“Jean Baudrillard considera que o impacto dos modernos meios de comunicação de massa é muito diferente, e muito mais profundo, do que o de qualquer outra tecnologia. O advento dos mass media, em particular dos meios electrónicos como a televisão, transformou a própria natureza das nossas vidas. A televisão não nos ‘representa’ só o mundo, mas, de uma forma gradual, define o que é, realmente, o mundo em que vivemos.”
Anthony Giddens, Sociologia, 5ª edição, F. C. Gulbenkian, 2007, Lisboa, pp. 466.
É por isso que os políticos marcam muitas vezes as conferências de imprensa e outros anúncios públicos para as 20.00 horas, para coincidir com o início dos telejornais, e criticam frequentemente a cobertura jornalística das suas actividades, alegando por exemplo que os adversários de outros partidos tiveram mais tempo de antena. É como se aquilo que não é noticiado pelos jornais e, principalmente, pela televisão não tivesse acontecido.
(E a cada dia que passa torna-se mais necessário acrescentar a Internet, nomeadamente os blogues, à lista dos meios de comunicação que vão definindo o que o mundo é.)
Por outro lado, a distinção entre a vida privada e a vida pública torna-se muitas vezes difícil de estabelecer. A Comunicação Social torna públicos factos da vida pessoal de políticos, desportistas, artistas, figuras do chamado Jet Set e de diversas outras pessoas famosas (muitas vezes com a cumplicidade dos próprios). Pessoas anónimas expõem na televisão (em programas como o Big Brother e similares) ou na Internet (a maioria dos blogues têm um carácter meramente pessoal, intimista) os seus problemas, as suas alegrias e os seus desejos – obtendo assim os 15 minutos da fama que Andy Warhol prometeu a todos.
Para terminar, um exemplo recente, mas inesperado, dessa exposição mediática voluntária. O filósofo suíço Alain De Botton está a escrever um livro no aeroporto de Heathrow. Para escrever o livro foi viver para o aeroporto, o de maior tráfego na Europa, e o caso foi noticiado em diversos órgãos de comunicação social. Trata-se de um caso curioso. Como a Filosofia costuma ser associada a atitudes críticas e racionais, esperar-se-ia que os filósofos resistissem à mediatização em vez de se entregarem a ela. Esta espécie de Big Brother filosófico protagonizado por Botton é, sem dúvida, um sinal dos tempos. (Leia mais acerca desse caso aqui.)
As mudanças referidas por Baudrillard estão em curso, mas o novo aspecto do mundo talvez ainda não seja perceptível. Onde é que isto irá parar?
(O primeiro cartoon é da autoria de Quino. O segundo foi encontrado na Internet e não consegui apurar o autor.)