domingo, 25 de Outubro de 2009

Algumas diferenças entre o senso comum e a ciência

Os conhecimentos e outras crenças do senso comum baseiam-se na experiência quotidiana das pessoas, na chamada experiência de vida (que se distingue da experiência científica por ser feita sem um planeamento rigoroso, sem método). Nalguns casos trata-se de experiências pessoais, noutros casos são experiências partilhadas pelos membros da comunidade – no decurso do processo de socialização. Em suma, é um conhecimento que se adquire sem estudos, sem investigações.

Por exemplo: para aprender onde fica a padaria mais próxima de casa ou para aprender a atar os sapatos não é preciso efectuar uma investigação metódica, basta a experiência de vida.

Pelo contrário, a ciência implica investigações, estudos efectuados metodicamente.

Por exemplo: De outra forma, como se poderia descobrir a temperatura média de um planeta tão distante como Mercúrio? Como é que a simples experiência de vida podia permitir a descoberta de que a luz do Sol leva 8,33 minutos a chegar à Terra?

O senso comum é um saber assistemático, na medida em que constitui um conjunto disperso e desorganizado de crenças (algumas constituem conhecimentos e outras não), não implicando por parte dos seus detentores um esforço de organização. Por isso, algumas das crenças podem ser contraditórias.

Por exemplo: as mesmas pessoas podem acreditar que “Quem espera desespera” e “Quem espera sempre alcança”.

Ciência é um saber sistemático na medida em constitui um conjunto organizado de conhecimentos, havendo da parte dos cientistas um esforço para que as diversas teorias se articulem entre si e sejam coerentes.

Por exemplo: Os historiadores ficariam preocupados se descobrissem que, nas suas análises de um fenómeno do passado como a batalha de Aljubarrota, havia afirmações sobre o relevo da zona incompatíveis com as informações fornecidas pela Geografia.

O senso comum é um saber impreciso, na medida em que normalmente não se exprime de modo rigoroso e quantificável.

A ciência é um saber mais preciso, que o senso comum. As diversas ciências, naturais ou sociais, recorrem sempre que possível à Matemática, na tentativa de apresentar resultados rigorosos. Mesmo nas investigações em que não é possível quantificar (a observação psicológica de uma certa pessoa, por exemplo) existe essa procura do rigor.

Por exemplo: É de conhecimento geral que no Norte de Portugal chove mais do que no Sul. O conhecimento científico desse fenómeno é muito mais exacto: no mês de Janeiro de 2003 a precipitação em Faro situou-se entre os 20 e os 40 mm, enquanto no mesmo período no Porto situou-se entre os 350 e os 400 mm (de acordo com o Instituto de Meteorologia).

O senso comum é um saber superficial, na medida em que se conhece os próprios fenómenos mas muitas vezes desconhece-se as suas causas verdadeiras causas. Conhece-se o “é assim”, mas não o porquê de ser assim.

A ciência é um saber mais aprofundado, na medida em que procura descobrir a causa dos fenómenos, não se contentando com o “é assim”.

Por exemplo: Ao nível do senso comum sabe-se que a lixívia debota a roupa, mas um químico sabe explicar porque é que isso acontece.

O senso comum é um saber subjectivo ou pessoal, pois a sua aquisição depende das condições de vida, que não são iguais para todos os homens. É influenciado pela época histórica, pela cultura, pelos grupos sociais a que se pertence, pelo meio ambiente em que vive, pela idade, pela profissão, personalidade, etc. Por isso, uma determinada crença do senso comum nunca é universal. Algumas dessas crenças variam de pessoas para pessoa, outras variam consoante o grupo social ou a sociedade. Seja como for, nunca são partilhadas por todos os seres humanos.

Por exemplo: Um rapaz de 17 anos de Faro pode ter diversos conhecimentos relacionados com discotecas da região que o seu pai ignora e que outro rapaz de 17 anos também não possui – porque vive em Braga ou porque, apesar de viver em Faro, é introvertido e não gosta de sair à noite.

A ciência, pelo contrário, procura alcançar um saber objectivo. Ou seja: tenta mostrar as coisas (o objecto) como elas são, independentemente dos gostos e interesses do sujeito. Um conhecimento para ser científico tem de ser independente das particularidades do cientista. Por isso, tem validade universal: é aceite por toda a comunidade científica. (Claro que antes de uma teoria ter sido confirmada e aceite pode ter havido um período mais ou menos longo de controvérsia e discussão.)

«A ciência tem sempre defendido que, ao contrário de outras formas de conhecimento consideradas menos rigorosas, ela é objectiva. Não depende de quem faz, de quem mede, de quem segue a demonstração. O resultado da experiência, o número lido no aparelho, a lógica da dedução matemática são coisas objectivas, impessoais, podem ser repetidas.» Jorge Dias de Deus, Ciência, Curiosidade e Maldição, Gradiva.

Por exemplo: A ideia de que Plutão leva 247,7 anos a completar uma volta em torno do Sol e a ideia de que a temperatura média na sua superfície é de 237 graus negativos são completamente independentes da nacionalidade, do sexo ou da personalidade dos cientistas que as descobriram.

A objectividade é mais difícil de conseguir nas Ciências Sociais do que nas Ciências da Natureza e na Matemática.

Um conhecimento para ser considerado científico tem de ser testável. Ou seja: tem de ser possível confrontar as teorias com os factos, pô-las à prova através de experiências exigentes e rigorosas de modo a averiguar se são ou não falsas. Caso contrário, a teoria não passaria de uma mera opinião pessoal do cientista, de uma crença sem fundamento.

Por exemplo: Quando o astrónomo Clyde W. Tombaugh anunciou, em 1930, a descoberta de Plutão as suas observações tiveram que ser repetidas e confirmadas por muitos outros astrónomos.

No senso comum não existe essa preocupação constante de testar as crenças. Perceber-se-á melhor porque quando se explicar outra característica do senso comum: o facto de constituir um saber acrítico.

Por vezes descobre-se que conhecimentos científicos considerados verdadeiros, após terem sido muitas vezes testados, afinal são falsos e que é preciso corrigi-los. Isso significa que a ciência é falível e revisível e que o progresso do conhecimento científico constitui muitas vezes uma correcção de erros anteriores.

Por exemplo: “Até 1955 pensávamos que os seres humanos tinham 24 pares de cromossomas. Era um daqueles factos que todos tinham como certo. (…) Foi só em 1955 que surgiu a verdade. Joe-Hin Tjio e Albert Levan, utilizando melhores técnicas que as até então utilizadas, viram claramente 23 pares.” Matt Ridley, Genoma - Autobiografia de uma espécie em 23 capítulos, Gradiva.

O senso comum é um saber acrítico. Acrítico significa não reflectido, não examinado. É compreensível que assim seja, pois trata-se de saberes cuja aprendizagem é informal: aprende-se à medida que se vai vivendo e tendo experiências, aprende-se vendo, ouvindo e imitando os outros. Muitas vezes essa aprendizagem é inconsciente: as pessoas não têm noção de que estão a aprender, mas vão interiorizando crenças, costumes, saberes práticos, etc. Tanto podem aprender crenças verdadeiras como crenças falsas e injustificadas (superstições). De resto, essa atitude acrítica tem a ver com todas as características do senso comum aqui referidas.

Por exemplo: Algumas crianças portuguesas, ao observarem muitas vezes os pais e outros adultos deitarem lixo para o chão, aprendem a fazer o mesmo e interiorizam a ideia de que esse comportamento é correcto. Outras crianças portuguesas – talvez em menor número – ao observarem muitas vezes os pais e outros adultos deitarem o lixo para o caixote aprendem a fazer o mesmo e interiorizam a ideia de que esse comportamento é correcto. Na maior parte dos casos, tanto umas como outras realizam essas aprendizagens sem reflectir, sem discutir: limitam-se a imitar. Ou seja: aprendem acriticamente.

A ciência não pode ser acrítica como o senso comum. Pelo contrário, implica uma atitude crítica por parte dos cientistas. Ou seja: para fazer ciência é preciso reflectir, pensar pela própria cabeça, e ter uma preocupação permanente com a fundamentação das ideias. Os cientistas devem ter essa atitude crítica relativamente às suas próprias ideias e relativamente às ideias dos outros. De resto, essa atitude crítica tem a ver com todas as características da ciência aqui referidas.

Por exemplo: um cientista que queira publicar um artigo científico numa revista tem de submetê-lo a um processo de avaliação que costuma ser chamado “refereeing”: o artigo tem de ser lido primeiro por especialistas da área; o nome destes não é divulgado e estes também não sabem quem é o autor do artigo, para que a crítica possa ser mais livre e imparcial.

6 comentários:

manuel afonso disse...

Excelente artigo. É simultaneamente denotativo, com muitos exemplos, como é profundo e científico. Gostei muito, como gosto de tudo o que seja sociologia. Fiquei seguidor.

Carlos Pires disse...

Manuel:

Obrigado pelas palavras simpáticas.
Espero que continue a achar motivos de interesse no CS.
cumprimentos

Márcio disse...

Excelente trabalho, meus Parabéns.

Carlos Pires disse...

Obrigado, Márcio.

Anónimo disse...

parabéns pelo trabalho,ficou muito claro essas diferenças entre o senso comum e a ciência os exemplos ajudam muito .

Anónimo disse...

Olá, Seu texto está bem explicativo, porém está em Língua Portuguesa de Portugal. Sugiro apenas que faça uma referência à isso, para que os alunos distraídos não venham aqui e no control + C, Control+V, copiem sem saber que está em outra língua.

abraços e obrigado pela oportunidade.