Sábado, 7 de Novembro de 2009

A observação não-participante

«Se o observador não interage de forma alguma com o objecto de estudo no momento em que realiza a observação, não poderá ser considerado como participante.

Imagine-se, por exemplo, uma pesquisa sobre comportamentos racistas em sala de aula. Se o investigador optar por observar a dinâmica do grupo em situação de aula, oculto por detrás de um painel espelhado, está a fazer uma observação não-participante.

Este tipo de técnica possui características interessantes, pois:

· Reduz substancialmente a interferência do observado no observado*.

· Permite o uso de instrumentos de registo sem influenciar o grupo-alvo.

· Possibilita um grande controlo das variáveis a observar.

No entanto, a sua aplicação é limitada não só porque o equipamento adequado apenas está disponível em algumas instituições (escolas Superiores de Educação, por exemplo) mas também porque só se adequa a alguns objectos de estudo.

Grande parte das pesquisas exige um trabalho de campo em situação natural não se podendo simular em laboratório situações de alta complexidade com grande número de actores e de variáveis. Para tais situações o investigador tem de recorrer a técnicas de observação caracterizadas pelo seu envolvimento através da assunção de um papel junto da população observada: são as técnicas de observação participante.

* Não reduz totalmente a interferência, uma vez que, por imperativo ético, o observador deve previamente colher a autorização dos elementos do grupo-alvo de observação.»

Hermano Carmo e Manuela Ferreira, Metodologia da Investigação – Guia para Auto-aprendizagem, Universidade Aberta, Lisboa, 1998, pág. 106.

camaras de vigilânciaA observação de situações através de painéis espelhados que permitem ver sem ser visto não é o único modo de efectuar a observação não-participante. O desenvolvimento tecnológico proporciona outros meios para observar pessoas sem interagir com elas, como por exemplo a observação das situações através da sua filmagem por câmaras de vídeo (mais discretas que a da imagem) – podendo a observação ser efectuada em tempo real ou posteriormente. O que naturalmente coloca diversos problemas éticos.

Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Ficha de Trabalho sobre Observação Participante

«ROBERT WUTHNOW: O SOCIÓLOGO COMO CRENTE RELIGIOSO
Muitos sociólogos que estudam a religião são membros de uma Igreja ou templo. Nos seus corações, podem acreditar que algumas visões religiosas se aproximam mais da verdade divina do que outras. Como é que os sociólogos equilibram a obrigação profissional de serem objectivos com as suas crenças pessoais?
Robert Wuthnow, cujo livro Christianity In the Twenty-fírst Century: Refections on the Challenges Ahead (1993) trata das perspectivas futuras do Cristianismo, dá-nos uma resposta. Apesar de ser um cientista social, Wuthnow tomou claro que a sua pesquisa foi efectuada tanto como Cristão como sociólogo. Como Cristão, Wuttmow preocupava-se com a manutenção da vitalidade da igreja no próximo século. Como sociólogo, procurava compreender como é que a mudança social afecta a igreja e os seus seguidores.
O método de pesquisa de Wuthnow consistiu em entrevistar alguns dos membros da igreja. Estas discussões levaram-no a concluir que a Identidade Cristã se está a tornar cada vez mais global. As fronteiras de denominação estão-se a desfazer. “No passado, as pessoas, sendo Cristãs, eram Baptistas ou Presbiterianas, mas agora, os Cristãos estão-se a aperceber da comunhão com outros Cristãos à volta do mundo.” Com o impacto da globalização, qual será o papel deste tipo de igreja?
Wuthnow acredita que os membros da igreja querem “pensar globalmente e agir localmente”. Isto é, procuram a identidade comum de outros crentes à volta do mundo, mas buscam companheirismo com outros crentes mais próximos, Portanto, se a Lilly e o Sam são Presbiterianos, não o são em virtude da lealdade para com a denominação num sentido lato, mas antes porque gostam do pastor, se sentem confortáveis com as pessoas, o edifício está de acordo com os seus gostos arquitectónicos, a igreja não é muito distante. Wuthnow argumenta que a única maneira de a Igreja continuar viva é “dotar as pessoas de um forte sentido de comunidade - comunidades de apoio, serviços e residência”.
Apesar de Wuthnow ser Cristão, as suas preocupações são sociológicas e o seu estilo de análise é objectivo. Os seus inquiridos olhavam-no mais como professor universitário do que como Cristão. As preocupações de Wuthnow enquanto cristão não parecem ter influenciado a sua recolha de dados.
Quando pensam em temas sociológicos como a secularização ou no fundamentalismo, acham difícil evitar que as vossas próprias visões acerca da religião interfiram nas vossas análises?»
Anthony Giddens, Sociologia, F. C. Gulbenkian, 3ª Edição, 2002, pág. 534.

A OBSERVAÇÃO DA VIDA NA RUA

«Como é que o sociólogo estuda a vida na rua? Na década de 90 (do século XX), Duneier estudou a natureza da vida na rua em Greenwich Village (Nova Iorque). Nas ruas desse bairro, vivia um grupo de homens pobres, negros, predominantemente sem abrigo, alguns vendiam livros e revistas nos passeios, outros vendiam objectos que tinham encontrado e outros eram mendigos.
Duneier abordou em primeiro lugar a investigação através de um contacto pessoal com um dos vendedores de livros, Hakim Hasan, de quem era cliente habitual. Hakim era um exemplo de uma «figura pública» e Duneier acreditava que ele poderia fornecer informações importantes sobre a vida nas ruas do bairro.
Deste modo, Duneier, com o consentimento de Hakim, observou a vida do vendedor no seu quotidiano - à sua mesa de venda, as relações com os clientes, etc. Ao fim de dois anos de observação, descreveu a sua investigação num manuscrito.
O manuscrito foi aceite para publicação, mas Hakim criticava-o por se concentrar demasiado nele e na sua mesa, ou seja, era demasiado estreito para capturar outras dinâmicas importantes que ocorriam no passeio.
Duneier aceitou a validade destes comentários e propôs um novo modo de desenvolver o projecto. Assim, quando regressou às ruas de Greenwich Village, não o fez simplesmente como observador, mas como participante activo na sua vida diária. Com a ajuda de Hakim, chegou a um acordo com Marvin, um vendedor de revistas do quarteirão adjacente, para trabalhar um Verão para ele na sua mesa de venda. Marvin apresentou-o aos outros homens que ganhavam as suas vidas na rua e deu credibilidade à sua investigação.
Contudo, mesmo com estes apoios, Duneier enfrentou um certo número de desafios como observador participante. Como homem branco, formado, da classe média alta, Duneier ocupava uma posição social muito diferente da dos homens pobres negros, que eram o objecto do seu estudo. Desde logo, reconheceu que seria inútil ‘adequar-se’, pois, mesmo se tentasse alterar a sua roupa e a sua forma de falar, continuaria de fora.
Deste modo, Duneier concentrou-se em construir lentamente relações de respeito mútuo com os homens de rua. Passou mais tempo a ouvir do que a falar e apoiou-se em conversas informais com os homens em vez de efectuar entrevistas formais.
A presença de Duneier foi gradualmente aceite e nos dois anos seguintes tornou-se uma figura regular na rua. Apesar de ter conseguido ser aceite, Duneier compreendeu que tolerar um observador participante e confiar nele não eram necessariamente a mesma coisa. Sabia que alguns homens do quarteirão tinham suspeitas sobre os motivos da sua investigação e pensavam que estava a tentar ganhar dinheiro com um livro acerca das suas vidas. Outros achavam que ele era ingénuo, sendo um alvo a explorar (pediam-lhe pequenas quantias de dinheiro).»

Anthony Giddens, Sociologia, 4ª Edição, 2004, Lisboa, F. C. Gulbenkian

1. O estudo de Robert Wuthnow constituiu uma forma de observação-participação ou de participação-observação? Justifique.

2. No seu estudo Robert Wuthnow recorreu apenas à observação participante ou recorreu também a outras técnicas de pesquisa? Justifique.

3. O estudo de Duneier constituiu uma forma de observação-participação ou de participação-observação? Justifique.

4. O grau de envolvimento de Duneier foi sempre o mesmo ou modificou-se ao longo da pesquisa? Justifique.

Envolvimento no objecto de estudo: 2 exemplos

Uma das modalidades da Observação Participante é a chamada Observação-Participação, em que o observador não faz parte do grupo observado e só se aproxima dele devido à pesquisa que está a efectuar. Essa aproximação pode envolver graus muito diferentes de envolvimento no grupo: desde a mera proximidade necessária à recolha dos dados (como numa reportagem) até à integração no grupo e na sua vida quotidiana.

Um sociólogo ou um jornalista que tenha observado a manifestação referida no Exemplo A terá efectuado uma Observação com uma participação mínima, com pouco envolvimento. Barbara Ehrenreich, tal como se mostra no Exemplo B, efectuou uma Observação com um grau muito elevado de participação e envolvimento no grupo estudado.

Exemplo A

Entre 5 a 10 mil pessoas participaram no dia 6 de Janeiro de 2008 numa manifestação convocada pela oposição em Tbilisi, capital da Geórgia, para protestar contra as eleições presidenciais consideradas fraudulentas, depois de ser anunciada a vitória do presidente Mikhail Saakashvili.

Exemplo B

«A jornalista Barbara Ehrenreich fez a seguinte pergunta: como é que as pessoas subsistem com salários baixos (seis ou sete dólares por hora)? Como pagam a renda, a comida, os transportes? O passo seguinte foi decidir fazer jornalismo à moda antiga: nas suas próprias palavras, “ir para o mundo real e viver a situação pessoalmente.”

Deixou a sua casa confortável, alugou o alojamento mais barato que encontrou e assumiu a identidade de uma dona de casa divorciada de meia-idade, sem diploma universitário e com pouca experiência de trabalho. Arranjou alguns empregos precários como empregada de mesa, empregada de limpeza e vendedora. Na tentativa de sobreviver e pagar as contas, chegou a ter dois empregos e a trabalhar sete dias por semana. Vários meses depois, completamente exausta e desmoralizada pelas regras de trabalho, Ehrenreich desistiu e confirmou aquilo de que já suspeitava: sobreviver naquele país com o baixo salário de um trabalhador não qualificado é uma aposta difícil de ganhar.

Nas suas tentativas de sobreviver disfarçada de trabalhadora não qualificada e mal paga em diferentes cidades dos Estados Unidos (entre 1998 e 2000), Barbara Ehrenreich desvendou padrões de interacção humana e usou métodos de estudos relacionados com a investigação sociológica. O estudo de Ehrenreich revelou uma sociedade desigual, o que constitui um tópico central da Sociologia, pois a desigualdade social tem uma influência determinante nas interacções e instituições humanas.

Ehrenreich descreveu a sua experiência no livro Nickel and Dimed. A tradução portuguesa deste intitula-se Salário de Pobreza e foi editada pela Caminho em 2004.»

Adaptado a partir de: Richard Schaefer, Sociologia, 6ª Edição, McGraw-Hill, São Paulo, 2006, pp. 2-3.

Observação participante

Mercado do Bulhão

Desenho de Antonia Santolaya. Mercado do Bulhão. Porto. Outubro 2008. Retirado do blogue Desenhador do Quotidiano.

"A observação participante, que muitas vezes é também designada por trabalho de campo, caracteriza-se pela “inserção do observador no grupo observado. Se o investigador apenas se integra no grupo a partir do momento em que se inicia o processo de investigação, falamos de observação-participação. É a situação do etnólogo que vai viver uns tempos com a tribo que vai estudar.

Se, pelo contrário, o observador faz parte integrante de um grupo e aproveita essa situação para o observar, estamos numa situação de participação-observação. É o caso do professor de Sociologia que investiga na escola onde exerce a docência. [Ou do crente religioso que aproveita o seu convívio com outros crentes e a sua participação em actividades religiosas para estudar o fenómeno religioso.]

A observação-participação tanto pode ser uma participação distanciada e ligeira (caso de uma reportagem sobre uma conferência ou sobre outra qualquer prática social; ou da observação presencial de aulas), como uma participação mais profunda e mais integrada (como é o caso dos etnólogos que, ao estudarem sociedades primitivas, nelas se integram durante meses). Na participação-observação há a dificuldade acrescida da pertença íntima ao grupo social condicionar bastante a objectividade necessária ao processo investigativo.”

José Vargas, Sociologia, Porto Editora, 2002, pp. 119-120.

Teste a sua compreensão:

Num mercado, como o do Bulhão, poder-se-iam efectuar todas as modalidades de observação participante. Explique como e imagine exemplos.