Esta carta de amor da menina Filipa Alexandra ao menino Jorge Daniel circula na Internet e é fácil encontrá-la em blogues ou recebê-la por email. Não se sabe ao certo se foi mesmo escrita por uma criança ou se é uma falsificação feita por brincadeira. Mas, caso seja uma brincadeira, é uma brincadeira inspirada na realidade. Em Portugal há muitas crianças que dão aqueles erros de português e que têm aqueles valores: “Os meus pais têm um Mercedes e uma casa de férias na Viera”.
O aspecto mais inverosímil da carta prende-se com os elogios ao rapaz: é o mais adulto da turma, dá poucos erros e tem civismo suficiente para apanhar papéis do chão e colocá-los no lixo. Talvez uma autêntica Filipa Alexandra preferisse elogiar o Jorge Daniel por este ter um telemóvel muito caro e sofisticado e roupa de marca “bué da fixe”. Talvez.
Uma observação final para a disponibilidade da Filipa Alexandra, embora contrariada, mandar uma carta ao Tó Quim caso o Jorge Daniel não se resolva rapidamente. Não sei se essa disponibilidade ilustra alguma tendência existente na sociedade portuguesa actual, mas, mesmo que ilustre, considero abusivo relacioná-la com a facilidade com que muitos políticos portugueses alteram os seus princípios e alianças consoante os interesses momentâneos. Quero crer que não há tal relação. Até porque a Filipa Alexandra teria certamente dificuldade em explicar como é que, apesar de andar “doida” e “louca” pelo Jorge Daniel, se vê obrigada a declarar-se também ao Tó Quim, mas esses políticos não costumam ter dificuldade nenhuma em justificar as oscilações das suas atitudes. Dito por outras palavras: embora tanto no amor de Filipa Alexandra como na política portuguesa, nada seja duradouro e incondicional, a rapariga não tem a desculpa do “interesse nacional”.
Seja como for, caro leitor, tudo isto se passa diariamente numa escola perto de si. Ou numa televisão, no caso da política.









