segunda-feira, 4 de Maio de 2009

Globalização e desigualdade

“A globalização está a desenrolar-se de forma assimétrica. O impacto da globalização é sentido de forma diferente [nas diferentes partes do mundo], e algumas das suas consequências não são de todo benignas. Lado a lado com o acumular de problemas ecológicos, o aumento das desigualdades entre as várias sociedades é um dos maiores desafios que o mundo enfrenta nos primórdios do século XXI. (…)

A vasta maioria da riqueza mundial está concentrada nos países industrializados ou ‘desenvolvidos’, ao passo que os países do ´terceiro mundo´ sofrem de pobreza generalizada, sobrepopulação, sistemas deficientes de prestação de cuidados de saúde e educação, e pesadas dívidas externas. A disparidade entre o mundo desenvolvido e o mundo em vias de desenvolvimento tem aumentado a um ritmo contínuo durante os últimos vinte anos, sendo hoje [2001] maior que nunca.

O Relatório de Desenvolvimento Humano de 1999, publicado pelas Nações Unidas, revelou que o rendimento médio do quinto da população mundial que vive nos países mais ricos é 74 vezes maior que o rendimento médio do quinto da população mundial que vive nos países mais pobres. No final da década de 90, 20% da população mundial era responsável por 86% do consumo total mundial, 82% dos mercados de exportação e 74% das linhas de telefones. (…) Os bens dos três bilionários mais ricos do mundo ultrapassam a soma dos Produtos Internos Brutos (PIB) de todos os países menos desenvolvidos e dos 600 milhões de pessoas que neles vivem.

Em grande parte do mundo em vias de desenvolvimento, os níveis de produção e crescimento económico registados durante o último século não acompanharam a taxa de crescimento da população, enquanto o nível de desenvolvimento económico nos países industrializados a ultrapassou de longe. Estas tendências contrárias conduziram a uma acentuada separação entre os países mais ricos e os mais pobres do mundo. A distância entre os países mais ricos e os países mais pobres traduzia-se em 1820 na proporção de 3 para 1, de 11 para 1 em 1913, de 35 para 1 em 1950 e de 72 para 1 em 1992. Durante o último século, o rendimento per capita no segmento mais rico da população mundial quase sextuplicou, enquanto no segmento mais pobre o aumento não chegou a triplicar.

A globalização parece exacerbar esta tendência, ao concentrar ainda mais o rendimento, a riqueza e os recursos num pequeno número de países.”

Quota do PIB mundial em 1997:

Países mais ricos (20% do total de países)

86%

Países médios (60% do total de países)

13%

Países mais pobres (20% do total de países)

1%

Quota de utilizadores da Internet em 1997:

Países mais ricos (20% do total de países)

93,3%

Países médios (60% do total de países)

6,5%

Países mais pobres (20% do total de países)

0,2%

Anthony Giddens, Sociologia, 5ª edição, F. C. Gulbenkian, 2007, Lisboa, pp. 69-70.

1 comentário:

António Viriato disse...

Convém lembrar que este Anthony Giddens deu imensa cobertura às teorias fantasiosamente benéficas da Globalização e do seu imperante neoliberalismo económico-financeiro, com o correspondente assalto ao chamado Estado de Bem-Estar Social europeu, sobretudo, levianamente desmontado, em imitação do modelo americano de autêntico darwinismo social.

Gueterres, aqui, e Blair, no Reino Unido, deram enorme crédito a esta estrela da chamada terceira via, que, afinal, mais não fez que justificar a desmontagem do modelo social europeu, responsável por trinta anos de progresso económico e paz na Europa Ocidental.

Agradeço e retribuo a visita.