Vamos lá contar as armas
tu e eu, de braço dado
nesta estrada meio deserta
não sabemos quanto tempo as tréguas vão durar...
há vitórias e derrotas
apontadas em silêncio
no diário imaginário
onde empilhamos as razões para lutar!
Repreendo os meus fantasmas
ao virar de cada esquina
por espantarem a inocência
quantas vezes te odiei com medo de te amar...
vejo o fundo da garrafa
acendo mais outro cigarro
tudo serve de cinzeiro
quando os deuses brincam é para magoar!
Vamos enganar o tempo
saltar para o primeiro comboio
que arrancar da mais próxima estação!
Para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário?
Pode ser que, por milagre,
troquemos as voltas aos deuses
Entre o caos e o conflito
a vontade e a desordem
não podemos ver ao longe
e corremos sempre o risco de ir longe demais
somos meros transeuntes
no passeio dos prodígios
somos só sobreviventes
com carimbos falsos nas credenciais
Vamos enganar o tempo...
Jorge Palma, “Passeio dos Prodígios”
As palavras desta canção podem ser interpretadas de vários modos. Podem referir-se a duas pessoas que se amam mas que não se conseguem entender ou a duas pessoas que se amam mas que não conseguem ficar juntas devido a obstáculos exteriores. Se (como passamos a vida a fazer!) dermos mais importância a uns versos que a outros, é plausível achar que a canção fala de duas pessoas que gostam uma da outra, mas em que só uma (o narrador) está realmente apaixonada. E, nesse caso, os verdadeiros obstáculos não são coisas sociais e exteriores mas os próprios sentimentos. Por outro lado, não é impossível interpretar a canção como descrevendo a tragédia de duas pessoas (amantes ou apenas amigos) esmagadas por um grande problema qualquer: talvez um vício como a droga ou o álcool.
Essa ambiguidade, essa multiplicidade de sentidos, tratando-se de uma canção ou de outra obra de arte, pode ser uma qualidade. Pode significar riqueza e profundidade intelectual. É o caso de “Passeio dos Prodígios” de Jorge Palma.
Porém, se se tratar de um texto com pretensões cognitivas (ou seja, que pretenda ser conhecimento, que pretenda descrever ou explicar de modo verdadeiro e justificado um qualquer fenómeno) – como sucede na sociologia e nas outras ciências sociais, bem como nas ciências da natureza, na matemática e na filosofia – uma tal ambiguidade não constitui uma qualidade. Pelo contrário, significa falta de rigor e, possivelmente, falta de méritos cognitivos; significa que não é um texto científico.
Seja como for, o perigo de cair nessa falta de rigor “literária” (por assim dizer), embora não seja raro, não é o perigo mais frequente para um cientista social. O perigo mais frequente é, de longe, a circunstância de mesmo na prosa mais seca poder faltar completamente a objectividade – roubada pelas convicções religiosas, sociais, políticas, etc.
Quando se tenta compreender fenómenos como a globalização, o insucesso escolar ou a crise económica esse perigo é mortal. Para ser mais exacto: é a morte da ciência e a vitória da ideologia.
Em períodos como aquele que se está agora a viver em Portugal (haverá eleições legislativas daqui a uma semana e autárquicas daqui a três semanas, pelo que o país foi “invadido” pelas campanhas eleitorais dos vários partidos), os textos de alguns sociólogos, economistas ou pedagogos são simultaneamente um autêntico cemitério científico e um alegre festival de ideologia.
De alguns, mas não de todos – pois a objectividade é possível.
(Se quiser ler mais acerca do conceito de ideologia veja aqui e aqui.)