Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Filipas Alexandras há muitas

carta de amor de Filipa Alexandra e Jorge Daniel

Esta carta de amor da menina Filipa Alexandra ao menino Jorge Daniel circula na Internet e é fácil encontrá-la em blogues ou recebê-la por email. Não se sabe ao certo se foi mesmo escrita por uma criança ou se é uma falsificação feita por brincadeira. Mas, caso seja uma brincadeira, é uma brincadeira inspirada na realidade. Em Portugal há muitas crianças que dão aqueles erros de português e que têm aqueles valores: “Os meus pais têm um Mercedes e uma casa de férias na Viera”.

O aspecto mais inverosímil da carta prende-se com os elogios ao rapaz: é o mais adulto da turma, dá poucos erros e tem civismo suficiente para apanhar papéis do chão e colocá-los no lixo. Talvez uma autêntica Filipa Alexandra preferisse elogiar o Jorge Daniel por este ter um telemóvel muito caro e sofisticado e roupa de marca “bué da fixe”. Talvez.

Uma observação final para a disponibilidade da Filipa Alexandra, embora contrariada, mandar uma carta ao Tó Quim caso o Jorge Daniel não se resolva rapidamente. Não sei se essa disponibilidade ilustra alguma tendência existente na sociedade portuguesa actual, mas, mesmo que ilustre, considero abusivo relacioná-la com a facilidade com que muitos políticos portugueses alteram os seus princípios e alianças consoante os interesses momentâneos. Quero crer que não há tal relação. Até porque a Filipa Alexandra teria certamente dificuldade em explicar como é que, apesar de andar “doida” e “louca” pelo Jorge Daniel, se vê obrigada a declarar-se também ao Tó Quim, mas esses políticos não costumam ter dificuldade nenhuma em justificar as oscilações das suas atitudes.  Dito por outras palavras: embora tanto no amor de Filipa Alexandra como na política portuguesa, nada seja duradouro e incondicional, a rapariga não tem a desculpa do “interesse nacional”.

Seja como for, caro leitor, tudo isto se passa diariamente numa escola perto de si. Ou numa televisão, no caso da política.

Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

Andamos a morrer menos

“A mortalidade precoce está a diminuir e os números oficiais provam a evolução verificada nos últimos anos. A mortalidade até aos 65 anos em Portugal baixou entre 2004 e 2008 em todos os escalões etários, revelam os indicadores do Plano Nacional de Saúde (PNS) 2004-2010. Considerando as patologias analisadas, a evolução também é genericamente positiva, à excepção do que se passa com os cancros do colo do útero, do cólon e recto e as doenças atribuíveis ao álcool.”

Notícia do Jornal Público. Clique para ler mais.

Sábado, 23 de Janeiro de 2010

Sozinho no inferno

“Uma coisa te garanto, nunca conseguirás sobreviver sozinho. Sei-o muito bem porque eu própria não teria chegado até aqui [sozinha]. Para uma pessoa que não tivesse ninguém, seria de elementar prudência atamancar um fantasma convincente, insuflar-lhe um sopro de vida e persuadi-lo a caminhar a seu lado com palavras de amor, oferecer-lhe todas as migalhas fantasmagóricas e protegê-lo de todos os perigos com o próprio corpo.”

Cormac McCarthy, A estrada, Relógio d’ Água, Lisboa, 2007, pág. 43.

Goethe disse que não haveria maior castigo para ele do que viver sozinho no paraíso. O mundo descrito por Cormac McCarthy  (o planeta Terra após uma catástrofe que dizimou quase toda a humanidade, bem como quase todos os animais e plantas) está muito longe de ser um paraíso. Pelo contrário, é um autêntico inferno. (Mais pormenores aqui e aqui.) E uma das razões para isso é que é mais sensato esperar ajuda de um amigo imaginário do que da maior parte das esfomeadas e amedrontadas pessoas que por ele deambulam. Nesse “inferno”, as pessoas sentem-se sozinhas mesmo quando estão acompanhadas, pois ou não conseguem confiar umas nas outras ou, caso confiem, têm tão pouca esperança num futuro melhor que não sabem dar uso a essa confiança.

Para alguém que só existe e só é o que é graças aos outros (quase tudo o que pensamos, sentimos, fazemos, gostamos ou não gostamos, foi aprendido desde o berço com as outras pessoas) essa solidão é um castigo pior que a morte. Por isso, quando o desespero se tornou mais forte que o amor e o dever, a mulher que dirigiu as palavras atrás citadas ao pai do seu filho suicidou-se. Por isso, esse homem,  impedido de fazer o mesmo pelo amor inquebrantável que tinha ao filho, diz (na página 14): “Se ao menos o meu coração fosse de pedra”.

Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

As categorias sociais

“As categorias sociais resultam de uma construção teórica mediante a qual o sociólogo agrupa idealmente numa mesma ‘unidade social’ indivíduos com características comuns, de modo a poder estudá-los. Exemplos de categorias sociais podem ser os jovens desempregados, as crianças em idade pré-escolar, as crianças com necessidades educativas especiais, os solteiros, etc. Não interessa se os sujeitos em questão têm relações entre si, importa, pelo contrário, que a característica que os une seja interessante do ponto de vista sociológico, isto é, adequada ao objectivo que o sociólogo pretende alcançar.”

Lúcia Demartis, Compêndio de Sociologia, Edições 70, Lisboa, 2006, pág. 78.

criancas escola

As crianças em idade escolar formam uma categoria social. E os portugueses que não gostam de fado, as pessoas que não cumprem promessas ou os portugueses vítimas de injustiças no emprego? Também constituirão categorias sociais? Constituiriam, caso houvesse sociólogos ou outros cientistas sociais a tentar estudar tais fenómenos e que tentasse identificar características comuns a todas as pessoas em questão.

Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

A estrada para a anomia

 

Escrevi acerca do filme “A estrada” no blogue Dúvida Metódica. O post chama-se  A estrada de Giges. Pelas razões que lá explico, o filme ilustra muito bem o conceito de anomia. Ou seja: uma situação social caracterizada pelo desrespeito generalizado pelas normas ou mesmo pela ausência de normas. (Pode ler mais acerca do conceito de anomia aqui.)

Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

‘True love’ um pouco remendado…

…Ou mais um exemplo de interacção social, uma vez que para esta ocorrer são necessárias no mínimo duas pessoas e um casal de meia idade interage tanto através de acções e conversas como de omissões e silêncios.

“- Primeiro vou fumar um cigarro dos teus - disse ela.
Pararam na esquina sob um candeeiro de rua. O candeeiro estava danificado e alguém tinha prendido uns fios como suporte. Os fios balouçavam ao vento, formando sombras no pavimento.
- Quando é que vais parar? - perguntou ele, acedendo um cigarro, depois de ter acendido o dela.
- Quando tu parares - disse ela. - Vou parar quando tu parares. Como quando tu deixaste de beber. A mesma coisa… o mesmo que tu.
- Posso ensinar-te a bordar - disse ele.
- Um ‘bordadeiro’ em casa já chega - disse ela.
Ele pegou-lhe no braço e continuaram a andar.”

Raymond Carver, De que falamos quando falamos de amor, Editorial Teorema, Lisboa, 2001, pág. 97.

Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

Tarefas para a Aula de Substituição

Tarefas para a Aula de Substituição do dia 18 de Janeiro de 2010.

A pergunta 6 é para responder individualmente, as outras devem ser respondidas em conjunto com o colega do lado. Antes de responder às perguntas 2, 3, 4, 5 e 6 leia atentamente as páginas 97, 98 e 99 do Manual de Sociologia.

1. Justifique a seguinte afirmação. As expectativas que entram em jogo nas interacções sociais não dependem apenas dos papéis sociais, mas também da personalidade das pessoas envolvidas e até do conhecimento que temos das suas acções passadas.

2. O conjunto de pessoas que espera a sua vez no Hospital é um grupo social? Porquê?

3. Uma família é um grupo social? Porquê?

4. Uma quadrilha de ladrões é um grupo social? Porquê?

5. A partir de dois exemplos não referidos no Manual, distinga grupo de pertença e grupo de referência.

6. Faça uma lista com os grupos sociais de que faz parte.

BOM DIA E BOM TRABALHO!

Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

As sete idades do Homem

As expressões “actor social” e “papel social” são habituais nas Ciências Sociais, mas resultam obviamente da aplicação de conceitos originários do teatro à vida social. Nestes versos Shakespeare exprime de modo metafórico e intuitivo algumas das ideias envolvidas na explicação do que são actores e papéis sociais.

O mundo inteiro é um palco,
E todos os homens e mulheres são meros actores:
Eles têm suas saídas e suas entradas;
E um homem cumpre em seu tempo muitos papéis.
Seus actos se distribuem por sete idades. No início a criança
Choraminga e regurgita nos braços da mãe.
E mais tarde o garoto se queixa com sua mochila,
E seu rosto iluminado pela manhã, arrastando-se como uma lesma
Sem vontade de ir à escola. E então o apaixonado,
Suspirando como um forno, com uma balada aflita,
Feita para os olhos da sua amada. Depois o soldado,
Cheio de juramentos estranhos, com a barba de um leopardo,
Zeloso de sua honra, rápido e súbito na briga,
Buscando a bolha ilusória da reputação
Até mesmo na boca de um canhão. E então vem a justiça,
Com uma grande barriga arredondada pelo consumo de frangos gordos,
Com olhos severos e barba bem cortada,
Cheio de aforismos sábios e argumentos modernos.
E assim ele cumpre seu papel. A sexta idade o introduz
Na pobre situação de velho bobo de chinelos,
Com óculos no nariz e a bolsa do lado,
Suas calças estreitas guardadas, o mundo demasiado largo para elas,
Suas canelas encolhidas, e sua grande voz masculina
Quebrando-se e voltando-se outra vez para os sons agudos,
Os sopros e assobios da infância. A última cena de todas,
Que termina sua estranha e acidentada história,
É a segunda infância e o mero esquecimento,
Sem dentes, sem mais visão, sem gosto, sem coisa alguma.

"As You Please", Acto II, Cena VII, em "The Complete Works of William Shakespeare", Edited by W. J. Craig, M.A., Magpie Books, London, 1992, 1142 pp.