Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

150 anos nos EUA… E em Portugal, quantos anos seriam?

Segundo o jornal Público, “Bernard Madoff foi hoje condenado a 150 anos de prisão por um tribunal de Manhattan por ter cometido a maior fraude financeira da história.”

Em Portugal, a pena máxima são 25 anos, mesmo que se trate de crimes muito piores que uma fraude financeira. Em Portugal o pior dos assassinos ou dos violadores não pode ficar na prisão mais do que 25 anos, mate ou viole uma vez ou cinquenta vezes.

Não sei o suficiente de direito para conjecturar, mas deixo a pergunta: qual seria a pena de Bernard Madoff em Portugal?

Seja como for, não é preciso saber de direito para perceber que seria uma pena muito, muito mais pequena.

Caro leitor: o que lhe parece mais eficaz, o sistema penal americano ou o português? E mais justo?

Relativamente a este assunto dê também uma vista de olhos aqui.

Metáfora de uma economia assente no crédito e no dinheiro “virtual”?

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Domingo, 28 de Junho de 2009

Basta pouco, poucochinho para alegrar um português!

O estudo “Necessidades em Portugal – Tradição e Tendências Emergentes” referido no post anterior (A alegria da pobreza) leva qualquer pessoa com memória, e alguns conhecimentos acerca da sociedade portuguesa, a lembrar-se do fado “Uma casa portuguesa”, cantado por Amália Rodrigues.

Ei-lo, juntamente com uma pergunta.

‘A alegria da pobreza’, ‘conforto pobrezinho’, ‘basta pouco, poucochinho p'ra alegrar uma existência singela’… Esse conformismo será o nosso fado?

Numa casa portuguesa fica bem
pão e vinho sobre a mesa.
Quando à porta humildemente bate alguém,
senta-se à mesa co'a gente.
Fica bem essa fraqueza, fica bem,
que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
está nesta grande riqueza
de dar, e ficar contente.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
A cortina da janela e o luar,
mais o sol que gosta dela...
Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar
uma existéncia singela...
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tijela.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

A alegria da pobreza

Pobres, desmobilizados mas, apesar disso, felizes. Somos assim, os portugueses? No final do estudo Necessidades em Portugal – Tradição e Tendências Emergentes, os investigadores viram-se perante um país socialmente muito frágil, pouco capaz de se mobilizar individual e socialmente. Mas, apesar disso, com altos níveis de satisfação e felicidade.”

Essa tendência que os portugueses parecem ter para se contentarem com pouco e se sentirem felizes apesar das dificuldades, será uma herança do salazarismo ou será um fenómeno anterior (e que, nesse caso, pode ajudar a explicar a longevidade do regime de Salazar)?

Trata-se de uma notícia do jornal Público do dia 28-06-2009. Clique para saber mais acerca deste estudo do Centro de Estudos Territoriais, do ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa).

Nota: O título do post é um verso do célebre fado “Uma casa portuguesa”, cantado por Amália Rodrigues.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

A secularização: o declínio social da religião

«A religião costumava desempenhar um papel mais importante na vida das pessoas. O que explica o declínio? A explicação é seguramente complicada e ninguém conhece a história toda. Um factor, pelo menos nos ‘países desenvolvidos’, pode ser o prestígio da ciência e o predomínio crescente da visão científica do mundo. Outro factor pode ser a menor importância da vida familiar e das tradições sociais em geral. Porém, seja qual for a causa, parece claro que mesmo nos Estados Unidos as pessoas e as instituições religiosas estão hoje numa posição diferente do que estavam ainda há pouco tempo. Beneficiam de uma forte posição social e política, sem dúvida, mas a religião é hoje uma entre muitas forças que competem pela atenção e já não define a visão da sociedade. Quando os líderes políticos invocam as suas crenças religiosas para justificar políticas públicas, muitas pessoas ficam irritadas(*).»

James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009, pp.28-29.

Biblia O fenómeno descrito por James Rachels costuma ser chamado “secularização”. De acordo com a Infopédia, “a secularização é um processo através do qual a religião perde a sua influência sobre as variadas esferas da vida social.”

O termo deriva de “secular”: numa perspectiva religiosa, aquilo que é secular ou temporal (nomeadamente, o poder do Estado)  distingue-se do que é religioso ou intemporal (nomeadamente, a fé em Deus e os objectivos da Igreja).

Por vezes, também se usa a palavra “laicização” para designar esse fenómeno.  (Laico significa não religioso. Nesse sentido, um Estado laico é um estado sem religião oficial e cujas instituições são totalmente distintas das instituições religiosas.)

A palavra “laicização” tem um significado semelhante a “secularização”, embora alguns autores utilizem a primeira para referir sobretudo a questão (jurídica, institucional e política) da separação entre o Estado e as Igrejas e a segunda para referir a diminuição  da influência da religião na vida quotidiana das pessoas.   

(*) Nos EUA o número dessas pessoas é inferior ao que sucede noutros ‘países desenvolvidos’.  Daí que James Rachels tenha antes utilizado a expressão “mesmo nos Estados Unidos”.  Embora se trata de um país institucionalmente laico, existe uma religiosidade considerável e que se manifesta em diversos aspectos da vida social e política. A esse respeito, veja neste blogue o post “A importância da religião nos EUA” e no blogue Dúvida Metódica o post “Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia”.

Concurso “FAZ PORTUGAL MELHOR!»

“FAZ PORTUGAL MELHOR!» é um concurso dirigido aos alunos do 3º ciclo e do ensino secundário e decorrerá no ano lectivo 2009-2010.

Pretende-se que os alunos desenvolvam «projectos sobre a realidade que os rodeia, identificando problemas, propondo soluções e promovendo mudanças».

O concurso é organizado pelo jornal Ciência Hoje e pela Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, Ciência Viva e comissariado pela professora Manuela Matos Monteiro.

Mais informações aqui.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

A força do hábito

mulher girafa andando rapagiga disco lábio

lip piercing

“O costume

é para o homem um deus.”

Heraclito

Fragmentos Diels 119, retirado de: Hélade – Antologia da Cultura Grega, 5ª edição, organizada e traduzida do original por Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra, 1990, pág. 125.

(O link no título remete para uma edição mais recente, das Edições Asa.)

Domingo, 21 de Junho de 2009

A importância da religião nos EUA

“A advogada Wendy Kaminer não exagerou muito quando observou que fazer troça da religião [nos EUA] é tão arriscado como queimar uma bandeira numa sede da America Legion. Hoje em dia [2006], o estatuto dos ateus está ao mesmo nível do dos homossexuais há 50 anos. Agora, depois do movimento do orgulho Gay, é possível, embora ainda não muito fácil, um homossexual ser eleito para desempenhar cargos públicos. [Muito mais difícil é um ateu ser eleito.] Numa sondagem levada a cabo em 1999 pela Gallup, perguntava-se aos americanos se votariam numa pessoa bem habilitada e que fosse mulher (95 % de respostas afirmativas), católica (94 %), judia (92 %), negra (92 %), mórmon (79 %), homossexual (79 %) ou ateia (49 %)”.

Richard Dawkins, A Desilusão de Deus, Casa das Letras, 2007, pág.17.

Nos EUA existe actualmente uma religiosidade muito superior a qualquer outro país ocidental e desenvolvido. Num estudo feito em 2002, 59 % de americanos disseram que a religião desempenhava um papel “muito importante” na sua vida. Em países como a Alemanha e a França as percentagens foram muito mais baixas: 21 % e 11 %, respectivamente. (Encontra mais dados sobre esse estudo no blogue Dúvida Metódica, no post “Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia”. )

NYT2009012012141335C Dois conhecidos sinais dessa religiosidade são: o presidente americano e os outros governantes quando tomam posse juram sobre a Bíblia e invocam Deus; as pessoas que testemunham em tribunal juram dizer a verdade também sobre a Bíblia.

Um facto que talvez explique esse elevado nível de religiosidade prende-se com a história dos EUA. Muitos dos primeiros colonizadores foram pessoas que fugiram da Europa devido a perseguições religiosas. Não é surpreendente que, pessoas que preferem sair do seu país natal a abdicar da religião que consideram verdadeira, achem a religião algo muito importante para os indivíduos e para a própria sociedade e depois transmitam esses valores aos seus filhos.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Mas… e a divisão de tarefas?

Notícia do jornal Público, de 19-06-2009. Clique para ler mais.

«As mulheres ainda trabalham mais 16 horas por semana que os homens em tarefas não pagas, relacionadas com a família, apesar da evolução legislativa relativa à parentalidade.

De acordo com o Relatório sobre o Progresso da Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens no Trabalho, no Emprego e na Formação Profissional que hoje será apresentado no Parlamento, continua a existir uma acentuada assimetria na partilha do trabalho não pago entre homens e mulheres.

Segundo o documento, a que agência Lusa teve acesso, os homens dedicam em média 43 horas e meia semanais ao trabalho pago e menos de 9 horas e meia ao trabalho não pago.

As mulheres trabalham de forma remunerada 41 horas e seis minutos e não remunerada 25 horas e 24 minutos.

Contando com o tempo de deslocação para o trabalho e de regresso a casa os homens trabalham um total de 55 horas e 42 minutos enquanto as mulheres trabalham 69 horas.

Assim, as mulheres trabalham em média mais 13 horas por semana porque são as principais responsáveis pelas tarefas domésticas e pelos cuidados com as crianças e idosos.

O facto de as mulheres continuarem a ser as principais cuidadoras da família faz com que continuem a ganhar menos que os homens e a estarem menos representadas nos lugares de decisão das empresas, embora a taxa de actividade feminina tenha aumentado consideravelmente nos últimos anos. »

Domingo, 14 de Junho de 2009

Boa sorte para os exames!

Esta manhã vi um rapaz na praia que, enquanto ia dando uns toques na bola, repetia: “terça-feira começam os exames, mas eu não estou nervoso!” Depois de repetir a frase cinco ou seis vezes, chutou a bola para o mar e deixou-se cair na areia, dizendo desanimado: “ok, estou nervoso!”

aprendendo-a-estudar-cada-materiaLi não sei onde que (segundo a generalidade dos psicólogos, o excesso de ansiedade é prejudicial) pois faz com que a pessoa “bloqueie” e não consiga mostrar aquilo que sabe, mas que alguma ansiedade é benéfica, pois estimula a atenção e a concentração.

Espero que os estudantes portugueses, nomeadamente os que foram meus alunos, que vão fazer os exames nacionais, sintam apenas níveis moderados de ansiedade e que consigam mostrar aquilo que sabem.

Aproveito para lamentar que em Portugal não exista exame nacional em muitas disciplinas, nomeadamente em Sociologia.

Boa sorte para todos e votos de bom trabalho! E boas férias, claro!

Publiquei um post quase igual no blogue Dúvida Metódica.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

O nacionalismo será bom ou mau?

selos nacionalismo Estado Novo Ontem foi “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”, que durante o Estado Novo se chamava “Dia da Raça”. Hoje em dia para a maioria das pessoas, incluindo os políticos, é apenas mais um feriado. Mas nessa época era um dia de grande exaltação nacionalista: “Tudo pela nação, nada contra a nação”, dizia Salazar.

Vale a pena ler a opinião (muito negativa) do filósofo inglês A. C. Grayling acerca do nacionalismo. Aqui.

Eis um excerto, para abrir o apetite:

«A ideia de nacionalismo depende da ideia de ‘nação’. A palavra não tem sentido: todas as ‘nações’ são híbridas, no sentido em que mais não são que uma mistura de imigrações e miscigenação de povos ao longo do tempo. Assim, a ideia de etnia é sobretudo cómica, excepto nos locais onde se pretende que a comunidade permaneceu tão remota e isolada (…) durante a maior parte da história, que conseguiu manter a sua reserva genética ‘pura’ (um cínico diria ‘consanguínea’).»

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Afinal é verdade: o dinheiro não traz a felicidade!

De acordo com diversos estudos sociológicos, o velho provérbio “o dinheiro não traz felicidade” parece ser verdadeiro.

saco de dinheiro Pessoas pobres ficam mais felizes se enriqueceram ou pelo menos se adquirirem o suficiente para viver com dignidade e conforto. Mas pessoas que já são ricas ou que, pelo menos, têm dinheiro suficiente para essa vida digna e confortável, não ficam mais felizes depois de arranjarem ainda mais dinheiro.

Mas, se é assim, porque existem tantas pessoas completamente obcecadas com o dinheiro e que, por muito que já tenham, querem sempre mais?

(Se quiser mais informações acerca desses estudos espreite aqui.)

“Bom dia, Íris”: a discriminação da homossexualidade

A homossexualidade existe em todas as sociedades. Na maioria delas não é aprovada socialmente. Mesmo nos países ocidentais (democráticos e com tradições de respeito pelos direitos humanos) existiu até há poucas décadas legislação que criminalizava os comportamentos homossexuais.

“Nos últimos anos, as atitudes em relação aos homossexuais tornaram-se mais descontraídas em muitos países ocidentais, e imagens afirmativas das relações homossexuais tornaram-se mais comuns nos meios de comunicação e na imprensa.” (Anthony Giddens, Sociologia, 5ª edição, F. C. Gulbenkian, 2007, Lisboa, pág. 132.)

Alguns exemplos dessas atitudes mais descontraídas: questões como o casamento dos homossexuais e a adopção de crianças por casais homossexuais têm sido publicamente discutidas em muitos países (nomeadamente em Portugal); recentemente países como a Espanha e a Grã-Bretanha aprovaram leis que permitem o casamento dos homossexuais; na generalidade dos países ocidentais o número que pessoas que assumem publicamente a sua homossexualidade é muito superior ao que sucedia há poucos anos atrás; etc.

Mas, apesar dessas mudanças, continua a haver bastante discriminação relativamente aos homossexuais. Assumir publicamente que se é homossexual continua a não ser fácil.

Os alunos da turma E do 11º ano da Escola Secundária de Pinheiro e Rosa fizeram um retrato realista e actual dessa discriminação e rejeição (por parte dos colegas de escola, da família e até dos amigos) num vídeo chamado “Bom dia, Íris”.

O vídeo foi apresentado na prova de Criatividade das Pinheiríadas (concurso anual inter-turmas, com provas de Desporto, Leitura, Matemática e Cultura geral).