quinta-feira, 12 de Março de 2009

A reprodução social

Quando se fala de reprodução social (por vezes também designada por reprodução cultural) tem-se em mente a “transmissão de normas e valores culturais de geração em geração”.
Uma reprodução é uma repetição da mesma coisa. A reprodução social consiste na transmissão e aquisição de valores, normas e costumes sem proceder a alterações significativas, sem inovar, sem mudar o legado recebido. Diz-se que os seres humanos são produtos e produtores da cultura. O conceito de reprodução social significa que muitos indivíduos não são produtores mas meros reprodutores da cultura que adquiriram no processo de socialização (e que os “produziu”, isto é, fez deles seres humanos).
Essa reprodução é assegurada por diversos “mecanismos através dos quais é mantida e assegurada a continuidade da experiência social ao longo do tempo. Os processos de escolaridade nas sociedades modernas estão entre os principais mecanismos da reprodução cultural, em virtude das aprendizagens formais mas também das aprendizagens informais (currículo oculto).”
A reprodução social não consiste apenas na repetição da cultura actualmente existente, mas também na repetição, na manutenção, da própria estrutura social e do sistema de estatutos e papéis sociais existente num dado momento. Por isso, a reprodução social é um modo de manter as desigualdades sociais, económicas, políticas, etc.
Os agentes de socialização, ao promoverem a aprendizagem da cultura de uma sociedade e a integração do indivíduo na sociedade e em grupos sociais específicos, promovem simultaneamente a reprodução da estrutura social existente num dado momento – promovem o “status quo”. Ou seja: levam o indivíduo a aceitar como “naturais” os estatutos atribuídos, a limitação do leque dos estatutos adquiridos e a definição dos direitos inerentes a cada estatuto social e dos deveres inerentes a cada papel social.
“Estudar o equilíbrio existente entre a reprodução social e a transformação social é uma tarefa da sociologia. A reprodução social diz respeito ao modo como as sociedades persistem no tempo. A transformação social refere-se às mudanças pelas quais passam. A reprodução social tem lugar na medida em que há uma continuidade entre o que as pessoas fazem de dia para dia e de ano para ano e as práticas sociais que seguem.”
Todos os excertos entre aspas foram retirados de: Anthony Giddens, "Sociologia", 3ª edição, Gulbenkian, 2002, Lisboa.
Agentes de socialização como a televisão e o cinema contribuem activamente para a reprodução social. Por exemplo: durante muitas décadas nos filmes americanos os actores negros só representavam papéis de criminosos ou de pessoas com profissões pouco valorizadas socialmente (criados, porteiros, etc.); tal situação contribuía para reforçar a discriminação que existia.
A Escola pode ser um factor de mobilidade social, mas muitas vezes limita-se a participar no processo de reprodução social (e a reproduzir as desigualdades sociais existentes). Por exemplo:
«Em 1980, duas investigadoras realizaram um estudo intitulado “Obstáculos ao Sucesso na Escola Primária”, em que verificaram que a taxa de repetências variava nitidamente com a classe social de origem. Por exemplo, nos alunos cujos pais pertenciam ao grupo socioprofissional dos “quadros”, a taxa de insucesso era apenas de 3%: Nos filhos de “empregados e funcionários” passava para cerca de 8%. Para os alunos com pais “operários”, a taxa de insucesso atingia já a casa dos 30%. Para os alunos com pais em situação socioprofissional precária (ocupações ocasionais, desqualificadas) ou mal definida, a taxa de insucesso atingia os 50%. (…) Estes resultados são convergentes com os de outras pesquisas.» - (A. Costa, "O que é – Sociologia, Difusão Cultural", pp. 25-26.)

6 comentários:

António Rafael disse...

Este Blog serve de apoio aos seus alunos. Estou a intrometer-me e o que tenho a dizer, talvez não valha tanto.
Até mesmo sem estudos sociológicos verificamos empiricamente, nas nossas escolas, que são os alunos que mais precisam aqueles que menos aproveitam, o pouco que a escola tem para dar.
Aos bons alunos, esses serão bons em qualquer sistema. Costumo dizer que os muitos alunos são bons "apesar da escola".
A reprodução social é um facto e não é com "canudos" artificiais e por isso desvalorizados, que damos a volta ao problema.
Obrigado. Vou continuar a passar por aqui.
Um abraço.

Anónimo disse...

Então agradável esta página está bem estruturado.........bom trabalho :)
Adorei Continua deste modo !!

Anónimo disse...

Descobri o seu blog á pouco tempo, mas quero dar-lhe os parabéns. Sou prof. e o seu trabalho tem sido para mim e para os meus alunos uma importante ferramenta de trabalho.
Continue e obrigada.
Filipa Costa

Carlos Pires disse...

Obrigado Filipa. Se tiver sugestões ou mesmo críticas diga, pois serão bem acolhidas.
Já agora: em que escola leciona?

Filipa Costa disse...

OK. Fica combinado. Lecciono na Escola SEcundária Leal da Camâra em Rio de Mouro - Sintra.
Cumprimentos

Lucélia Roque de Brito disse...

Concordo com o comentário sobre a escola em ser mediadora da sociologia da reprodução quando afirma e constata, através do estudo intitulado "obstáculos ao Sucesso na Escola Primária".A desigualdade social repercute nos resultados provenientes da própria estrutura social das classes.
Lucelia Brito
Pedagoga e especialista em psicopedagogia Institucional e Clínica.