«Nessa noite dormiram na areia, com a fogueira a repelir o frio (…). Ele acordou a tossir e levantou-se e bebeu um gole de água e arrastou mais alguma lenha para a fogueira, toros inteiros que levantavam grandes torrentes de faúlhas. A madeira salgada ardia em cambiantes alaranjados e azuis no âmago do fogo e ele ficou sentado a contemplá-la durante muito tempo. Mais tarde caminhou ao longo da praia, com a sombra comprida a estender-se diante dele, sobre o areal, a estremecer num vaivém ao sabor das rajadas de vento nas labaredas. A tossir. A tossir. Curvou-se, agarrado aos joelhos. Sabor a sangue. A espuma vagarosa rastejava nas trevas, fervilhante, e ele pôs-se a pensar na sua vida mas não havia vida em que pensar e ao fim de algum tempo voltou para junto da fogueira. Tirou uma lata de pêssegos do saco de marinheiro e abriu-a e sentou-se diante do lume e comeu os pedaços de pêssego lentamente enquanto o rapaz [seu filho] dormia. As chamas dardejavam ao vento e faúlhas fugiam para longe sobre a areia. Pousou a lata vazia entre os pés. Cada novo dia é uma mentira, disse. Mas tu estás a morrer. Isso não é mentira.»
Cormac McCarthy, A Estrada, Relógio D’ Água, Lisboa, 2007, pp 156-157.
Depois de uma grande catástrofe que destruiu a civilização, a maioria dos seres humanos e provavelmente todos os animais e plantas, as hipóteses do homem e do seu filho sobreviverem são mínimas. É essa falta de esperança que o leva a dizer que cada novo dia é uma mentira. Contudo, é uma mentira necessária, pois a verdade é insuportável e desesperante e ele, por amor ao filho, não pode fazer o que muitas outras pessoas fizeram: acabar com a própria vida. Mas agora está doente e sabe que não conseguirá viver muito mais tempo. O que será do filho depois da sua morte? O desespero derivado dessa dúvida envenena-lhe mais o espírito que a própria devastação do mundo.
Para explicar este romance a Sociologia é menos requisitada que a Psicologia e a Filosofia, embora…
(Fotografia de Jean-Marc Bouju, tirada durante a guerra do Iraque. Foi escolhida como Foto do Ano 2003 da World Press.














