domingo, 18 de Outubro de 2009

Obstáculos epistemológicos: a dificuldade de alcançar a objectividade nas ciências sociais

A objectividade é uma característica fundamental do conhecimento científico, seja nas Ciências da Natureza e na Matemática seja nas Ciências Sociais.

Dizer que um conhecimento, para ser científico, deve ser objectivo significa que este deve ser independente da vontade e dos interesses do cientista. Ou seja: deve mostrar as coisas como elas realmente são e não como o cientista eventualmente gostaria que fossem; deve ser completamente impessoal. Essa objectividade deve ser tal que, relativamente ao mesmo tópico, dois cientistas pesquisando em condições semelhantes cheguem ao mesmo resultado. Caso contrário não passará de mera opinião e não será universal, ou seja, válido para todos.

À partida, é evidente que tal objectividade é mais difícil de conseguir nas Ciências Sociais do que nas Ciências da Natureza e na Matemática.

Há várias dificuldades que um cientista social tem de vencer. O programa de Sociologia do 12º Ano, na linha de certos autores, chama-lhes “obstáculos epistemológicos”. Essa expressão designa um entrave à produção de conhecimento científico rigoroso e objectivo. São vários:

• A observação modifica o comportamento de quem sabe que está ser observado.

• Os cientistas sociais são observadores e observados.

• A familiaridade com o social.

• A ilusão de transparência do social.

• As explicações naturalistas.

• As explicações individualistas.

• As explicações etnocêntricas.

A OBSERVAÇÃO MODIFICA O COMPORTAMENTO DE QUEM SABE QUE ESTÁ SER OBSERVADO.

Esta dificuldade prende-se com a própria natureza do objecto de estudo das Ciências Sociais. Os seres humanos são seres racionais, conscientes de si e do mundo. Se perceberem que estão a ser observados os seus comportamentos podem alterar-se. Desse modo, os observadores não captarão o modo como as pessoas habitualmente agem e poderão formar ideias erradas sobre o assunto que estiverem a estudar.

Eis um exemplo célebre, ocorrido numa pesquisa feita no âmbito da Psicologia Social.

“Quando as pessoas sabem que estão a ser submetidas a uma experiência, assumem comportamentos que julgam ser adequados à situação. Procuram reagir de acordo com o que supõem ser o desejo do experimentador. Um exemplo possível diz respeito a uma experiência orientada por Elton Mayo (1880-1949) numa fábrica de equipamentos telefónicos nos EUA. O investigador pretendia determinar a correlação entre a produtividade e a iluminação do local de trabalho. Para surpresa de Mayo, os operários reagiram de acordo com as suas suposições pessoais: devia-se trabalhar mais quando a intensidade da luz fosse maior. Esta situação foi comprovada quando os experimentadores trocaram as lâmpadas por outras da mesma potência, fazendo crer que a intensidade da luz variava. Verificou-se um nível de rendimento proporcional à intensidade da luz sob a qual os operários supunham trabalhar [trabalhavam mais quando julgavam que a intensidade da luz tinha aumentado e trabalhavam menos quando julgavam que tinha diminuído].” - M. Monteiro e M. Santos, Psicologia – 1º Vol., Porto Editora, 1997, pp. 55-56.

OS CIENTISTAS SOCIAIS SÃO OBSERVADORES E OBSERVADOS.

Uma outra dificuldade com que o cientista social se depara na sua busca de conhecimentos rigorosos e objectivos prende-se com o facto de ser ao mesmo tempo observador e observado. Ou seja: é um ser humano a estudar seres humanos, é um membro da sociedade a estudar a sociedade, estuda certos grupos sociais de que pode fazer parte (um partido político ou uma Igreja, por exemplo) ou acerca dos quais tem opiniões anteriores ao estudo (algumas delas provenientes do senso comum). Estuda realidades com as quais está envolvido e de algum modo comprometido. Essa proximidade em relação ao objecto de estudo pode eventualmente impedi-lo de ser imparcial. Mesmo que não faça de propósito, pode inconscientemente “puxar a brasa à sua sardinha”.

Por exemplo: Um sociólogo que seja religioso ao estudar a religião pode, mesmo sem consciência disso, retratar a religião de um modo favorável, ainda que os factos apurados não o justifiquem.

A FAMILIARIDADE COM O SOCIAL.

Os fenómenos sociais são normalmente coisas próximas, com as quais temos contactos frequentes no dia-a-dia e em relação às quais já temos algum conhecimento (ao nível do senso comum). Pense em casos como a droga, a imigração, o desemprego, a educação, etc. Vejamos com mais detalhe o exemplo da educação: um certo indivíduo já foi aluno, agora tem filhos que andam na escola, é vizinho de um Professor e cunhado de uma Contínua, passa todos os dias ao pé de duas escolas, vê notícias na TV sobre a educação, etc. Essa familiaridade com o social pode constituir um obstáculo epistemológico caso leve a pessoa a pensar que já sabe o suficiente sobre o assunto, que as crenças do senso bastam e que portanto não é preciso investigar mais. O que é um erro, pois mesmo que essas crenças sejam verdadeiras é preciso investigar para aprofundar o conhecimento e saber justificar aquilo que se sabe.

A ILUSÃO DE TRANSPARÊNCIA DO SOCIAL.

Este obstáculo decorre da familiaridade referida. Como os fenómenos sociais são coisas próximas e relativamente aos já sabemos algo, as pessoas podem cair no erro de julgar que são evidentes – que aquilo que se percebe à primeira vista corresponde à realidade. Ora, as coisas nem sempre são o que parecem. Muitas vezes aquilo que julgamos perceber intuitivamente é desmentido pelas pesquisas de ciências como a Psicologia ou a Sociologia.

Por exemplo:

Parece evidente a muitas pessoas que os gordos são sempre simpáticos, mas as pesquisas sociológicas mostram que não há relação necessária entre a personalidade e as características físicas.

Parece óbvio que os imigrantes se integrarão melhor na sociedade que os acolhe se substituírem a sua cultura de origem pela cultura dessa sociedade; no entanto, pesquisas sociológicas com imigrantes polacos no norte de França mostraram que os imigrantes melhor integrados na sociedade francesa eram aqueles que não abdicavam dos costumes e tradições polacas.

AS EXPLICAÇÕES NATURALISTAS.

As explicações de tipo naturalista interpretam o social a partir de factores que consideram inerentes à natureza humana, à natureza de um povo, de uma raça ou de um dos sexos. Consideram, portanto, que as causas dos fenómenos sociais são naturais e não sociais.

Um cientista social que dê esse tipo de explicação não estará a ser obviamente rigoroso nem objectivo.

Por exemplo:

Considerar que o menor desenvolvimento económico e industrial de certos povos se deve a um carácter preguiçoso e indolente inato.

Certas pessoas acreditam que uma das razões que deveria levar as mulheres a participar mais na vida política é a circunstância de terem uma maneira de ser mais sensível e comunicativa que os homens.

AS EXPLICAÇÕES INDIVIDUALISTAS.

As explicações de tipo individualista explicam os fenómenos sociais a partir de factores meramente individuais, como se tudo dependesse da vontade e das escolhas do indivíduo. Este tipo de explicações esquece que há tendências e mecanismos sociais, de que o indivíduo pode nem sequer estar consciente, que têm um enorme peso e influência.

Um cientista social que dê esse tipo de explicação não estará a ser obviamente rigoroso nem objectivo.

Por exemplo:

Considerar que há desemprego porque este e aquele indivíduo não querem trabalhar.

«A Mafalda não fuma e detesta que fumem ao pé dela. Ao conversar com um amigo acerca do filme “Casablanca” (realizado em 1942), em que a romântica e heróica personagem principal, representada por Humphrey Bogart, aparece frequentemente a fumar, a Mafalda disse que mesmo que vivesse naquela época detestaria o fumo do tabaco e nunca se apaixonaria nem casaria com um homem que fumasse. “Mesmo que mais ninguém pensasse assim, eu de certeza absoluta que pensaria”, concluiu a Mafalda.»

AS EXPLICAÇÕES ETNOCÊNTRICAS.

No planeta Terra existe uma enorme diversidade cultural. As diferentes comunidades humanas desenvolveram diferentes línguas, costumes, normas, valores, etc. Por isso, existem milhares de culturas diferentes. Por vezes, as pessoas de uma sociedade não respeitam as culturas de outras sociedades, consideram-nas inferiores e “atrasadas”. A essa atitude chama-se etnocentrismo cultural. Este é a atitude característica de quem só reconhece legitimidade e validade às normas e valores vigentes na sua própria cultura. As pessoas que pensam desse modo, consideram frequentemente que, sendo a sua cultura superior, têm o direito de a impor (pela força se necessário) a outros povos. Existem exemplos de atitudes etnocêntricas em muitas sociedades. Na Europa foi uma atitude habitual durante séculos, ostentada não só pelas pessoas do povo como por intelectuais.

Um cientista social que dê esse tipo de explicação não estará a ser obviamente rigoroso nem objectivo.

Por exemplo:

Os antigos gregos chamavam bárbaros aos estrangeiros. A palavra grega que se traduz por bárbaro significava “aquele que fala como os pássaros”. Ou seja: quem não falava grego, quem não era grego, não era considerado verdadeiramente humano.

“Os Índios americanos foram inicialmente olhados [pelos europeus] como criaturas selvagens que tinham mais afinidades com os animais do que com os seres humanos. Paracelso, nunca lá tendo ido, descreveu o continente norte-americano como sendo povoado por criaturas que eram meio homens meio bestas. Julgava-se que os Índios, os nativos desse continente, eram seres sem alma nascidos espontaneamente das profundezas da terra. O Bispo de Santa Marta, na Colômbia, descrevia os indígenas como homens selvagens das florestas e não homens dotados de uma alma racional, motivo pelo qual não podiam assimilar nenhuma doutrina cristã, nenhum ensinamento, nem adquirir a virtude [sendo, portanto, legítimo escravizá-los].” - Anthony Giddens, Sociology, Polity Press, Cambridge, p. 30.

“Durante o século XIX, os missionários cristãos em África e nas ilhas do Pacífico forçaram várias tribos nativas a mudar os seus padrões de comportamento. Chocados com a nudez pública, a poligamia e o trabalho no dia do Senhor, decidiram reformar o modo de vida dos "pagãos". Proibiram os homens de ter mais de uma mulher, instituíram o sábado como dia de descanso e vestiram toda a gente. Estas alterações culturais, impostas a pessoas que dificilmente compreendiam a nova religião, mas que tinham de se submeter ao poder do homem branco, revelaram-se, em muitos casos, nocivas: criaram mal-estar social, desespero entre as mulheres e orfandade entre as crianças. Se bem que o complexo de superioridade cultural não fosse um exclusivo dos Europeus (os chineses do século XVIII consideraram desinteressantes e bárbaros os seus visitantes ingleses), o domínio tecnológico, científico e militar da Europa, bem vincado a partir das Descobertas, fez com que os Europeus julgassem os próprios padrões, valores e realizações culturais como superiores. Povos pertencentes a sociedades diferentes foram, na sua grande maioria, desqualificados como inferiores, bárbaros e selvagens.” - Luís Rodrigues, Filosofia - 10º Ano, Plátano Editora, pág. 79.

Alguns destes obstáculos epistemológicos (nomeadamente a “familiaridade com o social”, a “ilusão de transparência do social”, a condição de observador e observado e as explicações etnocêntricas) podem ser vistos como diferentes manifestações da influência do senso comum.

Tal como qualquer outro ser humano, o cientista social possui senso comum: um certo conjunto de crenças e saberes práticos, que adquiriu através da experiência de vida, no decurso do processo de socialização. Algumas dessas crenças podem ser falsas, podem ser superstições e preconceitos. Esse cientista pode nem se aperceber que as possui. Se essas crenças influenciarem as suas investigações o rigor e a objectividade destas serão afectados.

Por exemplo: Se um sociólogo (educado de maneira muito religiosa e moralista) ao entrevistar uma prostituta utilizar uma linguagem valorativa e tendenciosa (“Porque é que se dedica a esta profissão vergonhosa e imoral?”, “Porque é que se deixou arrastar para esta vida desgraçada?”) terá dificuldade em comunicar com ela e não conseguirá recolher informações rigorosas.

No manual de Sociologia fala-se de “ruptura com o senso comum” na medida em que o cientista social deve tentar libertar-se dessa influência: muitas crenças do senso comum são falsas e devem ser corrigidas pela pesquisa científica (outras crenças até podem ser verdadeiras, mas ao nível do senso comum não existe justificação para elas, sendo tarefa da ciência fornecer essa justificação).

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