Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Desigualdade entre homens e mulheres aumentou em Portugal

No “Global Gender Gap Index 2009”, com que o Fórum Económico Mundial pretendeAntónio Silva O Leão da Estrela Homem e Mulher medir a desigualdade entre os sexos, Portugal desceu cinco posições relativamente a 2008 e ocupa, agora, o mísero 46.º lugar. Islândia, Finlândia e Noruega ocupam os três primeiros lugares.

Segundo o jornal Público, “há um ano, Portugal conseguia mais pontos nos indicadores que medem a participação económica e as oportunidades de carreira dadas às mulheres, e conquistava vantagens no acesso à educação básica e superior. Comparando com 2008, há uma quebra na igualdade dos salários pagos para a mesma função, no acesso a cargos de topo nas empresas ou na justiça, e às profissões técnicas em geral. Mais: esta é a primeira vez nos últimos três anos que há uma descida na pontuação obtida. O ano passado, o fosso entre géneros reduziu 70,5 por cento. Hoje, essa diferença é de 70,1 por cento.”

Nem todas as desigualdades são más, como é o caso das desigualdades devidas ao mérito. Por exemplo: se a notícia fosse que a diferença salarial entre os bons e os maus professores ou entre os bons e os maus bibliotecários tinha aumentado a favor dos primeiros, seria uma boa notícia. Mas a desigualdade baseada no sexo não é uma boa notícia.

Seja como for, o facto de as razões que fazem com que essa não seja uma boa notícia serem evidentes é… uma boa notícia! As coisas estão realmente a mudar. Devagarinho, como sucede com quase todas as mudanças sociais profundas e efectivas, mas a mudar.

Na imagem: António Silva e actriz cujo nome não apurei, no filme “O Leão da Estrela”.

Domingo, 25 de Outubro de 2009

Matriz do 1º teste de Sociologia

 

ESCOLA SECUNDÁRIA DE PINHEIRO E ROSA

SOCIOLOGIA – 12ºANO                                                                      Ano Lectivo: 2009-2010

Matriz do 1º Teste (Outubro)                                                        O Professor: Carlos Pires

Duração: 90 minutos.

Temas: 1. Sociologia e conhecimento da realidade social. 2. Metodologia da investigação sociológica.

Objectivos:

1. Explicar porque é que os seres humanos são seres sociais.

2. Explicar o que são “crianças-selvagens” e qual a relação desse fenómeno com o carácter social dos seres humanos.

3. Identificar pelo menos seis ciências sociais.

4. Reconhecer a Sociologia como ciência social.

5. Dar e reconhecer exemplos de fenómenos sociais.

6. Explicar porque é que os fenómenos sociais são complexos, ou seja, pluridimensionais.

7. Dar e reconhecer exemplos ilustrativos da complexidade dos fenómenos sociais.

8. Identificar nesses exemplos de fenómenos sociais os aspectos neles estudados pelas diversas ciências sociais.

9. Explicar a necessidade de interdisciplinaridade entre as várias ciências sociais.

10. Mostrar que a dimensão sociológica dos fenómenos sociais é o seu carácter “relacional”, dizendo sempre respeito às interacções de indivíduos que vivem em grupos.

11. Dar e reconhecer exemplos ilustrativos da dimensão sociológica dos fenómenos sociais.

12. Explicar as principais características do senso comum.

13. Dar e reconhecer exemplos ilustrativos de conhecimentos, superstições e outras crenças do senso comum.

14. Compreender as principais características da ciência.

15. Dar e reconhecer exemplos ilustrativos de conhecimentos científicos.

16. Mostrar porque é que o facto da Sociologia e das outras ciências sociais estudarem os seres humanos torna a obtenção do rigor e da objectividade mais difícil que nas ciências da natureza e na Matemática.

17. Explicar o que é um obstáculo epistemológico.

18. Explicar em que medida a condição de observador e observado do cientista social pode constituir um obstáculo epistemológico.

19. Explicar em que medida o facto da presença do observador poder modificar o que é observado constitui um obstáculo epistemológico.

20. Explicar em que medida a “familiaridade com o social” e a “ilusão de transparência do social” constituem obstáculos epistemológicos.

21. Explicar em que medida as explicações naturalistas constituem um obstáculo epistemológico.

22. Explicar em que medida as explicações individualistas constituem um obstáculo epistemológico.

23. Explicar em que medida as explicações etnocêntricas constituem um obstáculo epistemológico.

24. Dar e reconhecer exemplos ilustrativos dos diversos obstáculos epistemológicos.

25. Explicar porque é que os sociólogos e os outros cientistas sociais têm necessidade de se distanciar do senso comum.

26. Dizer o que é uma técnica de pesquisa.

27. Explicar em que consiste o inquérito por questionário e em que situações pode ser usado.

28. Explicar o que é uma amostra.

29. Explicar em que consiste a entrevista e em que situações pode ser usada.

30. Referir os tipos de entrevista utilizados nas ciências sociais: estruturada, não estruturada e semi-estruturada.

31. Distinguir questões fechadas, abertas e semi-abertas.

32. Referir os principais cuidados a ter na utilização do inquérito por questionário e da entrevista.

33. Explicar em que consiste a análise de conteúdo e em que situações pode ser usada.

34. Saber usar as técnicas do inquérito por questionário, da entrevista e da análise de conteúdo.

Leituras:

No Manual: da pág. 14 à pág. 18, pág. 20, pág. 24, da pág. 28 à pág. 35, da pág. 47 à pág. 51.

No Caderno de Sociologia:

· “Crianças selvagens: as meninas lobo”

· “O que estuda a Sociologia? Da infidelidade conjugal à religião, tudo um pouco!”

· “A Sociologia e as outras Ciências Sociais: o caso da pena de morte”

· “Os fenómenos sociais são complexos: o exemplo do consumo”

· “Os fenómenos sociais são complexos: o exemplo da emigração portuguesa”

· “A dimensão sociológica dos fenómenos sociais”

· “A Sociologia não estuda o individual”

· “Senso comum e ciência: alguns exemplos”

· “Algumas diferenças entre o senso comum e a ciência”

· “Superstições”

· “Números do “azar”: 4 e 13”

· “Obstáculos epistemológicos: a dificuldade de alcançar a objectividade nas ciências sociais”

Apontamentos tirados nas aulas.

Bom Trabalho!

Algumas diferenças entre o senso comum e a ciência

Os conhecimentos e outras crenças do senso comum baseiam-se na experiência quotidiana das pessoas, na chamada experiência de vida (que se distingue da experiência científica por ser feita sem um planeamento rigoroso, sem método). Nalguns casos trata-se de experiências pessoais, noutros casos são experiências partilhadas pelos membros da comunidade – no decurso do processo de socialização. Em suma, é um conhecimento que se adquire sem estudos, sem investigações.

Por exemplo: para aprender onde fica a padaria mais próxima de casa ou para aprender a atar os sapatos não é preciso efectuar uma investigação metódica, basta a experiência de vida.

Pelo contrário, a ciência implica investigações, estudos efectuados metodicamente.

Por exemplo: De outra forma, como se poderia descobrir a temperatura média de um planeta tão distante como Mercúrio? Como é que a simples experiência de vida podia permitir a descoberta de que a luz do Sol leva 8,33 minutos a chegar à Terra?

O senso comum é um saber assistemático, na medida em que constitui um conjunto disperso e desorganizado de crenças (algumas constituem conhecimentos e outras não), não implicando por parte dos seus detentores um esforço de organização. Por isso, algumas das crenças podem ser contraditórias.

Por exemplo: as mesmas pessoas podem acreditar que “Quem espera desespera” e “Quem espera sempre alcança”.

Ciência é um saber sistemático na medida em constitui um conjunto organizado de conhecimentos, havendo da parte dos cientistas um esforço para que as diversas teorias se articulem entre si e sejam coerentes.

Por exemplo: Os historiadores ficariam preocupados se descobrissem que, nas suas análises de um fenómeno do passado como a batalha de Aljubarrota, havia afirmações sobre o relevo da zona incompatíveis com as informações fornecidas pela Geografia.

O senso comum é um saber impreciso, na medida em que normalmente não se exprime de modo rigoroso e quantificável.

A ciência é um saber mais preciso, que o senso comum. As diversas ciências, naturais ou sociais, recorrem sempre que possível à Matemática, na tentativa de apresentar resultados rigorosos. Mesmo nas investigações em que não é possível quantificar (a observação psicológica de uma certa pessoa, por exemplo) existe essa procura do rigor.

Por exemplo: É de conhecimento geral que no Norte de Portugal chove mais do que no Sul. O conhecimento científico desse fenómeno é muito mais exacto: no mês de Janeiro de 2003 a precipitação em Faro situou-se entre os 20 e os 40 mm, enquanto no mesmo período no Porto situou-se entre os 350 e os 400 mm (de acordo com o Instituto de Meteorologia).

O senso comum é um saber superficial, na medida em que se conhece os próprios fenómenos mas muitas vezes desconhece-se as suas causas verdadeiras causas. Conhece-se o “é assim”, mas não o porquê de ser assim.

A ciência é um saber mais aprofundado, na medida em que procura descobrir a causa dos fenómenos, não se contentando com o “é assim”.

Por exemplo: Ao nível do senso comum sabe-se que a lixívia debota a roupa, mas um químico sabe explicar porque é que isso acontece.

O senso comum é um saber subjectivo ou pessoal, pois a sua aquisição depende das condições de vida, que não são iguais para todos os homens. É influenciado pela época histórica, pela cultura, pelos grupos sociais a que se pertence, pelo meio ambiente em que vive, pela idade, pela profissão, personalidade, etc. Por isso, uma determinada crença do senso comum nunca é universal. Algumas dessas crenças variam de pessoas para pessoa, outras variam consoante o grupo social ou a sociedade. Seja como for, nunca são partilhadas por todos os seres humanos.

Por exemplo: Um rapaz de 17 anos de Faro pode ter diversos conhecimentos relacionados com discotecas da região que o seu pai ignora e que outro rapaz de 17 anos também não possui – porque vive em Braga ou porque, apesar de viver em Faro, é introvertido e não gosta de sair à noite.

A ciência, pelo contrário, procura alcançar um saber objectivo. Ou seja: tenta mostrar as coisas (o objecto) como elas são, independentemente dos gostos e interesses do sujeito. Um conhecimento para ser científico tem de ser independente das particularidades do cientista. Por isso, tem validade universal: é aceite por toda a comunidade científica. (Claro que antes de uma teoria ter sido confirmada e aceite pode ter havido um período mais ou menos longo de controvérsia e discussão.)

«A ciência tem sempre defendido que, ao contrário de outras formas de conhecimento consideradas menos rigorosas, ela é objectiva. Não depende de quem faz, de quem mede, de quem segue a demonstração. O resultado da experiência, o número lido no aparelho, a lógica da dedução matemática são coisas objectivas, impessoais, podem ser repetidas.» Jorge Dias de Deus, Ciência, Curiosidade e Maldição, Gradiva.

Por exemplo: A ideia de que Plutão leva 247,7 anos a completar uma volta em torno do Sol e a ideia de que a temperatura média na sua superfície é de 237 graus negativos são completamente independentes da nacionalidade, do sexo ou da personalidade dos cientistas que as descobriram.

A objectividade é mais difícil de conseguir nas Ciências Sociais do que nas Ciências da Natureza e na Matemática.

Um conhecimento para ser considerado científico tem de ser testável. Ou seja: tem de ser possível confrontar as teorias com os factos, pô-las à prova através de experiências exigentes e rigorosas de modo a averiguar se são ou não falsas. Caso contrário, a teoria não passaria de uma mera opinião pessoal do cientista, de uma crença sem fundamento.

Por exemplo: Quando o astrónomo Clyde W. Tombaugh anunciou, em 1930, a descoberta de Plutão as suas observações tiveram que ser repetidas e confirmadas por muitos outros astrónomos.

No senso comum não existe essa preocupação constante de testar as crenças. Perceber-se-á melhor porque quando se explicar outra característica do senso comum: o facto de constituir um saber acrítico.

Por vezes descobre-se que conhecimentos científicos considerados verdadeiros, após terem sido muitas vezes testados, afinal são falsos e que é preciso corrigi-los. Isso significa que a ciência é falível e revisível e que o progresso do conhecimento científico constitui muitas vezes uma correcção de erros anteriores.

Por exemplo: “Até 1955 pensávamos que os seres humanos tinham 24 pares de cromossomas. Era um daqueles factos que todos tinham como certo. (…) Foi só em 1955 que surgiu a verdade. Joe-Hin Tjio e Albert Levan, utilizando melhores técnicas que as até então utilizadas, viram claramente 23 pares.” Matt Ridley, Genoma - Autobiografia de uma espécie em 23 capítulos, Gradiva.

O senso comum é um saber acrítico. Acrítico significa não reflectido, não examinado. É compreensível que assim seja, pois trata-se de saberes cuja aprendizagem é informal: aprende-se à medida que se vai vivendo e tendo experiências, aprende-se vendo, ouvindo e imitando os outros. Muitas vezes essa aprendizagem é inconsciente: as pessoas não têm noção de que estão a aprender, mas vão interiorizando crenças, costumes, saberes práticos, etc. Tanto podem aprender crenças verdadeiras como crenças falsas e injustificadas (superstições). De resto, essa atitude acrítica tem a ver com todas as características do senso comum aqui referidas.

Por exemplo: Algumas crianças portuguesas, ao observarem muitas vezes os pais e outros adultos deitarem lixo para o chão, aprendem a fazer o mesmo e interiorizam a ideia de que esse comportamento é correcto. Outras crianças portuguesas – talvez em menor número – ao observarem muitas vezes os pais e outros adultos deitarem o lixo para o caixote aprendem a fazer o mesmo e interiorizam a ideia de que esse comportamento é correcto. Na maior parte dos casos, tanto umas como outras realizam essas aprendizagens sem reflectir, sem discutir: limitam-se a imitar. Ou seja: aprendem acriticamente.

A ciência não pode ser acrítica como o senso comum. Pelo contrário, implica uma atitude crítica por parte dos cientistas. Ou seja: para fazer ciência é preciso reflectir, pensar pela própria cabeça, e ter uma preocupação permanente com a fundamentação das ideias. Os cientistas devem ter essa atitude crítica relativamente às suas próprias ideias e relativamente às ideias dos outros. De resto, essa atitude crítica tem a ver com todas as características da ciência aqui referidas.

Por exemplo: um cientista que queira publicar um artigo científico numa revista tem de submetê-lo a um processo de avaliação que costuma ser chamado “refereeing”: o artigo tem de ser lido primeiro por especialistas da área; o nome destes não é divulgado e estes também não sabem quem é o autor do artigo, para que a crítica possa ser mais livre e imparcial.

Domingo, 18 de Outubro de 2009

Obstáculos epistemológicos: a dificuldade de alcançar a objectividade nas ciências sociais

A objectividade é uma característica fundamental do conhecimento científico, seja nas Ciências da Natureza e na Matemática seja nas Ciências Sociais.

Dizer que um conhecimento, para ser científico, deve ser objectivo significa que este deve ser independente da vontade e dos interesses do cientista. Ou seja: deve mostrar as coisas como elas realmente são e não como o cientista eventualmente gostaria que fossem; deve ser completamente impessoal. Essa objectividade deve ser tal que, relativamente ao mesmo tópico, dois cientistas pesquisando em condições semelhantes cheguem ao mesmo resultado. Caso contrário não passará de mera opinião e não será universal, ou seja, válido para todos.

À partida, é evidente que tal objectividade é mais difícil de conseguir nas Ciências Sociais do que nas Ciências da Natureza e na Matemática.

Há várias dificuldades que um cientista social tem de vencer. O programa de Sociologia do 12º Ano, na linha de certos autores, chama-lhes “obstáculos epistemológicos”. Essa expressão designa um entrave à produção de conhecimento científico rigoroso e objectivo. São vários:

• A observação modifica o comportamento de quem sabe que está ser observado.

• Os cientistas sociais são observadores e observados.

• A familiaridade com o social.

• A ilusão de transparência do social.

• As explicações naturalistas.

• As explicações individualistas.

• As explicações etnocêntricas.

A OBSERVAÇÃO MODIFICA O COMPORTAMENTO DE QUEM SABE QUE ESTÁ SER OBSERVADO.

Esta dificuldade prende-se com a própria natureza do objecto de estudo das Ciências Sociais. Os seres humanos são seres racionais, conscientes de si e do mundo. Se perceberem que estão a ser observados os seus comportamentos podem alterar-se. Desse modo, os observadores não captarão o modo como as pessoas habitualmente agem e poderão formar ideias erradas sobre o assunto que estiverem a estudar.

Eis um exemplo célebre, ocorrido numa pesquisa feita no âmbito da Psicologia Social.

“Quando as pessoas sabem que estão a ser submetidas a uma experiência, assumem comportamentos que julgam ser adequados à situação. Procuram reagir de acordo com o que supõem ser o desejo do experimentador. Um exemplo possível diz respeito a uma experiência orientada por Elton Mayo (1880-1949) numa fábrica de equipamentos telefónicos nos EUA. O investigador pretendia determinar a correlação entre a produtividade e a iluminação do local de trabalho. Para surpresa de Mayo, os operários reagiram de acordo com as suas suposições pessoais: devia-se trabalhar mais quando a intensidade da luz fosse maior. Esta situação foi comprovada quando os experimentadores trocaram as lâmpadas por outras da mesma potência, fazendo crer que a intensidade da luz variava. Verificou-se um nível de rendimento proporcional à intensidade da luz sob a qual os operários supunham trabalhar [trabalhavam mais quando julgavam que a intensidade da luz tinha aumentado e trabalhavam menos quando julgavam que tinha diminuído].” - M. Monteiro e M. Santos, Psicologia – 1º Vol., Porto Editora, 1997, pp. 55-56.

OS CIENTISTAS SOCIAIS SÃO OBSERVADORES E OBSERVADOS.

Uma outra dificuldade com que o cientista social se depara na sua busca de conhecimentos rigorosos e objectivos prende-se com o facto de ser ao mesmo tempo observador e observado. Ou seja: é um ser humano a estudar seres humanos, é um membro da sociedade a estudar a sociedade, estuda certos grupos sociais de que pode fazer parte (um partido político ou uma Igreja, por exemplo) ou acerca dos quais tem opiniões anteriores ao estudo (algumas delas provenientes do senso comum). Estuda realidades com as quais está envolvido e de algum modo comprometido. Essa proximidade em relação ao objecto de estudo pode eventualmente impedi-lo de ser imparcial. Mesmo que não faça de propósito, pode inconscientemente “puxar a brasa à sua sardinha”.

Por exemplo: Um sociólogo que seja religioso ao estudar a religião pode, mesmo sem consciência disso, retratar a religião de um modo favorável, ainda que os factos apurados não o justifiquem.

A FAMILIARIDADE COM O SOCIAL.

Os fenómenos sociais são normalmente coisas próximas, com as quais temos contactos frequentes no dia-a-dia e em relação às quais já temos algum conhecimento (ao nível do senso comum). Pense em casos como a droga, a imigração, o desemprego, a educação, etc. Vejamos com mais detalhe o exemplo da educação: um certo indivíduo já foi aluno, agora tem filhos que andam na escola, é vizinho de um Professor e cunhado de uma Contínua, passa todos os dias ao pé de duas escolas, vê notícias na TV sobre a educação, etc. Essa familiaridade com o social pode constituir um obstáculo epistemológico caso leve a pessoa a pensar que já sabe o suficiente sobre o assunto, que as crenças do senso bastam e que portanto não é preciso investigar mais. O que é um erro, pois mesmo que essas crenças sejam verdadeiras é preciso investigar para aprofundar o conhecimento e saber justificar aquilo que se sabe.

A ILUSÃO DE TRANSPARÊNCIA DO SOCIAL.

Este obstáculo decorre da familiaridade referida. Como os fenómenos sociais são coisas próximas e relativamente aos já sabemos algo, as pessoas podem cair no erro de julgar que são evidentes – que aquilo que se percebe à primeira vista corresponde à realidade. Ora, as coisas nem sempre são o que parecem. Muitas vezes aquilo que julgamos perceber intuitivamente é desmentido pelas pesquisas de ciências como a Psicologia ou a Sociologia.

Por exemplo:

Parece evidente a muitas pessoas que os gordos são sempre simpáticos, mas as pesquisas sociológicas mostram que não há relação necessária entre a personalidade e as características físicas.

Parece óbvio que os imigrantes se integrarão melhor na sociedade que os acolhe se substituírem a sua cultura de origem pela cultura dessa sociedade; no entanto, pesquisas sociológicas com imigrantes polacos no norte de França mostraram que os imigrantes melhor integrados na sociedade francesa eram aqueles que não abdicavam dos costumes e tradições polacas.

AS EXPLICAÇÕES NATURALISTAS.

As explicações de tipo naturalista interpretam o social a partir de factores que consideram inerentes à natureza humana, à natureza de um povo, de uma raça ou de um dos sexos. Consideram, portanto, que as causas dos fenómenos sociais são naturais e não sociais.

Um cientista social que dê esse tipo de explicação não estará a ser obviamente rigoroso nem objectivo.

Por exemplo:

Considerar que o menor desenvolvimento económico e industrial de certos povos se deve a um carácter preguiçoso e indolente inato.

Certas pessoas acreditam que uma das razões que deveria levar as mulheres a participar mais na vida política é a circunstância de terem uma maneira de ser mais sensível e comunicativa que os homens.

AS EXPLICAÇÕES INDIVIDUALISTAS.

As explicações de tipo individualista explicam os fenómenos sociais a partir de factores meramente individuais, como se tudo dependesse da vontade e das escolhas do indivíduo. Este tipo de explicações esquece que há tendências e mecanismos sociais, de que o indivíduo pode nem sequer estar consciente, que têm um enorme peso e influência.

Um cientista social que dê esse tipo de explicação não estará a ser obviamente rigoroso nem objectivo.

Por exemplo:

Considerar que há desemprego porque este e aquele indivíduo não querem trabalhar.

«A Mafalda não fuma e detesta que fumem ao pé dela. Ao conversar com um amigo acerca do filme “Casablanca” (realizado em 1942), em que a romântica e heróica personagem principal, representada por Humphrey Bogart, aparece frequentemente a fumar, a Mafalda disse que mesmo que vivesse naquela época detestaria o fumo do tabaco e nunca se apaixonaria nem casaria com um homem que fumasse. “Mesmo que mais ninguém pensasse assim, eu de certeza absoluta que pensaria”, concluiu a Mafalda.»

AS EXPLICAÇÕES ETNOCÊNTRICAS.

No planeta Terra existe uma enorme diversidade cultural. As diferentes comunidades humanas desenvolveram diferentes línguas, costumes, normas, valores, etc. Por isso, existem milhares de culturas diferentes. Por vezes, as pessoas de uma sociedade não respeitam as culturas de outras sociedades, consideram-nas inferiores e “atrasadas”. A essa atitude chama-se etnocentrismo cultural. Este é a atitude característica de quem só reconhece legitimidade e validade às normas e valores vigentes na sua própria cultura. As pessoas que pensam desse modo, consideram frequentemente que, sendo a sua cultura superior, têm o direito de a impor (pela força se necessário) a outros povos. Existem exemplos de atitudes etnocêntricas em muitas sociedades. Na Europa foi uma atitude habitual durante séculos, ostentada não só pelas pessoas do povo como por intelectuais.

Um cientista social que dê esse tipo de explicação não estará a ser obviamente rigoroso nem objectivo.

Por exemplo:

Os antigos gregos chamavam bárbaros aos estrangeiros. A palavra grega que se traduz por bárbaro significava “aquele que fala como os pássaros”. Ou seja: quem não falava grego, quem não era grego, não era considerado verdadeiramente humano.

“Os Índios americanos foram inicialmente olhados [pelos europeus] como criaturas selvagens que tinham mais afinidades com os animais do que com os seres humanos. Paracelso, nunca lá tendo ido, descreveu o continente norte-americano como sendo povoado por criaturas que eram meio homens meio bestas. Julgava-se que os Índios, os nativos desse continente, eram seres sem alma nascidos espontaneamente das profundezas da terra. O Bispo de Santa Marta, na Colômbia, descrevia os indígenas como homens selvagens das florestas e não homens dotados de uma alma racional, motivo pelo qual não podiam assimilar nenhuma doutrina cristã, nenhum ensinamento, nem adquirir a virtude [sendo, portanto, legítimo escravizá-los].” - Anthony Giddens, Sociology, Polity Press, Cambridge, p. 30.

“Durante o século XIX, os missionários cristãos em África e nas ilhas do Pacífico forçaram várias tribos nativas a mudar os seus padrões de comportamento. Chocados com a nudez pública, a poligamia e o trabalho no dia do Senhor, decidiram reformar o modo de vida dos "pagãos". Proibiram os homens de ter mais de uma mulher, instituíram o sábado como dia de descanso e vestiram toda a gente. Estas alterações culturais, impostas a pessoas que dificilmente compreendiam a nova religião, mas que tinham de se submeter ao poder do homem branco, revelaram-se, em muitos casos, nocivas: criaram mal-estar social, desespero entre as mulheres e orfandade entre as crianças. Se bem que o complexo de superioridade cultural não fosse um exclusivo dos Europeus (os chineses do século XVIII consideraram desinteressantes e bárbaros os seus visitantes ingleses), o domínio tecnológico, científico e militar da Europa, bem vincado a partir das Descobertas, fez com que os Europeus julgassem os próprios padrões, valores e realizações culturais como superiores. Povos pertencentes a sociedades diferentes foram, na sua grande maioria, desqualificados como inferiores, bárbaros e selvagens.” - Luís Rodrigues, Filosofia - 10º Ano, Plátano Editora, pág. 79.

Alguns destes obstáculos epistemológicos (nomeadamente a “familiaridade com o social”, a “ilusão de transparência do social”, a condição de observador e observado e as explicações etnocêntricas) podem ser vistos como diferentes manifestações da influência do senso comum.

Tal como qualquer outro ser humano, o cientista social possui senso comum: um certo conjunto de crenças e saberes práticos, que adquiriu através da experiência de vida, no decurso do processo de socialização. Algumas dessas crenças podem ser falsas, podem ser superstições e preconceitos. Esse cientista pode nem se aperceber que as possui. Se essas crenças influenciarem as suas investigações o rigor e a objectividade destas serão afectados.

Por exemplo: Se um sociólogo (educado de maneira muito religiosa e moralista) ao entrevistar uma prostituta utilizar uma linguagem valorativa e tendenciosa (“Porque é que se dedica a esta profissão vergonhosa e imoral?”, “Porque é que se deixou arrastar para esta vida desgraçada?”) terá dificuldade em comunicar com ela e não conseguirá recolher informações rigorosas.

No manual de Sociologia fala-se de “ruptura com o senso comum” na medida em que o cientista social deve tentar libertar-se dessa influência: muitas crenças do senso comum são falsas e devem ser corrigidas pela pesquisa científica (outras crenças até podem ser verdadeiras, mas ao nível do senso comum não existe justificação para elas, sendo tarefa da ciência fornecer essa justificação).

Sábado, 17 de Outubro de 2009

Matriz do 1º mini-teste

Objectivos:

1. Compreender porque é que os seres humanos são seres sociais.

2. Saber o que são “crianças-selvagens” e compreender a relação desse fenómeno com o carácter social dos seres humanos.

3. Identificar pelo menos seis ciências sociais.

4. Reconhecer a Sociologia como ciência social.

5. Identificar exemplos de fenómenos sociais.

6. Compreender porque é que os fenómenos sociais são complexos, ou seja, pluridimensionais.

7. Reconhecer exemplos ilustrativos da complexidade dos fenómenos sociais e identificar os aspectos neles estudados pelas diversas ciências sociais.

8. Compreender a necessidade de interdisciplinaridade entre as várias ciências sociais.

9. Compreender que a dimensão sociológica dos fenómenos sociais é o seu carácter “relacional”, dizendo sempre respeito às interacções de indivíduos que vivem em grupos.

10. Reconhecer exemplos ilustrativos da dimensão sociológica dos fenómenos sociais.

11. Compreender as principais características do senso comum.

12. Identificar exemplos ilustrativos de conhecimentos, superstições e outras crenças do senso comum.

13. Compreender as principais características da ciência.

14. Identificar exemplos ilustrativos de conhecimentos científicos.

15. Compreender porque é que o facto da Sociologia e das outras ciências sociais estudarem os seres humanos torna a obtenção do rigor e da objectividade mais difícil que nas ciências da natureza e na Matemática.

16. Compreender o que é um obstáculo epistemológico.

17. Compreender em que medida a condição de observador e observado do cientista social pode constituir um obstáculo epistemológico.

18. Compreender em que medida o facto da presença do observador poder modificar o que é observado constitui um obstáculo epistemológico.

19. Compreender em que medida a “familiaridade com o social” e a “ilusão de transparência do social” constituem obstáculos epistemológicos.

20. Compreender em que medida as explicações naturalistas constituem um obstáculo epistemológico.

21. Compreender em que medida as explicações individualistas constituem um obstáculo epistemológico.

22. Compreender em que medida as explicações etnocêntricas constituem um obstáculo epistemológico.

23. Identificar exemplos ilustrativos dos diversos obstáculos epistemológicos.

24. Compreender porque é que os sociólogos e os outros cientistas sociais têm necessidade de se distanciar do senso comum.

Leituras:

Páginas indicadas do Manual, posts do Caderno de Sociologia indicados nas aulas e apontamentos tirados nas aulas.

Natureza das questões:

Escolha múltipla, itens verdadeiros e falsos e identificação de exemplos.

Bom Trabalho!

Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Overdose de populismo e demagogia

mentir a si próprio

Cartoon de Cathy Thorne, retirado daqui.

Hoje é o último dia de campanha eleitoral para as eleições autárquicas, que decorrerão no próximo domingo. Antes houve a campanha para as eleições legislativas (que se realizaram no passado dia 27). Contando com os períodos de pré-campanha, há meses que os políticos dos diversos partidos andam a prometer mundos e fundos aos portugueses. Se fosse um jogo de futebol, o populismo e a demagogia teriam vencido o debate de ideias e o esclarecimento por muitos golos de diferença. Uma autêntica overdose de mentiras e meias mentiras, eis o que - felizmente - termina hoje à meia-noite.

Foi nisto que pensei quando descobri, há minutos atrás, este cartoon. Mas claro que não são apenas os políticos que mentem a si próprios para mais facilmente conseguirem enganar as outras pessoas. A vida quotidiana oferece-nos exemplos frequentes dessa estratégia, mesmo em períodos em que não existem campanhas eleitorais.

As relações afectivas costumam ser um manancial inesgotável no que a isso diz respeito. Mas consideremos antes um exemplo ligado à educação, já que, antes de mais nada, este é um blogue de estudo.

Por vezes fico boquiaberto com as dificuldades manifestadas por alguns alunos do 10º ano e vou espreitar o seu processo escolar. É frequente descobrir casos de alunos que no 8º e 9º anos tiveram seis ou sete negativas no primeiro e no segundo período e no terceiro período só tiveram uma ou duas negativas. Se não conhecesse inúmeras histórias de pressões directas e indirectas para os professores transformarem classificações negativas em classificações positivas, poderia acreditar que tal se deve aos inúmeros planos de recuperação (com esse ou com outros nomes) que existem no Ensino Básico. Mas assim não acredito.

Como se sentirão esses professores que, levados por essas pressões ou antecipando-se a elas, atribuem classificações positivas a alunos que claramente não as merecem? Como viverão consigo próprios? Para diminuir a frustração talvez recorram à atitude descrita no cartoon: “Se eu me convencer que é verdade, então não será realmente uma mentira”.

Só que é de facto mentira, como se percebe quando esses alunos chegam ao 10º ano.

Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

O que é, realmente, o senso comum?

Em livros e sites de Sociologia (e de Filosofia) encontra-se muitas vezes a afirmação de que o senso comum é um conhecimento prático e a afirmação de que o senso comum é o mesmo que o conhecimento vulgar. No entanto, ambas as afirmações são incorrectas.

Escrevi detalhadamente acerca desse assunto no blogue Dúvida Metódica: Equívocos acerca do senso comum.

cozinheira-anos-50 Sem entrar em detalhes filosóficos (desnecessários no estudo da Sociologia), vou explicar porque é que as afirmações referidas são incorrectas.

O senso comum inclui conhecimentos práticos (aquilo que se chama saber-fazer, como por exemplo saber cozer um ovo ou saber coser um botão), mas estes são apenas uma parte e não a totalidade do senso comum.

O senso comum inclui também conhecimentos que não são práticos. Nomeadamente, conhecimentos (embora pouco elaborados) de ideias – aquilo que em Filosofia se chama conhecimento proposicional ou “saber que”. Por exemplo: saber que (em Portugal) só se pode votar a partir dos 18 anos, saber que a lixívia debota a roupa, etc.

Por outro lado, o senso comum inclui também superstições (crenças falsas e sem qualquer justificação plausível, como por exemplo acreditar que ver gatos pretos traz infelicidade) e crenças não supersticiosas sobre os mais diversos aspectos da vida (convicções morais, políticas, sociais, etc., como por exemplo acreditar que se deve pagar as dívidas, acreditar que não se deve matar pessoas inocentes, etc.), que não têm um carácter prático.

Não se pode também dizer que o senso comum é o mesmo que o conhecimento vulgar. Os conhecimentos que fazem parte do senso comum são, sem dúvida, “vulgares”: são saberes simples, pouco elaborados e resultam da experiência de vida e não de investigações. Todavia, e como já foi dito, o senso comum inclui também superstições. Estas, sendo crenças falsas e sem justificação, não são conhecimentos. O problema não está, portanto, na palavra “vulgar” mas na palavra “conhecimento”. Não se pode identificar senso comum e conhecimento vulgar pois alguns conteúdos do senso comum não são conhecimentos.

As distinções que fiz entre senso comum e conhecimento prático e senso comum e conhecimento vulgar estão de acordo com a compreensão que os sociólogos habitualmente têm da natureza e do papel da Sociologia.

A segunda distinção é, nesse contexto, particularmente relevante. Os sociólogos reconhecem que têm de se precaver contra o senso comum. Alguns utilizam a esse respeito a expressão “ruptura com o senso comum”. O que tal expressão significa é que, para constituir conhecimentos sociológicos de carácter científico, o sociólogo não se deve deixar influenciar pelas crenças falsas que adquiriu no seio da sua comunidade ao longo do processo de socialização e não se deve contentar com as crenças verdadeiras que adquiriu do mesmo modo, pois aquelas são superstições enganadoras e estas não passam de conhecimentos vulgares e superficiais que precisam de ser aprofundados.

Bons anfitriões?

“As medidas adoptadas por Portugal com vista à integração dos imigrantes foram premiadas pelas Nações Unidas. É o país com melhor classificação na atribuição de direitos e serviços aos estrangeiros residentes.”

Num estudo promovido pelas Nações Unidas tentou-se perceber como era o acesso aos serviços de educação e de saúde, se os imigrantes tinham direito de voto e quais os seus direitos laborais e a assistência social às suas famílias”.

Tem lógica que Portugal procure receber bem os imigrantes, uma vez que precisa manifestamente deles.

trabalhadores imigrantes casa sem condições Mas, mais importante que isso, trata-se de direitos humanos básicos que um estado democrático não deve negar a ninguém.

Infelizmente, nem tudo são rosas. Como é perceptível no dia-a-dia, mesmo sem efectuar estudos, existem em Portugal imensos imigrantes ilegais (estima-se que sejam cerca de 50 mil) e muitos deles trabalham em condições degradantes e são explorados. Segundo o jornal Público, as associações de imigrantes a esse respeito falam de “escravatura moderna”.

A fotografia ilustra melhor a exploração que a boa recepção. Pode ser que as medidas agora elogiadas pelas Nações Unidas  (muitas delas foram adoptadas apenas em 2007) permitam acabar rapidamente com essa exploração.

Domingo, 4 de Outubro de 2009

As ditaduras são todas más, não são?

Mercedes Sosa Segundo o jornal Público, a cantora argentina Mercedes Sosa, que faleceu hoje aos 74 anos, “lutou contra as ditaduras fascistas na América do Sul”. Suponho que a restrição à América do Sul seja uma imprecisão jornalística: a cantora de “Gracias a la Vida” indignava-se certamente com a falta de liberdade e com a repressão fosse qual fosse a sua localização geográfica. O que me leva a perguntar: mas então e as ditaduras comunistas?

Não me parece que a tortura e a privação da liberdade custem menos a um prisioneiro político cubano (em Cuba existe, ainda hoje, uma ditadura comunista) do que a um prisioneiro político da – felizmente desaparecida - ditadura de extrema-direita de Pinochet, no Chile. Qualquer um deles é, na minha opinião, merecedor das canções e dos protestos de Mercedes Sosa.

Parte do que escrevi atrás é irónico. Mas quero terminar sem ironia: porque é que muitos artistas, intelectuais, jornalistas, etc., são mais tolerantes com as ditaduras de esquerda do que com as ditaduras de direita? Essa tolerância fará sentido? Na minha opinião, não faz.

Sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

Músicas do mundo: todas diferentes, todas belas!

Hoje é o Dia Mundial da Música. Num blogue dedicado à Sociologia fica bem comemorar a data com sugestões culturalmente diversas. Nestas músicas, para além dessa diversidade há duas coisas que se encontram em todas as sociedades humanas, embora (lá está) com aparências muitos diferentes: o amor e a beleza.

Clique aqui e ouça outras duas boas sugestões musicais, também a propósito do Dia Mundial da Música.

Quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

Senso comum e ciência: alguns exemplos

A Sociologia é uma ciência social. Mas, o que é uma ciência? Há outros tipos de conhecimento: o senso comum, a filosofia, a religião, etc. O que há de distintivo no conhecimento científico? No âmbito do estudo da Sociologia torna-se especialmente importante distinguir o conhecimento científico do senso comum.

A - Os textos a seguir apresentados referem vários conhecimentos. Identifique quais é que são científicos e quais é que pertencem ao senso comum.
1. Muitos habitantes de Lisboa sabem onde fica o café “O Pato”.
2. Em Portugal (nas zonas urbanas mas sobretudo nas zonas rurais) é muito frequente a crença de que alimentos como a canja de galinha e os citrinos (laranjas, tangerinas, limões, etc.) ajudam a curar as constipações.
3. O conhecimento de que a lixívia estraga a roupa colorida é bastante vulgar.
4. «A secreção de progesterona leva a um espessamento do endométrio (revestimento das paredes uterinas), o que constitui um primeiro passo na preparação do útero para receber o embrião. Se o óvulo for fertilizado terá origem um processo que transforma progressivamente o útero de forma a permitir o desenvolvimento do embrião. Se o óvulo não chegar a ser fertilizado, o espessamento do endométrio é reabsorvido e inicia-se um novo ciclo. Na nossa espécie e em alguns outros primatas há uma deposição tissular demasiado grande para que esta reabsorção possa realizar-se. O espessamento é, neste caso, libertado sob a forma de um fluxo menstrual». Henry Gleitman, Psicologia, F. C. Gulbenkian, Lisboa.
5. «Numa tradução da História Natural, de Plínio, escrita no início da era cristã, pode ler-se o seguinte parágrafo (...): “A mão da mulher com a menstruação torna o vinho em vinagre, seca as colheitas, mata as sementes, murcha os jardins, embacia os espelhos, oxida o ferro e o latão (sobretudo quando a Lua está na fase de quarto minguante), mata as abelhas, o marfim perde o seu brilho, os cães enlouquecem se lambem o seu mênstruo...” (...) Algumas comunidades judaicas da Europa Oriental acreditam que, se as mulheres se aproximarem das conservas durante a menstruação, estas estragar-se-ão. Na Carolina do Norte mantém-se a crença tradicional de que, se a mulher amassar um bolo durante o período, este não será comestível.» Enciclopédia de Psicologia.
6. Plutão leva 247,7 anos a completar uma volta em torno do Sol.
7. A temperatura média na superfície de Plutão é de 237 graus negativos.
8. No planeta Mercúrio, que é o mais próximo do Sol, chegam a registar-se temperaturas de 430 graus (positivos).
B - Que características permitem distinguir o conhecimento do senso comum do conhecimento científico?

Mais exemplos aqui.

O que estuda a Sociologia? Da infidelidade conjugal à religião, tudo um pouco!

Não é fácil delimitar com precisão o objecto de estudo da Sociologia e indicar de uma vez por todas o que estuda a Sociologia.

Essa dificuldade existe porque há inúmeros assuntos que podem ser estudados pela Sociologia: do namoro à infidelidade conjugal, passando pelo insucesso escolar na disciplina de Matemática ou pelo modo como a prática desportiva é socialmente percepcionada, muitos fenómenos sociais podem ser alvo de investigação sociológica.

telemóvel-sms Alguns tópicos da investigação sociológica podem deixar de existir e outros novos surgirem, em virtude de mudanças ocorridas na sociedade. Por exemplo: há uns anos atrás a influência dos telemóveis nas interacções sociais (nomeadamente nos exemplos dados anteriormente: o namoro e a infidelidade conjugal) era um tema sociológico impossível, pois ainda não existiam telemóveis.

Outra razão explicativa dessa dificuldade prende-se com o facto desses fenómenos sociais também serem estudados por outras Ciências Sociais. Assim, por exemplo, a infidelidade conjugal e o insucesso a Matemática também podem ser estudados pela Psicologia ou mesmo pela História.

Outro exemplo possível é a religião. Esta pode ser estudada pela Sociologia, Filosofia, Psicologia, Antropologia, etc. Neste sítio pode encontrar um texto interessante que, através de diversos exemplos, distingue com clareza o que é que, no fenómeno religioso, interessa à Sociologia e o que interessa à Filosofia.