Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

A verdade desesperante

«Nessa noite dormiram na areia, com a fogueira a repelir o frio (…). Ele acordou a tossir e levantou-se e bebeu um gole de água e arrastou mais alguma lenha para a fogueira, toros inteiros que levantavam grandes torrentes de faúlhas. A madeira salgada ardia em cambiantes alaranjados e azuis no âmago do fogo e ele ficou sentado a contemplá-la durante muito tempo. Mais tarde caminhou ao longo da praia, com a sombra comprida a estender-se diante dele, sobre o areal, a estremecer num vaivém ao sabor das rajadas de vento nas labaredas. A tossir. A tossir. Curvou-se, agarrado aos joelhos. Sabor a sangue. A espuma vagarosa rastejava nas trevas, fervilhante, e ele pôs-se a pensar na sua vida mas não havia vida em que pensar e ao fim de algum tempo voltou para junto da fogueira. Tirou uma lata de pêssegos do saco de marinheiro e abriu-a e sentou-se diante do lume e comeu os pedaços de pêssego lentamente enquanto o rapaz [seu filho] dormia. As chamas dardejavam ao vento e faúlhas fugiam para longe sobre a areia. Pousou a lata vazia entre os pés. Cada novo dia é uma mentira, disse. Mas tu estás a morrer. Isso não é mentira.»

Cormac McCarthy, A Estrada, Relógio D’ Água, Lisboa, 2007, pp 156-157.

Jean-Marc Bouju foto do ano pai protegendo filho

Depois de uma grande catástrofe que destruiu a civilização, a maioria dos seres humanos e provavelmente todos os animais e plantas, as hipóteses do homem e do seu filho sobreviverem são mínimas. É essa falta de esperança que o leva a dizer que cada novo dia é uma mentira. Contudo, é uma mentira necessária, pois a verdade é insuportável e desesperante e ele, por amor ao filho, não pode fazer o que muitas outras pessoas fizeram: acabar com a própria vida. Mas agora está doente e sabe que não conseguirá viver muito mais tempo. O que será do filho depois da sua morte? O desespero derivado dessa dúvida envenena-lhe mais o espírito que a própria devastação do mundo.

Para explicar este romance a Sociologia é menos requisitada que a Psicologia e a Filosofia, embora…

(Fotografia de Jean-Marc Bouju, tirada durante a guerra do Iraque. Foi escolhida como Foto do Ano 2003 da World Press.

Escrevi acerca de “A estrada” aqui e aqui.)

Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

Pordata: base de dados sobre temas sociais online

A “Pordata, Base de Dados de Portugal Contemporâneo” é um site em que o leitor poderá encontrar uma imensa base de dados online na área das Ciências Sociais. Eis alguns dos principais temas: População, Educação, Saúde, Protecção Social, Emprego, Empresas, Cultura, etc.

A Pordata foi organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, cujo Presidente do Conselho de Administração é o sociólogo António Barreto.

Clique aqui para aceder.

Sábado, 20 de Fevereiro de 2010

Apoio familiar: um factor de sucesso educativo

familia portuguesa à mesa refeição

«Numa típica família coreana, como a dos Park, um assunto obrigatório à mesa de jantar: a vida escolar das crianças.
O pai comenta as equações matemáticas que o caçula Sul, de 13 anos, está aprendendo e pergunta ao mais velho, Sam, de 16, sobre a prova de inglês que ele fez naquele dia.
A intimidade do casal Yang Sue, 42 anos, e Young Woo Park, de 43, com a rotina estudantil dos filhos é tamanha que eles são capazes de discorrer em detalhe sobre as metas dos respectivos currículos escolares para este ano.
Também frequentam a página oficial da escola na internet para saber se os adolescentes têm deveres de casa ou prova à vista. Eles participam de reuniões, organizam feiras de ciência e, volta e meia, pilotam as panelas do refeitório da escola de Sul e Sam. 

O facto de a Coreia do Sul ser um dos países em que os pais observam mais de perto a vida escolar dos filhos é apontado por especialistas como um dos trunfos que garantem ao país o seu alto padrão académico. »

Monica Weinberg, Sete Lições da Coreia Para o Brasil – Equações na Mesa de Jantar (2004).

Texto encontrado no blogue Geografismos, no post Equações à mesa de jantar.

1/3 dos bebés nasce fora do casamento

sorriso de bebé «Os portugueses casam-se cada vez menos (decréscimo de 23,4 por cento de 2002 a 2008); quando o fazem, a maioria já não escolhe a cerimónia religiosa (apenas 44,7 por cento em 2008), e um grupo crescente de casais já coabitava antes de se casar - eram 18 por cento em 2002, subiram para 35,3 por cento em 2008.
Ao mesmo tempo, os casais deixaram de ver como essencial estarem casados para ter filhos: não eram casados os pais de cerca de um quarto dos bebés que nasceram em 2002; seis anos depois os filhos fora do casamento já chegavam a mais de um terço - "a mudança mais significativa", assinala Sofia Aboim, socióloga da Instituto de Ciências Sociais  da Universidade de Lisboa e autora do livro ‘Conjugalidades em mudança’

Leia mais no jornal Público de 20 de Fevereiro de 2010.

Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010

Dois exemplos de anomia: motins em Los Angeles e no Quénia

Anomia significa ausência de lei. Para perceber melhor o conceito veja o post Sintoma de anomia? Vejamos dois exemplos.

Em 1992, quando o tribunal absolveu os polícias (brancos) acusados de espancar um jovem negro, ocorreram em Los Angeles inúmeros distúrbios provocados por pessoas – principalmente de raça negra – que acusavam as autoridades de racismo e discriminação. “Foram três dias de confrontos, incêndios, saques, depredações e uma onda de crimes que causaram 58 mortes, deixaram mais de 2800 feridos, destruíram 3.100 estabelecimentos comerciais e causaram prejuízos estimados em mais de 1 bilhão de dólares.” (Wikipédia)

 

Em 2008, no Quénia após o anúncio dos resultados de uma eleições presidenciais em que houve suspeitas de fraude, ocorreram diversos distúrbios que, além de muitos danos materiais, provocaram a morte a cento e tal pessoas.

Desvios positivos: o movimento sufragista e o movimento dos direitos civis

Os comportamentos desviantes nem sempre são fenómenos negativos. Por vezes constituem manifestações de inconformismo e promovem mudanças sociais positivas. A esse respeito ver o post Alguns comportamentos desviantes podem promover a mudança social.

Foi o que sucedeu com a luta das sufragistas (no final do século XIX e no princípio do século XX) que, em diversos países, defenderam o reconhecimento do direito de voto para as mulheres. Foram criticadas, insultadas e até presas, mas conseguiram algo que hoje é consensual.

 

Outro exemplo de como alguns comportamentos desviantes podem gerar mudanças sociais positivas foi a luta pelos direitos cívicos dos negros norte americanos. Tratou-se de uma luta pacífica, mas envolveu a desobediência a diversas leis que descriminavam as pessoas de raça negra. Essa desobediência civil (é o nome que se dá quando a infracção a uma lei se deve a motivos morais e não ao interesse pessoal) teve como resultado a revogação dessas leis.

Assaltos e mini-saias: exemplos de comportamentos desviantes

Alguns comportamentos desviantes constituem crimes, pois infringem normas jurídicas. É o caso dos assaltos a bancos.

 

Outros comportamentos desviantes não constituem crimes, pois desrespeitam costumes e não normas jurídicas. É o caso da utilização de roupa considerada inadequada.

O vídeo mostra uma situação ocorrida numa Universidade brasileira, em que centenas de estudantes insultaram uma colega por considerarem que usava uma saia demasiado curta. Ao sancionarem a colega desse modo os estudantes tiveram eles próprios um comportamento desviante (desconheço se, à luz das leis brasileiras, pode ser considerado crime).

Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2010

A necessidade de educação

 selo John Dewey

«A palavra vida refere-se aos costumes, instituições, crenças, vitórias e derrotas, divertimentos e ocupações. Utilizamos a palavra experiência com a mesma riqueza de sentido [em ambos os casos] é aplicado o princípio da continuidade através da renovação. No que respeita aos seres humanos, a par da existência da renovação física, dá-se a renovação das crenças, ideais, esperanças, alegrias, misérias e hábitos. A continuidade de qualquer experiência, processada através da renovação do grupo social, é um facto.

A educação, no seu sentido mais lato, é o meio através do qual se verifica esta continuidade de vida social. Todos os elementos que constituem um grupo social, tanto numa cidade moderna como numa tribo selvagem, nascem imaturos, carentes de ajuda, não possuindo qualquer tipo de linguagem, convicções, ideias, ou padrões sociais. Cada indivíduo, cada unidade portadora da experiência de vida do grupo a que pertence, com o tempo desaparece. No entanto, a vida do grupo continua.

Os factos inevitáveis do nascimento e da morte de cada indivíduo num grupo social, determinam a necessidade de educação. Por um lado, existe o contraste entre a imaturidade dos elementos recém-nascidos do grupo - seus únicos representantes futuros - e a maturidade dos elementos adultos possuidores do conhecimento e costumes do grupo. Por outro lado, existe a necessidade de que os elementos imaturos do grupo não sejam apenas fisicamente preservados em número adequado, mas que sejam iniciados nos interesses, propósitos, informação, aptidões, e práticas dos membros adultos: de outro modo o grupo perde a sua vida característica.

Mesmo numa tribo selvagem, as competências dos adultos estão muito longe daquilo que os elementos imaturos serão capazes de conseguir se entregues a si próprios. À medida que aumenta o grau de civilização aumenta também o desfasamento entre as capacidades iniciais dos elementos imaturos e os padrões e costumes dos mais velhos. O simples desenvolvimento físico, o simples controlo das necessidades básicas de subsistência não são suficientes para reproduzir a vida do grupo. É necessário um esforço deliberado e a tomada de medidas ponderadas de modo que os seres que ao nasceram não têm consciência, sendo mesmo indiferentes, dos objectivos e hábitos do grupo social, tomem disso conhecimento e se tornem activamente interessados. A educação, e apenas a educação, pode resolver o problema.

A necessidade de ensinar e aprender para assegurar a contínua existência de uma sociedade é, de facto, tão óbvia que pode até parecer que andamos às voltas com uma frase feita.»

John Dewey, Democracy and Education: an introduction to the philosophy of education.

John Dewey

Este texto do filósofo e pedagogo norte-americano John Dewey (1859-1952) demonstra de modo muito claro a necessidade e a importância da socialização e de agentes de socialização como a família e a escola. Encontrei o texto num post do blogue De Rerum Natura, em que a autora – a pedagoga Helena Damião – critica algumas concepções pedagógicas segundo as quais se pode aprender  o que importa sem que haja ensino.