalização é muito acentuada. “O volume do comércio externo de hoje [1999] é superior ao de qualquer período anterior e abrange uma gama muito mais extensa de bens e serviços. Mas a maior diferença regista-se a nível financeiro e nos movimentos de capitais. Alimentada pelo dinheiro electrónico - isto é, dinheiro que só existe como informação digital nos discos dos computadores - a economia do mundo actual não tem paralelo com a das épocas anteriores.

dólaresNa nova economia electrónica mundial global, gestores de fundos, bancos, empresas, sem esquecer milhares de investidores a título pessoal, podem transferir grandes somas de capitais com o simples carregar num botão. E, ao fazê-lo, podem desestabilizar economias que pareciam sólidas como granito - como aconteceu durante a crise asiática recente.

O volume das transacções financeiras mundiais é habitualmente medido em dólares americanos. Para a maioria das pessoas, um milhão de dólares é muito dinheiro. Medido em montes de notas de 100 dólares, atinge a altura de vinte centímetros. Um bilião de dólares ou, por outras palavras, um milhar de milhões, ultrapassa em altura a catedral de S. Paulo, em Londres. Um trilião de dólares - um milhão de milhões - ultrapassaria os 193 quilómetros de altura, ou seja, mais de vinte vezes a altitude medida no cimo do monte Evereste.

Mas, actualmente, os mercados financeiros globais movimentam mais de um trilião de dólares por dia. É um aumento maciço em relação em relação aos finais da década de 1980, sem falarmos de anos mais distantes. O valor do dinheiro que temos no bolso, ou nas nossas contas bancárias, muda de momento a momento, de acordo com as flutuações registadas nestes mercados.

Por conseguinte, eu diria sem hesitar que a globalização, tal como estamos a vivê-la, a muitos respeitos não é apenas uma coisa nova, é também algo de revolucionário. (…)

Contudo, é um erro considerar que a globalização é, antes de tudo, um fenómeno de natureza económica. A globalização é política, tecnológica e cultural, além de económica.”

Anthony Giddens, O mundo na era da globalização, Editorial Presença, 6ª edição, 2006, Lisboa, pp. 21-22.

Terça-feira, 16 de Março de 2010

Prendas indesejadas

morto e mal agradecido Ultimamente, os cidadãos portugueses têm recebido dos políticos (tanto do lado do governo como do lado da oposição, mas – há que reconhecê-lo - mais do lado do governo) diversas “prendas” indesejadas: mentiras, contradições, omissões, acções motivadas por interesses privados e partidários transfigurados em atitudes éticas e de princípio, actos de corrupção recompensados com prémios de gestão…

Quando na nossa vida pessoal recebemos prendas indesejadas costumamos ignorá-las ou, mais raramente, devolvê-las.

Não é possível ignorar as “prendas” políticas, mas talvez seja boa ideia devolvê-las. Como é que se faz isso na política? Fácil: criticando publicamente e pensando e repensando muito bem em quem se vota. Porque um político, esteja no governo ou na oposição, é mais chato e perigoso que uma tia inconveniente ou um ex-namorado persistente e magoado.

(Imagem encontrada na Internet sem referência ao autor.)

Domingo, 14 de Março de 2010

Informatização = Redução de pessoal

informatização das empresas redução do pessoal

Quino, Que presente tão inapresentável, Teorema, Lisboa, 2006, pág. 96.

A informatização das empresas foi uma mudança social muito importante. Em muitas empresas, uma das suas consequências foi a redução do número de funcionários.

Sábado, 13 de Março de 2010

O controlo social pode ser assegurado só pela socialização

Contrariamente ao que por vezes se julga, o controlo social pode ser assegurado só pela socialização – sem intervenção dos outros mecanismos de controlo social, ou seja, a pressão social e as sanções.

Num comentário  a este post dei um exemplo dessa situação.

Recapitulando:

a) O controlo social pode ser conseguido apenas através da socialização.

b) O controlo social pode ser conseguido  através da socialização e da pressão social.

c) O controlo social pode ser conseguido  através da socialização, da pressão social e das sanções.

Seria interessante que os meus caros alunos, que estão certamente a estudar para o teste, ilustrassem essas três possibilidades em comentários a este post. Até porque esse seria um bom meio para esclarecer eventuais dúvidas.

Terça-feira, 9 de Março de 2010

A reprodução social através do vestuário e dos brinquedos

reprodução social nos brinquedos e vestuário2

reprodução social nos brinquedos e vestuário

Quino, Que presente tão inapresentável, Teorema, Lisboa, 2006, pág. 50.

Sugiro ao leitor menos familiarizado com o conceito de reprodução social a leitura deste post. Pode também dar uma vista de olhos no restante conteúdo desta etiqueta.

Quanto aos meus caros alunos: concordo inteiramente com a ideia que vos veio à cabeça assim que viram o cartoon – ilustraria muito bem uma das perguntas do teste!

A propósito do Quino, vale a pena espreitar o post Valores do século XXI no blogue Dúvida Metódica, pois contém um cartoon tão genial, certeiro e impiedoso como este.

Matriz do 4º teste de Sociologia

Matriz do 4º teste Sociologia 2010

Temas:

Ordem e controlo social. Reprodução social. Mudança social. Globalização.

Sábado, 6 de Março de 2010

Desculpabilização da violência

Escrevi, no blogue Dúvida Metódica, acerca do suicídio do rapaz de 12 anos que se atirou ao rio Tua devido ao facto de ser vítima de agressões por parte de colegas da escola e da campanha de desresponsabilização dos agressores que está  a ser feita pela maioria das pessoas que opina sobre o assunto.

Quinta-feira, 4 de Março de 2010

Portugal: os retratos da mudança

“Portugal, um retrato social” é um documentário da autoria do sociólogo António Barreto e  realizado por  Joana Pontes. A música é da autoria de Rodrigo Leão.

A clareza e o rigor das descrições e explicações, bem como a crueza de muitos dos factos referidos, não impedem que “Portugal, um retrato social” possua uma qualidade rara nas ciências sociais: a beleza. Eis os três primeiros capítulos.

1. Gente diferente: Quem somos, quantos somos e onde vivemos.

2. Ganhar o Pão: o que fazemos.

3. Mudar de vida: O fim da sociedade rural.

A reprodução social do racismo

Em países multirraciais, como o Brasil e os EUA, durante muito tempo as pessoas de outras raças que não a branca quase não surgiam nos filmes, nas peças de teatro ou nos programas de televisão. Depois começaram a aparecer, mas sempre em papéis associados a estatutos sociais desvalorizados ou mesmo censurados: escravos, criados e delinquentes. (Para perceber de que modo tal situação ilustra o fenómeno da reprodução social e da manutenção do status quo e das desigualdades existentes, clique aqui.)

Hoje em dia a situação melhorou, mas mesmo assim continuam a existir desigualdades.

No primeiro vídeo, as pessoas intervenientes consideram que no Brasil a Televisão,  embora já não apresente os negros apenas  como escravos, criados ou delinquentes, lhes reserva um conjunto de papéis limitado e estereotipado (músicos, dançarinos, desportistas…), como se não pudessem aspirar a mais.

No segundo e no terceiro vídeo podemos observar repetições recentes da célebre experiência feita, em 1947, pelos psicólogos americanos Mamie e Kenneth Clark: “The doll test”. Essa experiência mostra  que a maioria das crianças negras, diante de uma boneca branca e de uma boneca negra, dirá que a boneca branca é mais bonita e agradável que a boneca negra, apesar de se considerarem mais semelhantes à boneca negra. Poderá o fenómeno da reprodução social explicar esses resultados? Tudo indica que sim: mesmo que não constitua a explicação completa, fará certamente parte dela. Ou seja: essas crianças, apesar da sua tenra idade,  já interiorizaram os preconceitos raciais que existem contra elas.

 

 

 

Publicidade sexista

Há décadas atrás era frequente existirem anúncios publicitários explicitamente sexistas. Eis dois exemplos, provenientes dos EUA (julgo que datados dos anos 50 do século XX). (Aqui pode encontrar diversos outros exemplos.)

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Como é sabido, nas últimas décadas a situação social das mulheres, sobretudo nas sociedades ocidentais, melhorou imenso. Actualmente, em termos jurídicos a igualdade de direitos entre homens e mulheres é um dado adquirido. As mentalidades e as práticas sociais também evoluíram, embora mais lentamente, e apesar de ainda subsistirem muitas desigualdades houve um enorme progresso.

Seria de esperar, por isso, que a publicidade já não fosse sexista. Mas será de facto assim? Observe estes exemplos, recorde outros que já tenha visto e responda por si mesmo à pergunta.

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(A imagem relativa ao presente de Páscoa é de 1976, as outras são actuais.)