Quinta-feira, 30 de Julho de 2009

Põe-te em guarda, pois um dia destes podes perder a piada!

Em Portugal, nos meses de Verão e na época de Natal, costuma aumentar o número de animais domésticos abandonados na rua pelos donos e o número de pessoas idosas abandonadas no Hospital pelos familiares (após uma ida às Urgências). Em ambos os casos o motivo é o mesmo: as férias. O cão, o gato, o canário, a avó ou o avô iriam atrapalhar as férias.

Há cerca de duas semanas escrevi, no blogue Dúvida Metódica, um post chamado “Usados e depois deitados fora” sobre esse assunto. Resolvi pegar-lhe novamente pois há poucos minutos assisti a uma situação impressionante.

cão abandonado Um cão vadio viu uma senhora na rua (que, deduzo, era a antiga dona) e aproximou-se a abanar a cauda. A senhora procurou afastar-se e, como o cão continuou a segui-la de cauda a abanar, atirou-lhe uma pedra da calçada, que lhe acertou de raspão numa pata. Mesmo assim, o cão persistiu em ir atrás dela de cauda a abanar, mas agora ganindo de dor. De repente, a senhora parou e deixou o cão aproximar-se. Tirou um objecto da mala (não sei dizer que objecto era, mas não parecia uma faca) e jogou a mão na direcção do cão como se lhe fosse fazer uma festa. Mas, em vez de uma festa, fez - com o tal objecto - dois golpes rápidos. O cão ficou com uma ferida extensa no dorso, em forma de Y. A ganir e a pingar sangue, o cão fugiu para a estrada. Infelizmente ia a passar um camião que o atropelou. Foi completamente esmagado pelas enormes rodas. O camião nem sequer parou e a senhora continuou o seu caminho como se nada se tivesse passado.

Fiquei especado no meio da rua, perplexo com o que vira e vieram-me à memória alguns versos de “Balada da Rita”, uma bela canção de Sérgio Godinho:

“Passaram-me de ombro em ombro, põe-te em guarda Encheram-me de flores o quarto, põe-te em guarda Mas é sempre a mesma história Depois do primeiro assombro Logo o corpo fica farto”

velho desalentado As pessoas que abandonam os seus familiares idosos no Hospital não assumem que o fazem e se questionadas tentam arranjar justificações que anulem ou diminuam a sua responsabilidade (esqueceram-se, adoeceram, surgiu um imprevisto, etc.). Não dizem, portanto, que estão fartas do avô ou da avó e que a sua presença lá em casa as atrapalha e sufoca. A responsável do Serviço Social de um Hospital lisboeta disse a esse respeito: "As famílias nunca assumem que não os vão buscar. Quando entramos em contacto dizem que não podem ir nesse dia e depois não atendem os telefones".

Salvo erro, os psicólogos chamam “racionalização” a essa forma de sacudir a água do capote.

Suponho que, se alguém perguntasse àquela senhora porque é que tinha abandonado o cão e porque é que o tinha ferido, ela utilizaria a mesma estratégia: racionalizaria, reinterpretaria os factos para que estes parecessem jogar a seu favor e assim poder desfazer-se da responsabilidade. Começaria possivelmente por recusar os termos usados: “a ferida foi feita sem querer” e “não foi bem abandono… aliás, eu até gostava dele”. Apresentaria uma lista de razões para justificar o abandono que não foi bem abandono e não assumiria que para ela o cão era um mero objecto que tinha deixado de ser útil e que tinha perdido a piada inicial – e que, parafraseando Sérgio Godinho, depois do assombro dos primeiros meses ela tinha ficado farta do bicho. Se lhe chamássemos a atenção para o facto dos interesses do cão (um ser vivo, um animal capaz de sentir dor e prazer, dotado de memória e alguma capacidade de aprendizagem) estarem a ser esquecidos ela provavelmente mudaria de assunto.

Salvo erro, os psicólogos chamam “egocentrismo” a essa incapacidade de nos colocarmos noutros pontos de vista e de recusarmos incluir na deliberação que precede a acção outros interesses além dos nossos.

Quando na vida social lidamos com pessoas egocêntricas sabemos que, como diz a canção de Sérgio Godinho, temos de nos pôr em guarda. Porém, é mais fácil fazer isso relativamente a pessoas com quem não temos laços afectivos do que com pessoas de quem gostamos. Quando o mal nos é feito por pessoas de quem gostamos temos poucas defesas. É que se passa com os animais domésticos abandonados na rua e com os idosos abandonados no Hospital pelos familiares: foram traídos pelas pessoas de quem mais gostavam e em quem mais confiavam. Como poderiam estar em guarda?

Quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Estragar o meio ambiente é dar um tiro no pé!

ecocartoon morte da floresta     ecocartoon escassez de água

Estes dois cartoons foram apresentados na exposição "Eco Cartoon" (Brasília, 2008). Não consegui descobrir os autores, pelo que, caso algum leitor saiba quem são, agradeço que me diga.

Mesmo que os chamados “cépticos ambientais” tenham razão e o aquecimento global não se deva à actividade humana (ou não se deva apenas), isso não significa que está tudo bem e que não existem motivos sérios para estarmos preocupados com o meio ambiente. Mesmo que a causa (ou a principal causa) do aquecimento global seja, por exemplo, a actividade solar, isso não significa que muitas actividades humanas não sejam danosas para o meio ambiente.

Os cartoons referem dois motivos de preocupação muito sérios: a desflorestação e a escassez de água e desertificação. Mas há outros!

Assim, mesmo que não nos preocupemos com os danos provocados nos outros seres vivos por esses malefícios ambientais (o que é um erro não só ecológico mas também ético), devemos pelo menos preocuparmo-nos com os danos que já provocam nalguns seres humanos e que amanhã ou depois provocarão em todos nós.

Terça-feira, 28 de Julho de 2009

O que é que eles te fizeram?

Gun, por Emiliana Torrini

 

every day i see you looking in
i'll be the smoothest thing to touch your skin
you're longing to be loved but you're alone
n' your longing makes you shiver to the bone

i know your mama told you nothing of importance
no your daddy taught you nothing you could learn
you've had your sisters weighing on your pockets
n' your priest he tries so hard to get you turned

maybe you've been living lonely
while your woman has a fellow on the side
your kids keep telling jokes that ain't that funny
and you failed in everything that comes to mind

you see i'm only here to let you know
that i love you and i'll never let you go
so take me in the hand don't walk on by
for the life this has to offer twists inside

now your woman has her fellow in your bed
you have to go you have to move right in
n' the ring on your finger would leave another scar
but the joke's on her she hasn't seen it all

so you shot him up close n' you shot him in the face
n' your woman looked on and your children they embraced
n' the candle's still burning and the fire's roaring fire
you moved right in, yeah you moved right in

stop your shaking, sweating, whining and regretting
you're making a scene that is gonna get you caught
hey look me in the barrel and tell me that you love me
yes this is a kiss that i swear will blow your mind

Canção descoberta no blogue Imagens do Meu Mundo.

Segunda-feira, 27 de Julho de 2009

A culpa não é nossa! A culpa não é nossa!

«Seis anos depois dos dramáticos incêndios de 2003, a floresta portuguesa continua à mercê do seu principal calcanhar de Aquiles: o minifúndio. Um inquérito realizado pelo PÚBLICO revela que os proprietários que desde então se agruparam para gerir em conjunto os seus quinhões de floresta estão fortemente desmotivados com os resultados. Muito pouco, ou mesmo nada em muitos casos, está a ser feito nesses agrupamentos - as zonas de intervenção florestal (ZIF), uma figura criada legalmente em 2005 como uma peça central para mudar a floresta portuguesa. Na grande maioria das ZIF, não houve redução efectiva do risco de fogos florestais, segundo o inquérito, a que responderam 79 por cento das zonas criadas até final de Junho (91 por cento em área).»

Se ler o resto da notícia no jornal Público descobrirá que, na opinião dos proprietários, na lista das causas estão a burocracia e a falta de apoios (leia-se subsídios) estatais mas não a sua desorganização nem a sua falta de iniciativa e de interacção.

O que é que essa desresponsabilização nos diz acerca da sociedade portuguesa?

Sábado, 25 de Julho de 2009

Interacções sociais e flores silvestres: metódicos desarranjos…

Dodecaedro jarra flores silvestres «A mãe queria que ela pusesse flores no quarto de hóspedes, e Cecilia fá-lo-ia com todo o prazer. Não valia a pena tentar arranjar flores silvestres. Tinham-se disposto com a sua simetria própria, e de certeza que uma distribuição demasiado regular das íris e das salgueirinhas estragaria o efeito. Passou alguns minutos a dar pequenos retoques para conseguir um ar naturalmente caótico. Expiacao Cecilia com a jarra de flores (…) Cecilia acabou o arranjo e ficou parada a ver. Paul Marshall, o amigo do irmão [que tinha sido convidado para passar uns dias lá em casa], poderia acreditar que as flores tinham sido atiradas para a jarra com o mesmo espírito descuidado com que tinham sido apanhadas. Sabia que não fazia sentido arranjar flores antes de pôr água na jarra, mas já estava. Não resistiu a tocar-lhes mais uma vez. As pessoas não podiam fazer tudo de forma lógica e correcta, sobretudo quando estavam sozinhas. (…)

- O [meu irmão] Leon vem hoje, sabias? - Ouvi dizer. É sensacional. - Traz um amigo, o tal Paul Marshall. - O milionário do chocolate. Não! E vais dar-lhe flores! Ela sorriu. Estaria Robbie a fingir que tinha ciúmes para esconder os ciúmes que realmente tinha? Não conseguia percebê-lo. Tinham perdido o contacto em Cambridge [na Universidade, depois de terem sido amigos de infância]. Fora demasiado difícil conduzir as coisas de outra maneira. Mudou de assunto. - O velho disse que queres ser médico. - Estou a pensar nisso. - Deves adorar a vida de estudante [Robbie já tinha um curso universitário]. (…)

Robbie estava em silêncio, mas a expressão dele – com um sorriso forçado que nem sequer lhe separava os lábios – dava a entender que estava arrependido do que tinha dito. Não era isso que a reconfortava. Ultimamente acontecia sempre aquilo quando falavam um com o outro; um ou outro diziam sempre qualquer coisa que não queriam dizer e que tentavam remediar depois. Não havia à-vontade nem estabilidade nas suas conversas; não estavam descontraídos. Havia, pelo contrário, ferroadas, armadilhas, reviravoltas estranhas, que a levavam a sentir tanta antipatia por si própria como por ele, embora não duvidasse de que o principal culpado era ele. Ela não tinha mudado, mas não havia dúvida de que ele tinha.»

Ian McEwan, Expiação, Gradiva, Lisboa, 2007, pp. 34, 37 e 39.

O leitor não perderá o seu tempo se, ao ler estas passagens do romance de McEwan, tiver em conta o conceito sociológico de interacção social.

Fala-se de interacção social para descrever as relações entre duas ou mais pessoas, relações essas marcadas pela mútua influência. Numa situação de interacção social aquilo que uma pessoa X diz ou faz afecta o comportamento da pessoa Y. A simples presença dessa pessoa, mesmo que não diga nem faça nada, afecta o comportamento alheio. Por sua vez, o comportamento da pessoa X também é afectado pela presença da pessoa Y e por aquilo que ela diz ou faz. (Para aprofundar o conceito veja o que escrevi aqui, aqui e aqui.)

Relativamente à obra de Ian McEwan e a possíveis relações da mesma com a Sociologia, veja o que escrevi aqui.

capa de expiação de ian McEwan Ian McEwan capa expiação actores filme

Quarta-feira, 22 de Julho de 2009

O caminho mais longo

weight o peso do mundo the-mountain

procrastination procastinação paperwork-cartoon

Cartoons de Dave Walker, retirados do excelente blogue We Blog Cartoons. Eis os títulos (com hiperligação):

Weight of the world

The mountain

Procrastination

Paperwork

Escusado será dizer que as ideias sugeridas pelos cartoons remetem mais para a Psicologia e, eventualmente, para a Filosofia (talvez a propósito do problema do sentido da vida)do que para a Sociologia. Mas nem só de Sociologia vive o homem – nem a mulher, aliás -, mesmo que dela se ocupe.

Terça-feira, 21 de Julho de 2009

Para além da Lua: as estrelas!

Neil Armstrong pisou a Lua há 40 anos. Foi o primeiro ser humano a pisar terra que não é da Terra.

O poema de Emily Brontë não é especialmente sociológico (a não ser, talvez, na parte da infelicidade) mas é belo. Tão belo como as estrelas e a Lua. O problema quanto à Sociologia, é que esta nunca deve descolar do chão – da Terra!

Stars, de Emily Brontë

O Stars and Dreams and Gentle Night; O Night and Stars return! And hide me from the hostile light That does not warm, but burn That drains the blood of suffering men;

Drinks tears, instead of dew; Let me sleep through his blinding reign, And only wake with you!

Em português:

Ó Estrelas e Sonhos e Gentil Noite; Ó Noite e Estrelas, voltai! E escondam-me dessa luz hostil Que não aquece, mas queima Que seca o sangue dos homens infelizes

E bebe lágrimas em vez de orvalho; Deixem-me dormir enquanto o seu reino cega, E só acordar convosco!

Van gogh noite estrelada

Poema e tradução encontrados no blogue O Livro de Areia.

Imagem: Vincent van Gogh

Segunda-feira, 20 de Julho de 2009

Raça de cidadãos!

praia antigamente Não é razoável esperar grandes descobertas numa manhã de domingo na praia. Mesmo assim, não é improvável que se consiga confirmar uma ou outra ideia feita.

Hoje, enquanto fazia um castelo de areia com a prole, chegou-me aos ouvidos uma conversa curiosa e instrutiva. Um cavalheiro a quem a própria esposa chamava Antunes e essa mesma respeitabilíssima senhora, apelidada de Maria pelo marido e de Doroteia por algumas ruidosas amigas, trocaram palavras que, por momentos (antes do desejo de rigor e da desconfiança relativamente ás generalizações me assaltarem), julguei retratarem bem o povo português.

- Apesar da água estar fria, está-se mesmo bem aqui!
- Sim, e a viagem de barco até aqui foi gira, podia ter sido mais compri …
- Sabes do que tenho pena?
- Do Chico não ter vindo?
- Que se lixe o Chico, que só pensa em trabalhar! Tenho pena de hoje não haver umas eleições ‘qualqueres’ – pra a gente não ir votar…
- Ah! Também gosto de não pôr lá os pés… A gente a divertir-se e os outros a gramarem aquela estopada!
- Pensar nisso até nos faz gostar mais do passeio, não é? Gramava que hoje houvesse eleições…
- Ui! A água está um gelo!

The beach por rui lebreiro Num primeiro momento, esta edificante conversa fez-me lembrar – devido a não sei que misteriosa associação de ideias, pois não ligo patavina ao futebol - os adeptos fanáticos do Benfica, Porto e Sporting (faço notar que escrevi os nomes por ordem alfabética). Guiados por um peculiar entendimento do patriotismo, alguns deles, quando um dos clubes rivais do seu joga com equipas estrangeiras, desejam a sua derrota.

Lembrei-me também da Dona Cecília que, tendo partido um braço, fez um sorriso de orelha a orelha e disse “é bem-feita!” quando lhe contaram que a vizinha da frente estava constipada.

Depois, após um pequeno pontapé de um fedelho de 3 anos (farto de castelos de areia e desejoso de atirar conchas e pedrinhas contra as ondas) destruir as torres e as ameias laboriosamente construídas, lembrei-me do poema “Na praia” de Ruy Belo. Disse para mim mesmo os seus poucos versos, em que o poeta captou bem a pinta dos Antunes e das Marias Doroteias deste país onde na escola se ensina cidadania em vez da tabuada e da grmática, e acedi: “Anda, vamos atirar pedrinhas”.

Raça de marinheiros que outra coisa vos chamar
senhoras que com tanta dignidade
à hora que o calor mais apertar coroadas de graça e majestade
entrais pela água dentro e fazeis chichi no mar?

(Ruy Belo. "Outono", in Todos os Poemas. Assírio & Alvim.)

Sábado, 18 de Julho de 2009

O que se pode fazer da vida

Quanto Puderes


Se não podes fazer da vida o que tu queres,
tenta ao menos isto,
quanto puderes:
não a disperses em mundanas cortesias,
em vã conversa, fúteis correrias.

Não a tornes banal à força de exibida,
e de mostrada muito em toda a parte
e a muita gente,
no vácuo dia-a-dia que é o deles
– até que seja em ti uma visita incómoda.

Constantino Cavafy, Noventa e mais quatro poemas, tradução de Jorge de Sena, Edições Asa, pág. 91.

konstandinos kavafis

Nota: Actualmente a transliteração para português do nome deste poeta costuma ser Konstandinos Kavafis.

Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

O Tempo Seca o Amor

A propósito do post  “A prova do dia-a-dia: …still working for your smile!”, e tendo em conta que a Sociologia tem muitas fontes, eis um belo poema de Cecília Meireles.

O Tempo Seca o Amor

O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.


Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'

TPC

MOA_trabalhar em casa

Retirado do Moa Blog.

Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

A prova do dia-a-dia: …still working for your smile!

Duas pessoas conhecem-se, apaixonam-se e tudo parece ser maravilhoso. Casam-se, ou pelo menos começam a viver juntas, e tudo continua a parecer maravilhoso… durante algum tempo!

Pouco a pouco vão descobrindo coisas um pouco menos maravilhosas: divergências – graves, claro! – acerca do sítio certo para guardar a pasta de dentes e a bicicleta, injustiças insuportáveis como ela se queixar das meias esquecidas num canto e não reconhecer que se esqueceu de alimentar o peixe, prepotências inaceitáveis como ele querer ver futebol (“mas, querida, é a final…”) na hora da telenovela (“exactamente: o Manuel Francisco Baloiço finalmente arranjou coragem e hoje vai dizer à Vera que já não gosta dela!”)…

E o amor, como é sabido, nem sempre resiste a essa prova do dia-a-dia. Muitas vezes, como é confirmado pela taxa de divórcio de 2007, o casamento também não.

Todavia, nem todos as pessoas que “reprovam” nessa prova desistem. Algumas vão à 2ª fase e efectuam a prova outra vez.

Se a cara leitora ou o caro leitor porventura estiver numa dessas “fases”, aqui tem votos de boa sorte: oxalá não “reprove”!

Seja como for, qualquer que seja actualmente sua situação conjugal e afectiva, terá muito a ganhar se ouvir esta canção de Leonard Cohen e meditar acerca do seu significado.

Eis o poema:

I tried to leave you, I don't deny
I closed the book on us, at least a hundred times.
I'd wake up every morning by your side.
The years go by, you lose your pride.
The baby's crying, so you do not go outside,
and all your work it's right before your eyes.

Goodnight, my darling, I hope you're satisfied,
the bed is kind of narrow, but my arms are open wide.
And here's a man still working for your smile.

LEONARD COHEN, “I Tried To Leave You”

Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Mocidade Portuguesa Feminina: “o que nós queremos que as nossas raparigas sejam”

Mocidade Portuguesa Feminina - Irene Pimentel

rapariga mocidade portuguesa feminina casar para ser uma verdadeira mulher

Veja aqui um interessante vídeo acerca da Mocidade Portuguesa Feminina, feito com base nas investigações de Irene Flunser Pimentel, autora do livro Mocidade Portuguesa Feminina.

A excelente sinopse do livro feita pela editora Esfera dos Livros mostra bem qual era a função da Mocidade Portuguesa Feminina na sociedade portuguesa durante o salazarismo.

«Em 1937, a Mocidade Portuguesa Feminina (MPF) nascia com o objectivo de criar a nova mulher portuguesa: boa esposa, boa mãe, boa doméstica, boa cristã, boa cidadã sempre pronta a contribuir para o Bem comum, mas sempre longe da intervenção política deixada aos homens. A historiadora Irene Flunser Pimentel traça-nos a história deste movimento, obrigatório para mulheres dos sete aos catorze anos, através do Boletim do MPF e mais tarde da revista Menina e Moça, veículos de transmissão dos valores e comportamentos ditados pelo regime salazarista. Ao folhearmos estas páginas, deparamo-nos com raparigas fardadas de bandeira em punho, lições de lavores e trabalhos manuais ou outros afazeres da vida doméstica, indicações sobre o fato de banho oficial com decote pouco generoso e saia não muito curta, lemos textos sobre a atitude a ter em casa com o marido, conselhos sobre livros fundamentais e outros proibidos aos olhos destas jovens e aprendemos as virtudes dos grandes heróis nacionais como D. Filipa de Lencastre ou o Santo Condestável.»

Agradeço ao meu colega Joaquim Rodrigues (professor de História) a informação acerca do vídeo e o envio do link.

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Sintoma de anomia?

“A palavra tem origem grega e vem de a + nomos, donde a significa ausência, falta, privação, inexistência; e nomos quer dizer lei, norma. Etimologicamente, portanto, anomia significa falta de lei ou ausência de norma de conduta. Foi com esse entendimento que Durkheim usou a palavra pela primeira vez (…).

Pode-se afirmar que a anomia indica desvio de comportamento, que pode ocorrer por ausência de lei, conflito de normas, ou ainda desorganização pessoal.” (Texto de João Neto. Leia mais aqui.)

Eis uma situação que é um exemplo de anomia ou que para lá caminha:

“Um grupo de agentes da PSP foi esta manhã alvo de pedras e garrafas arremessadas por perto de 50 moradores da Quinta da Fonte, em Loures, quando perseguia um indivíduo que tinha acabado de fazer um assalto e que se refugiou no bairro.Os arremessos, que danificaram a viatura policial mas não provocaram ferimentos, ocorreram durante a perseguição pela polícia de um homem que roubou 1500 euros a um padeiro e fugiu para a Quinta da Fonte.”

Segundo o jornal Público, a polícia acabou por prender o homem. Valha-nos isso!

In The Mood For Love: sem liberdade para escolher o amor

Vídeo com imagens e música do filme In the mood for love (Disponível para Amar). Realização e argumento de Wong Kar Wai. Música de Michael Galasso e Shigeru Umebayashi entre outros.

In the mood for love conta-nos a história de um homem (Chow Mo-wan) e de uma mulher (Su Li-zhen) que, apesar de se amarem, se afastam um do outro. Eram ambos casados com pessoas ausentes e que não amavam, não tinham filhos, e mesmo assim…

É um filme muito belo. Quase tudo nele é quase perfeito: os actores, o argumento, a fotografia, o modo como a cidade e as pessoas são filmadas, os sons estranhos e “bárbaros” da língua chinesa, a música… A música é maravilhosa!

Era capaz de apostar que a maioria das pessoas – mesmo que pouco dadas ao romantismo – perguntam no final, com frustração e até tristeza: “Mas porquê? Se se amavam porque é não ficaram juntos?”

Quando uma história desse género acontece na vida real, a explicação reside na complexa mistura entre a personalidade das pessoas (ou seja, a sua maneira de ser: o orgulho, a timidez, a insegurança, o receio do que os outros pensarão, etc.), diversas influências sociais e culturais e o próprio peso das circunstâncias imediatas (ter ou não casa, a condição económica, etc.).

Uma das razões pelas quais essa mistura é complexa é o facto do peso dessas circunstâncias imediatas ser determinado em grande medida pelas influências sociais e culturais, isto é, pelos valores, regras e costumes aprendidos desde o nascimento (no chamado processo de socialização).

Outra razão para essa complexidade é o facto da personalidade de uma pessoa resultar, por sua vez, de uma mistura entre o efeito dos genes, as experiências pessoais (principalmente as da infância, mas não só) e – lá estão elas outra vez! - diversas influências sociais e culturais.

Cena após cena, diante dos olhos pesarosos do espectador, o peso das sufocantes convenções sociais e o peso ainda maior das suas personalidade vai-se abatendo sobre os ombros de Chow Mo-wan e de Su Li-zhen. E essas barreiras interiores, embora involuntárias e incontroláveis através de uma decisão, impedem-nos de se aproximarem um do outro ou de falarem um com o outro quando casualmente se encontram. Por fim, a distância e o silêncio são tão grandes que já não era possível escolherem ficar juntos.

Há muitos séculos que os filósofos discutem se os seres humanos possuem ou não livre-arbítrio – isto é, liberdade de escolha. Apesar de aparentemente termos experiência dessa liberdade de escolha, o estudo (sociológico, psicológico, genético, etc.) de histórias como a de Chow Mo-wan e Su Li-zhen, sugere que essa experiência pode ser ilusória e que, afinal, o livre-arbítrio não exista. Em vez de liberdade de escolha, talvez exista apenas determinismo.

Como disse o filósofo James Rachels (no livro Problemas da Filosofia, Gradiva, Lisboa, 2009, pág. 180), “cada nova descoberta [na genética, na psicologia, na sociologia…] diminui um pouco a nossa confiança [na existência de livre-arbítrio]. Quanto mais sabemos sobre as fontes da conduta humana, menos espaço parece haver para a ideia de escolha livre.” Essas descobertas mostram sempre causas que não dependem da vontade dos seres humanos e que não podem ser objecto de escolha.

Não podemos ter a certeza, mas é possível que a triste separação de Chow Mo-wan e Su Li-zhen (bem como qualquer outra acção humana) fosse inevitável e que eles estivessem determinados a encontrarem-se, apaixonarem-se e separarem-se. Não por força do destino, mas sim devido à influência conjunta de “forças” genéticas, psicológicas e sociológicas.

Seja como for, o papel da sociologia e das outras ciências, sejam sociais ou naturais, não é travar essa discussão (que é filosófica), mas estudar pacientemente os fenómenos da natureza, da mente e da sociedade. Independentemente dos dados recolhidos apoiarem a hipótese do determinismo ou a hipótese do livre-arbítrio.

Agentes de socialização: alguns exemplos em vídeo

Família.

Família e escola.

Vídeo sobre a aprendizagem das línguas.

 

O grupo de amigos e de pares.

Imagens do filme “Christiane F. – Wir Kinder vom Bahnhof Zoo” (exibido em Portugal com o nome “Christiane F. – Os filhos da droga”).

Os meios de comunicação social.

Forças Armadas.

A lógica do cereal é ainda pior que a lógica da batata!

Vegetarianismo pergunta estúpida

Domingo, 12 de Julho de 2009

O significado dos presentes

Há dias ouvi uma senhora protestar devido ao facto do filho lhe pedir uma quantia elevada de dinheiro para oferecer um presente à namorada, que fazia anos.

foto-presentes-especiais Recordo-me das suas palavras, que foram proferidas em voz muito alta numa esplanada: “Os presentes de aniversário são o costume mais estúpido que existe na nossa sociedade! Que sentido tem uma coisa destas?”

Não conheço nenhum estudo ou reflexão sociológica que permita responder à senhora. A propósito do assunto só consigo recordar um texto do filósofo A. C. Grayling, em que este procura analisar o significado do acto de oferecer presentes.

O que Grayling escreveu, embora não seja Sociologia, revela uma grande capacidade de observação das práticas sociais. Dois dos aspectos que analisa são: o facto de a oferta de um presente por vezes ser uma maneira de condicionar a pessoa que o recebe e o facto de esta poder ser muito mal-agradecida… Segundo Grayling, oferecer presentes só tem um significado positivo quando se consegue evitar ambos os problemas!

Pode encontrar o texto aqui.

Parecidos em tantas coisas…

Há coisas em que era bom que a diferença entre a maioria e as minorias fosse maior. Contrariamente ao que se poderia pensar, nos casais homossexuais também existe violência doméstica. Na verdade, segundo um estudo da Universidade do Minho, a violência entre casais homossexuais é provavelmente maior do que nos heterossexuais.

observar briga violência entre gays «Apesar de invisível, a violência nas relações homossexuais é “tendencialmente mais elevada”. Esta é a ideia-chave de um estudo que acaba de ser feito na Universidade do Minho (UM): 39,1 por cento dos participantes admitiram ter adoptado algum comportamento violento e 37,7 revelaram ter sido vítimas de, pelo menos, um acto abusivo no ano anterior.»

Clique aqui para ler mais.

Números do “azar”: 4 e 13

Na China o número do azar é o 4. Por isso, muitas pessoas não querem viver no 4º andar nem aceitam ficar no quarto nº 4 do Hotel. Nascer num dia 4 não é considerado bom augúrio. Veja este pequeno vídeo e descubra a causa dessa superstição.

Em Portugal, e em muitos outros países do mundo, o número do azar é o 13. As pessoas supersticiosas ficam em pânico quando descobrem que estão 13 convivas à mesa e torcem o nariz quando lhes sugerem o quarto número 13.

Não existe consenso sobre a causa dessa superstição, sendo referidas várias hipóteses: a eventual morte de Jesus Cristo num dia 13; a perseguição e prisão (e posterior execução) de muitos membros da Ordem dos Templários no 13 de Outubro 1307 (ainda por cima uma sexta-feira!); o facto de na Antiguidade o número 12 ser considerado sagrado, pelo que o 13 terá ficado mal visto…

Mas, seja qual for a explicação, trata-se de uma superstição tão grande como o receio dos chineses em relação ao número 4! Por isso, a cara leitora ou o caro leitor não precisará de se levantar se descobrir que partilha a mesa com mais doze pessoas nem sugerir uma troca de lugar com a sogra ao reparar que o seu lugar no teatro ou no cinema é o 13. Do mesmo modo, se por acaso nasceu num dia 13 não se considere por isso uma pessoa pouco afortunada e com menos possibilidades de ser feliz do que se tivesse nascido a 12 ou a 14!

Lembre-se: uma superstição é uma crença falsa e sem fundamento.

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Crime?

parede riscada grafitti

O crescimento dos graffiti nas paredes portuguesas tem sido exponencial. Trata-se de um comportamento errado que deve ser considerado crime ou, pelo contrário, de uma legítima manifestação da liberdade de expressão?

Outra questão pertinente (embora a resposta não diga respeito à Sociologia, mas sim à Filosofia) é: os graffiti são arte?

Para responder a essas questões, é ainda preciso fazer uma outra: o que é um graffiti? Qualquer risco na parede é um graffiti? Um rapaz que escreva nas paredes da escola “Amo-te, Yolanda!” faz um graffiti?

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

A necessidade de sucesso é aprendida?

«Os psicólogos distinguem entre motivações primárias, secundárias e combinadas.

As motivações primárias são necessidades biológicas inatas. A sua satisfação visa assegurar o equilíbrio, a conservação e a sobrevivência do organismo. Por exemplo: a fome, a sede e o sono.

filme momentos de glória chariots of fireAs motivações secundárias são necessidades cuja origem se deve à aprendizagem social e cultural – a socialização. São necessidades sociais. Por exemplo: a necessidade de sucesso.

As motivações combinadas são necessidades que combinam factores biológicos e sociais e em que o inato e o aprendido se misturam. Nessas necessidades o factor biológico exprime-se condicionado pela aprendizagem sociocultural. Por exemplo: o impulso sexual e o impulso maternal.»

Adaptado de: Luís Rodrigues, Psicologia B – 12º, Unidade 1, Plátano Editora, Lisboa, 2009, pág. 168.

Aquilo que é aprendido socialmente varia habitualmente de sociedade para sociedade. Claro que existem sociedades em que ganhar competições de atletismo não é considerado uma necessidade, tal como existem sociedades em que ter

sucesso na acumulação de dinheiro não constitui motivação para ninguém. Mas existirá alguma sociedade em que nenhuma forma de sucesso seja valorizada? Existirá alguma sociedade em que a possibilidade de se destacar dos outros numa área qualquer não motive as pessoas para realizarem os comportamentos que permitem esse destaque? Os povos de caçadores-recolectores (como os pigmeus africanos) não se preocupam em acumular riquezas nem fazem competições de atletismo, mas não deixam de ser motivados pelo sucesso nas coisas que valorizam: a caça, por exemplo. Essa necessidade parece portanto algo de universal, pois parece encontrar-se em todo o lado - embora a importância que em cada sociedade lhe é dada seja variável. De resto, no seio de uma mesma sociedade essa importância também sofre uma considerável variação individual.

Assim, talvez não seja o próprio desejo de sucesso que é socialmente aprendido, mas as coisas em que se quer ter sucesso, bem como o lugar desse desejo na hierarquia dos desejos. Não será certamente fácil encontrar os genes do sucesso. Apesar disso, e contrariamente ao que se lê nos livros de Psicologia, a necessidade de sucesso talvez deva ser incluída na categoria das motivações combinadas.

O vídeo é um excerto do filme Chariots Of Fire (Momentos de glória), de Hugh Hudson, que mostra bem como a necessidade de sucesso é uma motivação poderosa e capaz de levar os indivíduos a superarem-se a si mesmos, na tentativa de superar os outros.

Domingo, 5 de Julho de 2009

De quem é a culpa?

de quem é a culpa separacao homem triste

crianças lutando a culpa não é minha

de-quem-e-a-culpa do capitalismo

A origem dos nomes

nomes-de-bebes novos tempos «A fase das Kátias Vanessas parece definitivamente enterrada. Maria foi o nome mais dado às meninas nascidas no ano passado, segundo o Instituto dos Registos e do Notariado (IRN). Do lado dos rapazes, João encabeça a lista dos nomes próprios mais escolhidos. Seguem-se nomes igualmente tradicionalistas como Rodrigo, Martim, Diogo, Tomás e Afonso. De volta às raparigas, a seguir ao Maria - que nos últimos anos se laicizou, deixando cair complementos como da Piedade, de Fátima ou da Luz - surgem Beatriz, Ana, Leonor, Mariana e Matilde. (…)

Para Ivo Castro [especialista em onomástica], os portugueses até são tradicionalistas nos nomes que adoptam. "Não são muito de modas, o que não quer dizer que não haja modas pontuais de culto da personalidade que levam muitos pais a escolher o nome de uma personagem de telenovela ou de um jogador de futebol". Nada de novo. Após a instauração da República, em 1910, alguns pais baptizaram os filhos com nomes como Aurora de Cinco de Outubro e Outubrina. Geralmente, "a geração seguinte tem o cuidado de não repetir a brincadeira", segundo Ivo Castro, para quem as propostas de nomes incomuns são "uma dezena num milhar". »

Notícia do jornal Público, de 05-06-2009. Clique para ler mais.

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Maioria dos portugueses não confia na justiça… nem na democracia!

Não se pode dizer que seja surpresa:

«Uma média de “mais de dois em cada três eleitores consideram que diferentes classes de cidadãos recebem tratamento desigual em face da lei e da justiça” e “a maioria sente-se desincentivada de recorrer aos tribunais para defender os seus direitos”.

Este descrédito na democracia enquanto Estado de Direito é a conclusão mais dura e mais crítica para o funcionamento da democracia portuguesa apresentada no estudo A Qualidade da Democracia em Portugal: A Perspectiva dos Cidadãos, dirigido por Pedro Magalhães, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e promovido pela SEDES, com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e da Intercampus.

Assim, 82 por cento dos inquiridos dizem estar em desacordo com a afirmação de que “a justiça trata ricos e pobres de forma igual”, 79 por cento estão em desacordo com a ideia de que “a justiça trata de forma igual um político e um cidadão comum” e 49 por cento discorda da frase “os processos judiciais não são tão complicados que não valha a pena uma pessoa meter-se neles”

Clique aqui para ler mais.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Afinal, de que se queixam os pobres?

Palácio do amor house love

Sim! Afinal, de que se queixam os pobres? Se amarem Deus, têm à sua disposição o Reino dos Céus. Se amarem a pessoa com quem vivem, habitam um Palácio. É difícil querer mais! Por isso, os pobres não precisam de mais dinheiro: precisam é de amor!

Como explicar, então, o facto de algumas pessoas pobres e apaixonadas não estarem felizes e satisfeitas? Fácil: são pessoas que não sabem dar valor ao que têm!

O leitor pode, eventualmente, achar útil relacionar este post com dois outros posts recentemente publicados no Caderno de Sociologia. Referem-se a um estudo sociológico em que se procurou perceber a relação entre a pobreza e a felicidade na sociedade portuguesa. Clique aqui e aqui.