A compatibilidade referida no
post anterior nem sempre existe nas interacções sociais. Por vezes, as pessoas esperam coisas bastante diferentes umas das outras, havendo então desencontros, confusões e conflitos.
Isso pode suceder quando as pessoas que tentam interagir pertencem a sociedades diferentes e têm culturas diferentes – tal como é ilustrado pelo primeiro e pelo terceiro exemplos dados por Paul Watzlawick no texto a seguir apresentado.
Mas pode também suceder quando as pessoas, apesar de pertencerem à mesma sociedade e de partilharem fundamentalmente a mesma cultura, têm experiências de vida bastante diversas e eventualmente algumas crenças e costumes diferentes - tal como é ilustrado pelo segundo exemplo dado por Paul Watzlawick.
«Uma das leis básicas da comunicação é que todo o comportamento na presença de outra pessoa tem valor, no sentido em que (…) modifica a relação entre essas pessoas. Todo o comportamento transmite algo; por exemplo, silêncio total ou falta de reacção implica claramente “não quero nada a ver contigo”. E visto que isto é assim, é fácil apercebermo-nos do espaço que existe para o conflito e para a confusão.
Em todas as culturas há uma distância específica que dois estranhos mantêm num encontro face a face. Na Europa Ocidental e Central e na América do Norte é a proverbial distância de um braço, como o leitor poderá verificar se pedir a duas pessoas para se aproximarem uma da outra e pararem à distância “certa”. Nos países mediterrânicos e na América Latina a distância é consideravelmente menor. Por isso, num encontro entre um norte-americano e um sul-americano ambos tentam manter o que ambos julgam ser a distância correcta. O latino aproxima-se, o do Norte afasta-se de modo a reencontrar o que considera a distância correcta; o latino, sentindo-se desconfortavelmente distante, reaproxima-se, e assim por diante. Ambos sentem que o outro está a ter, de certa forma, um comportamento impróprio e tentam “corrigir” a situação, criando um problema tipicamente humano no qual o comportamento correctivo de uma das partes inspira uma correcção inversa da outra parte. E visto que existem poucas probabilidades de haver alguém por perto que possa traduzir as respectivas linguagens corporais, ambos se encontram numa situação (…) pouco invejável, porque se vão culpar mutuamente pelo seu desconforto.
No livro de Phillipson e Lee Laing, Interpersonal Perception, podemos encontrar um exemplo dramático desta situação:
Após oito anos de casados, marido e mulher descreveram uma das suas primeiras discussões. Esta ocorreu na segunda noite da lua-de-mel. Estavam ambos sentados no bar do hotel quando a mulher começou a conversar com um casal sentado perto deles. Para seu grande espanto, o marido recusou-se a tomar parte na conversa, manteve-se amuado, tristonho e contrariado, tanto em relação a ela como em relação ao casal. Ao aperceber-se da sua disposição ela zangou-se com ele por ter provocado uma situação social muito desagradável e por a ter feito sentir desamparada. Ambos se descontrolaram e acabaram por ter uma amarga discussão na qual cada um acusou o outro de falta de consideração.
Agora, oito anos depois, descobriram que tinham abordado a situação “lua-de-mel” com duas interpretações muito diferentes, partindo ingenuamente do princípio que “obviamente” a situação tinha o mesmo significado na “língua” do outro.
Para a mulher, a lua-de-mel era a primeira oportunidade que tinha de praticar a sua recém-adquirida posição social: “Nunca tinha tido uma conversa com outro casal como esposa. Era sempre a ‘namorada’, a ‘noiva’, a ‘filha’ ou a ‘irmã’”.
A interpretação do marido acerca de “lua-de-mel” era, no entanto, de um período de convívio exclusivo, uma “oportunidade de ouro para ignorar o resto do mundo e simplesmente nos explorarmos um ao outro”. Para ele, a conversa da mulher com outro casal significava que ele era insuficiente para preencher as suas necessidades.
E, mais uma vez, não havia um intérprete que se pudesse aperceber do “erro de tradução” de ambos. (…)
Durante os últimos anos da Segunda Guerra Mundial e nos primeiros anos do pós-guerra, centenas de milhares de soldados americanos estiveram colocados na Grã-Bretanha, ou passaram por lá, o que facultou uma oportunidade única de estudar os efeitos de uma penetração em larga escala de uma cultura por outra.
Um dos aspectos interessantes foi uma comparação entre os padrões do namoro. Tanto os soldados americanos como as raparigas britânicas se acusaram mutuamente de serem sexualmente atrevidos. Investigações acerca desta curiosa dupla acusação revelaram um problema interessante (…).
Em ambas as culturas o comportamento do namoro desde a primeira troca de olhares até à consumação final consistia em cerca de 30 etapas, mas a sequência dessas etapas era diferente. Por exemplo, o beijo é uma das primeiras etapas no padrão norte-americano (ocupa, digamos, o quinto lugar) mas é uma das últimas do padrão britânico (podemos dizer que era a vigésima quinta etapa) no qual é considerado um comportamento altamente erótico. Por isso, quando um soldado americano achava que era a altura de dar um beijo inocente, a rapariga não só achava que ele tinha saltado 20 etapas daquilo que ela considerava uma relação como deve ser, como sentia que tinha de tomar uma decisão rápida: ou acabava com tudo e fugia, ou preparava-se para ter relações sexuais [pois gostava dele e não o queria perder, achando que era isso que ele queria]. Se escolhia a segunda hipótese o soldado via-se confrontado com um comportamento que, de acordo com as suas regras culturais, só podia ser considerado como desavergonhado num estádio tão inicial da relação.”
Paul Watzlawick, A Realidade é Real?, Relógio D’Água, Lisboa, 1991, pp. 16-17 e 62-63.