Em Portugal, nos meses de Verão e na época de Natal, costuma aumentar o número de animais domésticos abandonados na rua pelos donos e o número de pessoas idosas abandonadas no Hospital pelos familiares (após uma ida às Urgências). Em ambos os casos o motivo é o mesmo: as férias. O cão, o gato, o canário, a avó ou o avô iriam atrapalhar as férias.
Há cerca de duas semanas escrevi, no blogue Dúvida Metódica, um post chamado “Usados e depois deitados fora” sobre esse assunto. Resolvi pegar-lhe novamente pois há poucos minutos assisti a uma situação impressionante.
Um cão vadio viu uma senhora na rua (que, deduzo, era a antiga dona) e aproximou-se a abanar a cauda. A senhora procurou afastar-se e, como o cão continuou a segui-la de cauda a abanar, atirou-lhe uma pedra da calçada, que lhe acertou de raspão numa pata. Mesmo assim, o cão persistiu em ir atrás dela de cauda a abanar, mas agora ganindo de dor. De repente, a senhora parou e deixou o cão aproximar-se. Tirou um objecto da mala (não sei dizer que objecto era, mas não parecia uma faca) e jogou a mão na direcção do cão como se lhe fosse fazer uma festa. Mas, em vez de uma festa, fez - com o tal objecto - dois golpes rápidos. O cão ficou com uma ferida extensa no dorso, em forma de Y. A ganir e a pingar sangue, o cão fugiu para a estrada. Infelizmente ia a passar um camião que o atropelou. Foi completamente esmagado pelas enormes rodas. O camião nem sequer parou e a senhora continuou o seu caminho como se nada se tivesse passado.
Fiquei especado no meio da rua, perplexo com o que vira e vieram-me à memória alguns versos de “Balada da Rita”, uma bela canção de Sérgio Godinho:
“Passaram-me de ombro em ombro, põe-te em guarda Encheram-me de flores o quarto, põe-te em guarda Mas é sempre a mesma história Depois do primeiro assombro Logo o corpo fica farto”
As pessoas que abandonam os seus familiares idosos no Hospital não assumem que o fazem e se questionadas tentam arranjar justificações que anulem ou diminuam a sua responsabilidade (esqueceram-se, adoeceram, surgiu um imprevisto, etc.). Não dizem, portanto, que estão fartas do avô ou da avó e que a sua presença lá em casa as atrapalha e sufoca. A responsável do Serviço Social de um Hospital lisboeta disse a esse respeito: "As famílias nunca assumem que não os vão buscar. Quando entramos em contacto dizem que não podem ir nesse dia e depois não atendem os telefones".
Salvo erro, os psicólogos chamam “racionalização” a essa forma de sacudir a água do capote.
Suponho que, se alguém perguntasse àquela senhora porque é que tinha abandonado o cão e porque é que o tinha ferido, ela utilizaria a mesma estratégia: racionalizaria, reinterpretaria os factos para que estes parecessem jogar a seu favor e assim poder desfazer-se da responsabilidade. Começaria possivelmente por recusar os termos usados: “a ferida foi feita sem querer” e “não foi bem abandono… aliás, eu até gostava dele”. Apresentaria uma lista de razões para justificar o abandono que não foi bem abandono e não assumiria que para ela o cão era um mero objecto que tinha deixado de ser útil e que tinha perdido a piada inicial – e que, parafraseando Sérgio Godinho, depois do assombro dos primeiros meses ela tinha ficado farta do bicho. Se lhe chamássemos a atenção para o facto dos interesses do cão (um ser vivo, um animal capaz de sentir dor e prazer, dotado de memória e alguma capacidade de aprendizagem) estarem a ser esquecidos ela provavelmente mudaria de assunto.
Salvo erro, os psicólogos chamam “egocentrismo” a essa incapacidade de nos colocarmos noutros pontos de vista e de recusarmos incluir na deliberação que precede a acção outros interesses além dos nossos.
Quando na vida social lidamos com pessoas egocêntricas sabemos que, como diz a canção de Sérgio Godinho, temos de nos pôr em guarda. Porém, é mais fácil fazer isso relativamente a pessoas com quem não temos laços afectivos do que com pessoas de quem gostamos. Quando o mal nos é feito por pessoas de quem gostamos temos poucas defesas. É que se passa com os animais domésticos abandonados na rua e com os idosos abandonados no Hospital pelos familiares: foram traídos pelas pessoas de quem mais gostavam e em quem mais confiavam. Como poderiam estar em guarda?

















