quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Crianças selvagens: as meninas lobo

AMALA Y KAMALA “Nas regiões da Índia, onde os casos de crianças-lobos foram relativamente numerosos, descobriram-se, em 1920, duas meninas - Amala e Kamala de Midnapore – que viviam numa família de lobos. A primeira, a mais nova, morreu um ano depois; a segunda, Kamala, que deveria ter uns oito anos, viveu até fins de 1929.

Segundo a descrição do Reverendo Singh que as recolheu, elas nada tinham de humano, e o seu comportamento era exactamente semelhante ao dos pequenos lobos, seus irmãos: incapazes de permanecerem de pé caminhavam a quatro patas, apoiadas nos cotovelos e nos joelhos para percorrem pequenos trajectos e apoiadas nas mãos e nos pés, quando o trajecto era longo e rápido; apenas se alimentavam de carne fresca ou putrefacta comiam e bebiam como os animais, acocoradas, com a cabeça lançada para a frente, sorvendo os líquidos com a língua. Passavam o dia escondidas e prostradas, à sombra; de noite, pelo contrário, eram activas e davam saltos, tentavam fugir e uivavam, realmente, como os lobos. Nunca choravam ou riam, característica que se encontra em todas as crianças-selvagens.

meninas lobas Reintegrada na sociedade dos homens onde viveu oito anos, Kamala humaniza-se lentamente, mas, note-se, sem nunca recuperar o atraso: passaram seis anos antes de conseguir caminhar na posição erecta. Na altura da morte apenas dispõe de umas cinquenta palavras. Contudo, se esses progressos são lentos, são também contínuos e realizam-se simultaneamente em todos os sectores da sua personalidade. Surgem atitudes afectivas: Kamala chora, pela primeira vez, quando morre a irmã, torna-se, pouco a pouco, capaz de sentir afeições pelas pessoas que cuidam dela, especialmente pela senhora Singh; sorri quando lhe falam. A sua inteligência desperta também; consegue comunicar com as outras pessoas, por meio de gestos, gradualmente reforçados com algumas palavras simples de um vocabulário rudimentar; consegue compreender e executar ordens simples, etc.

No entanto, a dar crédito a outro observador, o bispo Pakenham Walsh, que viu Kamala seis anos depois de ser encontrada, a criança não tomava qualquer iniciativa de contacto, nunca utilizava espontaneamente as palavras que aprendera e, especialmente, mergulhava numa atitude de total indiferença mal as pessoas deixavam de a solicitar.”

REYMOND-RIVER, O Desenvolvimento Social da Criança e do Adolescente, Ed. Aster.

Não consegui confirmar completamente a informação, mas aparentemente as fotografias retratam Kamala.  Fotografias encontradas aqui.

6 comentários:

Justine disse...

Gostei do comentário que deixaste no "Quarteto": conciso, franco e directo. Mas se calhar não gostaria tanto se não fosse elogioso:))
O teu blog é tranquilamente pedagógico, informativo sem ser enfadonho, instrumento de trabalho de alguém que gosta do que faz (parece-me).
(e não leves a mal o tratamento, mas cheguei a uma idade em que acho ter o direito de tratar por tu todas as pessoas, pelo menos até à idade do meu filho...tu estás no limite!)

aurasacrafames disse...

Esta informação que você nos revela é importante e trás consequências se admitida em sua totalidade, afinal poderia um animal se humanizar? Nesse processo há alguma relação com o evolucionismo darwiano? O caráter dessas meninas foi construído a partir desse processo de humanização, assim, será possível descontruir um caráter já formado?

Abraços
Por uma sociedade melhor!
aurasacrafames.blogspot.com

mundo azul disse...

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Sempre pensei que "crianças lobo", fossem lendas... Como será que foram parar na floresta, em meio aos animais?

Gostei do seu espaço e voltarei.


Beijos de luz!

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Carlos Pires disse...

Justine:

Ainda bem que gostou do blogue. Obrigado pelo elogio. Espero que volte. Caso encontre matéria para comentários esteja à vontade: eu, embora goste de elogios, também aprecio críticas. Sem as críticas dos outros como poderemos aprender e melhorar?

cumprimentos

Carlos Pires disse...

aurasacrafames:

Não sei se percebi bem as suas perguntas. Um animal não se poderia humanizar pois por grandes e bons que fossem os estímulos faltar-lhe-iam diversas condições biológicas, nomeadamente a capacidade cerebral.
Os casos de crianças selvagens mostram que os seres humanos são uma mistura complexa de biologia e cultura: as dificuldades de reintegração na sociedade humana não se devem a problemas biológicos mas à falta do convívio social e da aprendizagem cultural.
É preciso reunir as 2 dimensões.

cumprimentos

Carlos Pires disse...

Mundo Azul:

espero que volte e que o CS possa ter interesse e utilidade para si.

Estão documentados diversos casos de crianças selvagens em várias partes do mundo e em épocas históricas diferentes - não se trata, portanto, de lendas. O que não significa que nalguns relatos não possam existir pormenores falsos e lendários.
Essas crianças ficaram nessa situação porque se perderam ou porque foram abandonadas.

cumprimentos