Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Mafalda: 45 anos a fazer pensar

mafalda a infelicidade de escolher em quem votar

Quino, Toda a Mafalda, Edições Dom Quixote, Lisboa, 1990, pág.

A primeira história de Mafalda foi publicada a 29 de Setembro de 1964. Fez ontem 45 anos. Parabéns!

Quanto a estas duas tiras: qualquer semelhança com a realidade portuguesa não é mera coincidência! A esse respeito dê uma vista de olhos aqui e aqui.

Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Keep walking…

Keep Walking a evolução do fato banho feminino

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. E as dimensões dos fatos de banho femininos. Keep walking…

Mas será realmente um progresso?

Imagem encontrada aqui.

Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

A Sociologia e as outras Ciências Sociais: o caso da pena de morte

“As Ciências Sociais são o estudo das características sociais dos seres humanos e das maneiras pelas quais eles interagem e mudam. As Ciências Sociais incluem entre outras disciplinas a Sociologia, a Antropologia, a Economia, a História, a Psicologia e as Ciências Políticas.

Essas disciplinas das Ciências Sociais têm um foco comum no comportamento social das pessoas, mesmo que cada uma delas tenha uma orientação particular. Os antropólogos geralmente estudam culturas passadas e sociedades pré-industriais que ainda existem, bem como as origens dos seres humanos. Os economistas exploram as maneiras pelas quais as pessoas produzem e trocam mercadorias e serviços, bem como o dinheiro e outros recursos. Os historiadores estão preocupados com as pessoas e os eventos do passado, e seu significado para nós hoje. Os cientistas políticos estudam as relações internacionais, os actos do governo e o exercício do poder e da autoridade. Os psicólogos investigam a personalidade e o comportamento individual.

ENFORCAMENTO no Irão Então, o que fazem os sociólogos? Eles estudam a influência que a sociedade tem nas atitudes e nos comportamentos das pessoas, bem como na maneira como as pessoas interagem e formam a sociedade. Como os seres humanos são animais sociais, os sociólogos examinam cientificamente as nossas relações com os outros.

Vamos considerar como as diferentes Ciências Sociais podem abordar o tema polémico da pena de morte. Os historiadores estariam interessados no desenvolvimento [nos EUA] da pena capital do período colonial até ao presente. Os economistas poderiam fazer uma pesquisa para comparar os custos das pessoas encarceradas durante toda a vida com as despesas dos recursos que ocorrem nos casos de pena de morte. Os psicólogos observariam os casos individuais e avaliariam o impacto da pena de morte na família da vítima e na do preso executado. Os cientistas políticos estudariam as diferentes posições assumidas pelos políticos eleitos e as implicações dessas posições nas suas campanhas para a reeleição. [Por seu turno, os filósofos discutiriam se a pena de morte é certa ou errada em termos morais.]

E qual seria a abordagem dos sociólogos? Eles poderiam verificar [entre outros aspectos] como a raça e a etnia afectam o resultado dos casos de pena de morte. De acordo com um estudo publicado em 2003, 80% dos casos de pena de morte nos Estados Unidos envolvem vítimas de cor branca, apesar de apenas 50% de todas as vítimas de assassinato serem brancas. Parece que a raça da vítima influencia a decisão sobre se o réu será condenado à pena capital (...). Assim, o sistema de justiça criminal parece tender a impor penas mais pesadas quando as vítimas são brancas do que quando elas pertencem a uma das minorias.”

Richard T. Schaefer, Sociologia, 6ª edição, McGraw-Hill, São Paulo, 2006, pp. 6-7.

Na imagem: enforcamento público de cinco criminosos condenados por um tribunal, no Irão .

A dimensão sociológica dos fenómenos sociais

Os fenómenos sociais têm várias dimensões e por isso cada um deles é estudado por diversas Ciências Sociais – cada uma com a sua perspectiva própria.

Qual é a perspectiva da Sociologia? Qual é exactamente a dimensão dos fenómenos sociais que interessa à Sociologia?

Dito por outras palavras. É relativamente fácil indicar qual é dimensão económica ou histórica de um fenómeno social. Mas qual é a dimensão sociológica dos fenómenos sociais?

Recordemos algumas das questões colocadas pela Sociologia relativamente aos fenómenos sociais que analisámos nas aulas.

  • Relativamente à emigração portuguesa, Sociologia pode, por exemplo, perguntar: Qual é o grau de integração dos emigrantes portugueses nos países de destino?
  • Relativamente ao consumo, Sociologia interessa-se, por exemplo, pela relação entre o consumo de certos produtos e os grupos e classes sociais a que as pessoas pertencem ou querem pertencer.
  • Relativamente ao comportamento dos jovens, Sociologia interessa-se, por exemplo, pela relação entre o estilo de vida (tipos de música, maneiras de conviver, hábitos de vestuário, hábitos alimentares, etc.) e os grupos de que o jovem faz parte.
  • Relativamente à pena de morte, Sociologia interessa-se, por exemplo, pelo modo como a raça pode afectar o resultado dos processos judicias e a condenação ou não à pena capital.

Como se vê, os sociólogos interessam-se por coisas diferentes. Todavia, há algo comum entre todos esses tópicos. O que será?

Em todos eles o que está em causa não são os meros indivíduos, mas, as suas interacções, o seu relacionamento enquanto pessoas que vivem em comunidade.

Um sociólogo pode interessar-se e estudar coisas muito diversas, mas têm sempre a ver com esse “relacionamento”. Assim, a dimensão sociológica dos fenómenos sociais é o seu carácter relacional ou interactivo.

O sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), um dos fundadores da Sociologia, descreveu bem a dimensão sociológica dos fenómenos sociais quando escreveu as palavras seguintes no livro As Regras do Método Sociológico:

“Para que exista o facto social é preciso que vários indivíduos tenham misturado as suas acções, e que desta combinação se tenha desprendido um produto novo”.

A Sociologia não estuda o individual

Domingo, 27 de Setembro de 2009

Elogio do voto

Hoje há eleições legislativas em Portugal. Em diversas eleições passadas a percentagem de eleitores que se absteve foi elevada. Por exemplo: 35,7% nas últimas eleições legislativas e 63,5% nas últimas eleições para o Parlamento Europeu. No primeiro caso a abstenção foi superior à percentagem obtida pelo segundo partido mais votado. No segundo caso a abstenção foi muito superior à percentagem obtida pelo partido que venceu as eleições.

Taxas tão elevadas de abstenção são prejudiciais para a “saúde” da democracia. Escrevi no blogue Dúvida Metódica um pequeno texto (Defesa do voto e crítica da abstenção) defendendo a ideia de que os democratas nunca se deviam abster: deviam votar sempre, nem que seja em branco.

Espero que daqui a algumas horas se descubra que a abstenção foi tão pequena que, se a transformassem em votos, não elegeria nenhum deputado. Porque viver numa democracia é muito melhor que viver numa ditadura.

manifestação de sufragistas Suffrage parade NewYork City May 6 1912

Na fotografia: parada das sufragistas americanas, realizada em Nova Iorque a 6 de Maio de 1912.

(A respeito de eleições veja também aqui e aqui.)

Sábado, 26 de Setembro de 2009

Os fenómenos sociais são complexos: o exemplo da emigração portuguesa

emigrantes portugueses filme o salto emigração portuguesa frança emigração dolorosa

exemplo da emigração portuguesa

Antonio Rocco os emigrantes emgrigração portuguesa para canadáportugueses operários emigrantes

Os fenómenos sociais são complexos: o exemplo do consumo

Os fenómenos sociais são complexos ou pluridimensionais. Não são apenas económicos, nem apenas políticos ou sociais. Possuem simultaneamente várias dimensões. O sociólogo Marcel Mauss exprimiu essa ideia através da expressão “fenómeno social total”.

Vejamos a título de exemplo o caso do consumo.

Consumo consumismogravatas consumismo

image

Maria Luz Oliveira e outros, Sociologia - 12º Ano, Texto Editora, Lisboa, 1998, pág. 25.

Quais serão os aspectos do fenómeno do consumo que interessam à Sociologia?

Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Crianças selvagens: as meninas lobo

AMALA Y KAMALA “Nas regiões da Índia, onde os casos de crianças-lobos foram relativamente numerosos, descobriram-se, em 1920, duas meninas - Amala e Kamala de Midnapore – que viviam numa família de lobos. A primeira, a mais nova, morreu um ano depois; a segunda, Kamala, que deveria ter uns oito anos, viveu até fins de 1929.

Segundo a descrição do Reverendo Singh que as recolheu, elas nada tinham de humano, e o seu comportamento era exactamente semelhante ao dos pequenos lobos, seus irmãos: incapazes de permanecerem de pé caminhavam a quatro patas, apoiadas nos cotovelos e nos joelhos para percorrem pequenos trajectos e apoiadas nas mãos e nos pés, quando o trajecto era longo e rápido; apenas se alimentavam de carne fresca ou putrefacta comiam e bebiam como os animais, acocoradas, com a cabeça lançada para a frente, sorvendo os líquidos com a língua. Passavam o dia escondidas e prostradas, à sombra; de noite, pelo contrário, eram activas e davam saltos, tentavam fugir e uivavam, realmente, como os lobos. Nunca choravam ou riam, característica que se encontra em todas as crianças-selvagens.

meninas lobas Reintegrada na sociedade dos homens onde viveu oito anos, Kamala humaniza-se lentamente, mas, note-se, sem nunca recuperar o atraso: passaram seis anos antes de conseguir caminhar na posição erecta. Na altura da morte apenas dispõe de umas cinquenta palavras. Contudo, se esses progressos são lentos, são também contínuos e realizam-se simultaneamente em todos os sectores da sua personalidade. Surgem atitudes afectivas: Kamala chora, pela primeira vez, quando morre a irmã, torna-se, pouco a pouco, capaz de sentir afeições pelas pessoas que cuidam dela, especialmente pela senhora Singh; sorri quando lhe falam. A sua inteligência desperta também; consegue comunicar com as outras pessoas, por meio de gestos, gradualmente reforçados com algumas palavras simples de um vocabulário rudimentar; consegue compreender e executar ordens simples, etc.

No entanto, a dar crédito a outro observador, o bispo Pakenham Walsh, que viu Kamala seis anos depois de ser encontrada, a criança não tomava qualquer iniciativa de contacto, nunca utilizava espontaneamente as palavras que aprendera e, especialmente, mergulhava numa atitude de total indiferença mal as pessoas deixavam de a solicitar.”

REYMOND-RIVER, O Desenvolvimento Social da Criança e do Adolescente, Ed. Aster.

Não consegui confirmar completamente a informação, mas aparentemente as fotografias retratam Kamala.  Fotografias encontradas aqui.

As crianças nas sociedades ocidentais actuais

Compare a imagem e a informação que tem sobre os costumes dominantes nos países ocidentais com a informação do post anterior acerca dos costumes esquimós e incas no que diz respeito às crianças.

Diversidade de costumes quanto ao tratamento das crianças

As crianças na sociedade esquimó
No início da década de 1890, o médico americano Frederick Cook realizou suas primeiras incursões visando à conquista do Pólo Norte. Descrevendo a inclemência do frio e as difíceis condições de sobrevivência naquelas paragens, dizia:
“Quando uma mulher entrava em trabalho de parto era conduzida a um igloo, onde permanecia sozinha, com alimento suficiente para duas semanas. Se ela sobrevivesse e o choro do bebé fosse ouvido, os demais se aproximavam para dar assistência à mãe e à criança. Se tudo silenciasse, o igloo era fechado para sempre. Quando nasciam gémeos, ambos eram mortos, pois se considerava impossível que a mãe carregasse e cuidasse de duas crianças. Quando morria a mãe ou o pai de uma criança com menos de três anos, ela era estrangulada com uma tira de couro de foca. Ter pai e mãe era factor decisivo para uma criança numa região onde não existe animal ou vegetal vivos durante meses seguidos.”
Adaptado a partir do blogue brasileiro “Lista de livros”.
As crianças na sociedade Inca
Desde a gravidez, a mulher tinha que cumprir com uma série de requisitos como não comer determinados alimentos e, frequentemente se abster da vida sexual. Um adivinho era consultado para prever se o nascimento viria com boa ou má sorte. As mulheres do povo pariam sem parteira e com dor. Depois de dar a luz, cortavam o cordão umbilical com um pedaço de cerâmica e o guardavam para dar ao bebé para comer caso ficasse doente. Depois, tomavam banho com a criança em uma corrente de água próxima, envolviam o bebé em uma coberta, colocando-o em uma cuia, para voltar ao trabalho que haviam interrompido antes do parto. Uma prática muito comum era matar ou abandonar as crianças consideradas deformadas. Os bebés cujas mães morriam no parto ou durante a amamentação também eram abandonados, a não ser que alguém se encarregasse deles. Depois do nascimento de seu filho, o pai se encostava a uma rede queixando-se das dificuldades que havia sofrido no parto, enquanto que a mãe continuava trabalhando. Na realidade, esta era a forma de proclamar publicamente que ele era o pai do recém-nascido. O cuidado com as crianças não era excessivamente complicado. Em geral os bebés mamavam até os dois anos. Isso porque o leite supria uma alimentação infantil deficiente. Apesar de o leite materno ser combinado progressivamente com comestíveis, tirar o peito era muito complicado. Para conseguir, as mães colocavam nos bicos dos peitos determinadas substâncias amargas, e maltratavam seus filhos fisicamente quando pediam o peito. Para poder continuar trabalhando, as mulheres incas carregavam os seus filhos. O mais frequente era levá-lo nas costas, com tiras de pano feitas com lã de lhama ou algodão, decoradas com finos bordados que expressavam a ternura da mãe.

Terça-feira, 22 de Setembro de 2009

O círculo vicioso da pobreza: não ofereças peixe, ensina a pescar

pais pobre barracas Diversos estudiosos do fenómeno da pobreza reuniram-se no Porto para trocar e discutir ideias. O mote do encontro foi "o que sabemos sobre a pobreza em Portugal".

Foi dito que em Portugal existem aproximadamente 2 milhões de pobres, ou seja, cerca de 18% da população portuguesa. (Considera-se uma pessoa pobre quando o seu rendimento é inferior a 60% do rendimento médio dos seus concidadãos.) Uma vez que esses números não se alteram significativamente há dez anos, os especialistas consideram que essa pobreza é estrutural.

De acordo com o jornal i, no encontro constatou-se que as políticas de combate à pobreza que têm sido seguidas em Portugal, além de caras, têm sido ineficazes e contraproducentes – pois promovem a dependência dos subsídios. "É difícil dizer isto, mas as pessoas habituam-se à pobreza (…) as medidas provisórias [os subsídios]tornaram-se permanentes", afirmou a professor universitária Aurora Teixeira.

"Estamos condenados à persistência da pobreza se não se mudar a forma como este problema é abordado", afirmou Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar contra a Fome. Segundo os participantes no encontro, é preciso que, em vez do mero assistencialismo e da entrega de dinheiro, "as ajudas sociais sejam acompanhadas de capacitação dos beneficiários para que, no final do apoio, possam estar realmente preparados para integrar o mercado".

Mas como conseguir essa “capacitação”?  Para essa “capacitação” ser possível é preciso responsabilizar as pessoas ajudadas. Ou seja: é preciso que quem pode estude ou trabalhe em troca da ajuda e é preciso que fique definido à partida que essa ajuda será temporária.

Infelizmente, não são essas ideias que têm sido defendidas na campanha eleitoral em curso em Portugal. Da esquerda à direita, quase todos os políticos têm defendido mais e mais subsídios, mais e mais assistência – sem mencionar quaisquer contrapartidas. Os poucos políticos que têm defendido a responsabilização das pessoas ajudadas têm sido acusados de populismo.

Na verdade, populismo é prometer subsídios sem  contrapartidas, pois isso não permite quebrar o círculo vicioso da pobreza.

Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

“O Véu Pintado”: parte das cores deste filme são sociológicas

 

“À la claire fontaine” é uma canção infantil francesa que faz parte da banda sonora do filme “O Véu Pintado” (de 2006), de John Curran, baseado no romance homónimo de Somerset Maugham.

“O Véu Pintado”  não faz parte das sugestões de filmes incluídas nos diversos manuais de Sociologia para o 12º ano, mas poderia fazer, uma vez que nele são aflorados muitos temas sociológicos: a socialização, a diversidade cultural, o etnocentrismo, o “conflito” entre a ciência e certos costumes e crenças, a estratificação e a desigualdade social, o papel da mulher na sociedade, o casamento, a mudança social e a resistência à mudança, etc.

Quem ler também o romance de Somerset Maugham fica habilitado a reflectir sobre outro tópico sociológico: a valorização contemporânea do amor romântico. (A esse respeito espreite aqui e aqui.) É que a história de amor em que, a certa altura, o filme se torna, não existe no romance. Os autores do filme devem ter receado que a ausência de romantismo prejudicasse as audiências.

À la claire fontaine

À la claire fontaine,
M'en allant promener
J'ai trouvé l'eau si belle
Que je m'y suis baigné

Il y a longtemps que je t'aime
Jamais je ne t'oublierai

Sous les feuilles d'un chêne,
Je me suis fait sécher
Sur la plus haute branche,
Un rossignol chantait

Il y a longtemps que je t'aime
Jamais je ne t'oublierai

Chante rossignol, chante,
Toi qui as le cœur gai
Tu as le cœur à rire,
Moi je l'ai à pleurer

Il y a longtemps que je t'aime
Jamais je ne t'oublierai

J'ai perdu mon amie,
Sans l'avoir mérité
Pour un bouquet de roses,
Que je lui refusai

Il y a longtemps que je t'aime
Jamais je ne t'oublierai

Je voudrais que la rose,
Fût encore au rosier
Et que ma douce amie
Fût encore à m'aimer

Il y a longtemps que je t'aime
Jamais je ne t'oublierai

Na Fonte Clara

Na fonte que clara
Eu vou passear
Acho a água tão bela
Que vou me banhar

Há muito tempo que te amo,
Jamais te esquecerei.

No alto d'um carvalho,
Eu me sinto seguro.
Sobre o mais alto galho,
O rouxinol faz seu trabalho.

Há muito tempo que te amo,
Jamais te esquecerei.

Cante rouxinol, cante,
Teu coração vive,
Teu coração sorria...
Enquanto o meu ardia.

Há muito tempo que te amo,
Jamais te esquecerei.

Eu perdi minha amiga
Sem saber o que causei,
Por um ramo de rosas
Que não lhe dei...

Há muito tempo que te amo,
Jamais te esquecerei.

Eu queria que a rosa
Fosse plantada,
E que minha doce amiga
Fosse assim amada...

Há muito tempo que te amo,
Jamais te esquecerei.

Tradução portuguesa da canção encontrada aqui.

Sábado, 19 de Setembro de 2009

A morte da ciência e a vitória da ideologia, a propósito de uma canção de Jorge Palma … e das eleições

Vamos lá contar as armas
tu e eu, de braço dado
nesta estrada meio deserta
não sabemos quanto tempo as tréguas vão durar...

há vitórias e derrotas
apontadas em silêncio

no diário imaginário
onde empilhamos as razões para lutar!

Repreendo os meus fantasmas
ao virar de cada esquina
por espantarem a inocência
quantas vezes te odiei com medo de te amar...

vejo o fundo da garrafa
acendo mais outro cigarro
tudo serve de cinzeiro
quando os deuses brincam é para magoar!

Vamos enganar o tempo
saltar para o primeiro comboio
que arrancar da mais próxima estação!
Para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário?
Pode ser que, por milagre,
troquemos as voltas aos deuses

Entre o caos e o conflito
a vontade e a desordem
não podemos ver ao longe
e corremos sempre o risco de ir longe demais
somos meros transeuntes
no passeio dos prodígios
somos só sobreviventes
com carimbos falsos nas credenciais
Vamos enganar o tempo...

Jorge Palma, “Passeio dos Prodígios”

As palavras desta canção podem ser interpretadas de vários modos. Podem referir-se a duas pessoas que se amam mas que não se conseguem entender ou a duas pessoas que se amam mas que não conseguem ficar juntas devido a obstáculos exteriores. Se (como passamos a vida a fazer!) dermos mais importância a uns versos que a outros, é plausível achar que a canção fala de duas pessoas que gostam uma da outra, mas em que só uma (o narrador) está realmente apaixonada. E, nesse caso, os verdadeiros obstáculos não são coisas sociais e exteriores mas os próprios sentimentos. Por outro lado, não é impossível interpretar a canção como descrevendo a tragédia de duas pessoas (amantes ou apenas amigos) esmagadas por um grande problema qualquer: talvez um vício como a droga ou o álcool.

Essa ambiguidade, essa multiplicidade de sentidos, tratando-se de uma canção ou de outra obra de arte, pode ser uma qualidade. Pode significar riqueza e profundidade intelectual. É o caso de Passeio dos Prodígios” de Jorge Palma.

Porém, se se tratar de um texto com pretensões cognitivas (ou seja, que pretenda ser conhecimento, que pretenda descrever ou explicar de modo verdadeiro e justificado um qualquer fenómeno) – como sucede na sociologia e nas outras ciências sociais, bem como nas ciências da natureza, na matemática e na filosofia – uma tal ambiguidade não constitui uma qualidade. Pelo contrário, significa falta de rigor e, possivelmente, falta de méritos cognitivos; significa que não é um texto científico.

Seja como for, o perigo de cair nessa falta de rigor “literária” (por assim dizer), embora não seja raro, não é o perigo mais frequente para um cientista social. O perigo mais frequente é, de longe, a circunstância de mesmo na prosa mais seca poder faltar completamente a objectividade – roubada pelas convicções religiosas, sociais, políticas, etc.

Quando se tenta compreender fenómenos como a globalização, o insucesso escolar ou a crise económica esse perigo é mortal. Para ser mais exacto: é a morte da ciência e a vitória da ideologia.

Em períodos como aquele que  se está agora a viver em Portugal (haverá eleições legislativas daqui a uma semana e autárquicas daqui a três semanas, pelo que o país foi “invadido” pelas campanhas eleitorais dos vários partidos), os textos de alguns sociólogos, economistas ou pedagogos são simultaneamente um autêntico cemitério científico e um alegre festival de ideologia.

De alguns, mas não de todos – pois a objectividade é possível.

(Se quiser ler mais acerca do conceito de ideologia veja aqui e aqui.)

Domingo, 13 de Setembro de 2009

May all of your dreams come true

You are my sister, we were born
So innocent, so full of need
There were times we were friends but times I was so cruel
Each night I'd ask for you to watch me as I sleep
I was so afraid of the night
You seemed to move through the places that I feared
You lived inside my world so softly
Protected only by the kindness of your nature
You are my sister
And I love you
May all of your dreams come true
We felt so differently then
So similar over the years
The way we laugh the way we experience pain
So many memories
But theres nothing left to gain from remembering
Faces and worlds that no one else will ever know
You are my sister
And I love you
May all of your dreams come true
I want this for you
They're gonna come true (gonna come true)

"You Are My Sister", Antony And The Johnsons

As ideias sugeridas pela canção talvez digam mais respeito à Psicologia que à Sociologia, que proporciona apenas um remoto pano de fundo.

Seja como for, amanhã recomeçam as aulas e provavelmente não há nenhuma frase que um professor goste tanto de dizer a um aluno como “May all of your dreams come true”. Excepto talvez este óbvio complemento: “…mas tens de trabalhar para isso!”

É pedagogicamente interessante que uma frase como “May all of your dreams come true” seja tão útil a um professor ao falar com os seus alunos como a um amigo ou a um amante ao falar com o seu parceiro afectivo. Contudo, isso não significa que o papel do professor seja facilitar a vida ao aluno. Pensando bem, talvez esse não seja sequer o papel dos amigos e dos amantes. Talvez na amizade e no amor também faça sentido dizer “…mas tens de trabalhar para isso!”

Um bom ano lectivo para todos. Mas têm de trabalhar para isso!

Dependente dos pais, mas jovem até aos 30!

jovem até aos 30 ou maisO desemprego, ou o emprego precário,  e a dificuldade de arranjar casa própria levam muitos jovens entre os 18 e os 28 a não sair da casa dos pais. Outros saem, mas continuam dependentes da sua ajuda financeira. Daí que à beira dos 30 anos continuem “jovens”.

Na opinião de um desses “jovens”: «Perdeu-se a estabilidade que os nossos pais tinham, de ter o mesmo trabalho uma vida inteira. Isso não é necessariamente mau, obriga-nos a estar mais preparados, mas há instabilidade pelas piores razões, começando pelos recibos verdes, que substituem contratos, pela difícil integração no mercado de trabalho na maior parte das áreas».

O jornal i falou com vários. Clique aqui e leia mais.

Sábado, 12 de Setembro de 2009

Boas vindas sociológicas

estabilidade

Caros novos alunos:

A disposição das rochas que podemos ver na fotografia nada tem de sociológico. É um fenómeno inteiramente natural, explicável pela Geologia e pela Física. Já o gosto por ser fotografado naquela situação tem – como aprenderão em breve – muito de sociológico. Tal como a própria Sociologia: a necessidade e o gosto de estudar a sociedade são um assunto tipicamente sociológico – que ocorre nalgumas sociedades e não ocorre noutras.

A Sociologia é um assunto sociológico… Parece um jogo de palavras, mas não é.

Bem-vindos à Sociologia!

(Fotografia encontrada não sei onde na Internet, sem referência  nem ao autor nem ao lugar fotografado.)

Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

Pseudoprofundidade: como ser um mau sociólogo

Publiquei um post no blogue Dúvida Metódica chamado Pseudoprofundidade: como não ser um filósofo. Inclui um texto do filósofo Stephen Law, em que este descreve e critica a atitude  das pessoas que se armam em gurus e apresentam ideias triviais de um modo vago e obscuro para parecer que são profundas e intelectualmente valiosas.

Essa prática intelectual fraudulenta não existe apenas na Filosofia. Infelizmente, não é raro encontrá-la nas Ciências Sociais, nomeadamente na Sociologia. O texto de Stephen Law tem, por isso, interesse sociológico.

Terça-feira, 8 de Setembro de 2009

Valerá a pena estudar?

desempregado e licenciado Segundo o jornal Público, um relatório da OCDE (referente a 2007) mostra que «os jovens universitários portugueses são mais afectados pelo desemprego de longa duração do que a média dos universitários desempregados nos restantes países da OCDE .

A constatação é válida também para os jovens desempregados que não completaram o ensino secundário. (…)

O desemprego de longa duração afecta 51 por cento dos desempregados portugueses com diploma universitário e idades entre os 25 e os 34 anos. Na média dos países da OCDE, esta taxa é de 42 por cento.

Se a comparação for entre os desempregados da mesma faixa etária mas com qualificações abaixo do ensino secundário, o peso do desemprego de longa duração sobe: é de 61 por cento em Portugal, contra os 55 por cento da média dos países da OCDE.»

Ou seja: um curso universitário não garante o emprego, tal como um curso secundário, mas a inexistência deste último aumenta a probabilidade de ficar no desemprego.

Estes dados reflectirão apenas a realidade do mercado de trabalho ou também reflectem um certo desfasamento das escolas (nomeadamente as Universidades) e das suas ofertas de cursos relativamente a esse mercado e à vida activa em geral?

Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

Delinquência infantil em Portugal: crianças que violam, traficam e roubam

crianças violentas Segundo o jornal i, em Portugal “há muitos mais casos de delinquência infantil em Portugal de do que se imagina”. A palavra "infantil" não é um erro, não foi escrita em vez de "juvenil", pois trata-se de crianças com 10 ou 11 anos e por vezes menos.

Quais são as causas?

«Os técnicos referem que os factores que levam uma criança à violência e ao crime podem ser muitos, mas nem sempre estão relacionados com a situação social e económica das famílias. Uma técnica disse ao i que há casos de crianças que têm comportamentos desviantes e até cometem crimes, mas a vergonha familiar impede o encaminhamento para as instituições. Num dos casos descritos, dois irmãos com a mesma família, o mesmo ambiente social e a mesma educação, são crianças totalmente diferentes entre si. Uma é estudiosa, com sentido de responsabilidade, afável e participativa. A outra tem graves problemas de comportamento e inserção social.»

Quais são as soluções?

Em Inglaterra (onde já ouve vários casos de crianças que assassinaram outras crianças) andam à procura delas. Em Portugal nem por isso. Seja como for, uma ideia parece assente:

“A total desresponsabilização das crianças cria nelas a ideia de que podem fazer tudo impunemente. A ideia de que a criança nunca tem culpa pode ser perniciosa”.

Domingo, 6 de Setembro de 2009

O que vamos almoçar: larvas ou sardinhas?

larvas de bicho da seda cobras para comer

As larvas do bicho da seda e as cobras são pratos muito apreciados na China.

caldo verde Sardinhas Assadas

O caldo verde e as sardinhas assadas fazem parte dos pratos típicas de várias regiões portuguesas.

Uma das razões que leva a que na alimentação (tal como no vestuário) haja uma enorme diversidade cultural é o facto de as várias sociedades viverem em meios bastante diferentes em termos de clima, relevo, fauna e flora. A sua gastronomia reflecte o meio físico em que vivem. Depois entra em cena a socialização, para assegurar que quase todos os membros da sociedade acham deliciosos os alimentos disponíveis.

“Cada sociedade ensina os seus membros a salivar só a determinados géneros de alimentação. Um gafanhoto encorpado evoca respostas salivares na maioria dos bosquímanos africanos, mas só em poucos americanos.”

H. Kendler, Introdução à Psicologia, F. C.Gulbenkian.

Terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Lágrimas depois de um dia de trabalho

Emiliano_cartoon trabalho

Cartoon de Chris Harding

Ao chegar ao carro, depois de um dia de trabalho, a personagem chora como se tivesse sido violada.

O trabalho pode não ser assim. Pode ser, pelo contrário, uma fonte de satisfação e de realização pessoal.

Espero que seja assim no caso da cara leitora ou do caro leitor, especialmente hoje, em que muitos milhares de portugueses voltam ao trabalho depois das férias.