Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Ficha de Trabalho sobre Observação Participante

«ROBERT WUTHNOW: O SOCIÓLOGO COMO CRENTE RELIGIOSO
Muitos sociólogos que estudam a religião são membros de uma Igreja ou templo. Nos seus corações, podem acreditar que algumas visões religiosas se aproximam mais da verdade divina do que outras. Como é que os sociólogos equilibram a obrigação profissional de serem objectivos com as suas crenças pessoais?
Robert Wuthnow, cujo livro Christianity In the Twenty-fírst Century: Refections on the Challenges Ahead (1993) trata das perspectivas futuras do Cristianismo, dá-nos uma resposta. Apesar de ser um cientista social, Wuthnow tomou claro que a sua pesquisa foi efectuada tanto como Cristão como sociólogo. Como Cristão, Wuttmow preocupava-se com a manutenção da vitalidade da igreja no próximo século. Como sociólogo, procurava compreender como é que a mudança social afecta a igreja e os seus seguidores.
O método de pesquisa de Wuthnow consistiu em entrevistar alguns dos membros da igreja. Estas discussões levaram-no a concluir que a Identidade Cristã se está a tornar cada vez mais global. As fronteiras de denominação estão-se a desfazer. “No passado, as pessoas, sendo Cristãs, eram Baptistas ou Presbiterianas, mas agora, os Cristãos estão-se a aperceber da comunhão com outros Cristãos à volta do mundo.” Com o impacto da globalização, qual será o papel deste tipo de igreja?
Wuthnow acredita que os membros da igreja querem “pensar globalmente e agir localmente”. Isto é, procuram a identidade comum de outros crentes à volta do mundo, mas buscam companheirismo com outros crentes mais próximos, Portanto, se a Lilly e o Sam são Presbiterianos, não o são em virtude da lealdade para com a denominação num sentido lato, mas antes porque gostam do pastor, se sentem confortáveis com as pessoas, o edifício está de acordo com os seus gostos arquitectónicos, a igreja não é muito distante. Wuthnow argumenta que a única maneira de a Igreja continuar viva é “dotar as pessoas de um forte sentido de comunidade - comunidades de apoio, serviços e residência”.
Apesar de Wuthnow ser Cristão, as suas preocupações são sociológicas e o seu estilo de análise é objectivo. Os seus inquiridos olhavam-no mais como professor universitário do que como Cristão. As preocupações de Wuthnow enquanto cristão não parecem ter influenciado a sua recolha de dados.
Quando pensam em temas sociológicos como a secularização ou no fundamentalismo, acham difícil evitar que as vossas próprias visões acerca da religião interfiram nas vossas análises?»
Anthony Giddens, Sociologia, F. C. Gulbenkian, 3ª Edição, 2002, pág. 534.

A OBSERVAÇÃO DA VIDA NA RUA

«Como é que o sociólogo estuda a vida na rua? Na década de 90 (do século XX), Duneier estudou a natureza da vida na rua em Greenwich Village (Nova Iorque). Nas ruas desse bairro, vivia um grupo de homens pobres, negros, predominantemente sem abrigo, alguns vendiam livros e revistas nos passeios, outros vendiam objectos que tinham encontrado e outros eram mendigos.
Duneier abordou em primeiro lugar a investigação através de um contacto pessoal com um dos vendedores de livros, Hakim Hasan, de quem era cliente habitual. Hakim era um exemplo de uma «figura pública» e Duneier acreditava que ele poderia fornecer informações importantes sobre a vida nas ruas do bairro.
Deste modo, Duneier, com o consentimento de Hakim, observou a vida do vendedor no seu quotidiano - à sua mesa de venda, as relações com os clientes, etc. Ao fim de dois anos de observação, descreveu a sua investigação num manuscrito.
O manuscrito foi aceite para publicação, mas Hakim criticava-o por se concentrar demasiado nele e na sua mesa, ou seja, era demasiado estreito para capturar outras dinâmicas importantes que ocorriam no passeio.
Duneier aceitou a validade destes comentários e propôs um novo modo de desenvolver o projecto. Assim, quando regressou às ruas de Greenwich Village, não o fez simplesmente como observador, mas como participante activo na sua vida diária. Com a ajuda de Hakim, chegou a um acordo com Marvin, um vendedor de revistas do quarteirão adjacente, para trabalhar um Verão para ele na sua mesa de venda. Marvin apresentou-o aos outros homens que ganhavam as suas vidas na rua e deu credibilidade à sua investigação.
Contudo, mesmo com estes apoios, Duneier enfrentou um certo número de desafios como observador participante. Como homem branco, formado, da classe média alta, Duneier ocupava uma posição social muito diferente da dos homens pobres negros, que eram o objecto do seu estudo. Desde logo, reconheceu que seria inútil ‘adequar-se’, pois, mesmo se tentasse alterar a sua roupa e a sua forma de falar, continuaria de fora.
Deste modo, Duneier concentrou-se em construir lentamente relações de respeito mútuo com os homens de rua. Passou mais tempo a ouvir do que a falar e apoiou-se em conversas informais com os homens em vez de efectuar entrevistas formais.
A presença de Duneier foi gradualmente aceite e nos dois anos seguintes tornou-se uma figura regular na rua. Apesar de ter conseguido ser aceite, Duneier compreendeu que tolerar um observador participante e confiar nele não eram necessariamente a mesma coisa. Sabia que alguns homens do quarteirão tinham suspeitas sobre os motivos da sua investigação e pensavam que estava a tentar ganhar dinheiro com um livro acerca das suas vidas. Outros achavam que ele era ingénuo, sendo um alvo a explorar (pediam-lhe pequenas quantias de dinheiro).»

Anthony Giddens, Sociologia, 4ª Edição, 2004, Lisboa, F. C. Gulbenkian

1. O estudo de Robert Wuthnow constituiu uma forma de observação-participação ou de participação-observação? Justifique.

2. No seu estudo Robert Wuthnow recorreu apenas à observação participante ou recorreu também a outras técnicas de pesquisa? Justifique.

3. O estudo de Duneier constituiu uma forma de observação-participação ou de participação-observação? Justifique.

4. O grau de envolvimento de Duneier foi sempre o mesmo ou modificou-se ao longo da pesquisa? Justifique.

4 comentários:

Nelson disse...

Interessante.

Ana catarina disse...

Este comentário destina-se ao primeiro texto "Robert Wuthnow: O Sociólogo como crente religioso".

Sendo que “fundamentalismo” se denomina por uma Tendência religiosa conservadora, que visa a preservação do que se considera serem as ideias básicas (fundamentais) do cristianismo; o “secular” é algo que é temporal, ou leigo (independente da religião).
De facto estas duas ideologias seguem caminhos separados, de modo que mesmo não sendo oposições, a realidade de uma entra em confronto com a da outra.

Quando nos deparamos com temas dos quais temos uma opinião formulada, levamo-nos a adoptar uma posição de advogados da mesma.
Por exemplo um juiz que seja um fundamentalista, ao se deparar com um julgamento de um padre (por razões que não interessam para o exemplo), condena a posição do réu (enquanto pecador e desrespeitador da ordem divina) e deste modo, seguindo os conformes da sua devoção (mesmo não havendo provas de condenação) a sua visão pessoal poderá vir a afectar o desfecho do julgamento.
Mas não precisamos de ser tão extremistas, podendo encontrar situações de exemplo já conhecidas e estudadas, como é o facto de várias teorias de filósofos que tentam fundamentar a existência de Deus, deste modo procurando uma visão leiga, impessoal e objectiva, mas não a atingindo (obviamente pelo facto da sua intenção ser já a de comprovar algo que se traduz por uma crença, estando assim condicionado por obstáculos epistemológicos). Tornando-se, assim, as suas teorias em meras suposições (e alvos de inúmeras refutações).

Deste modo, de um ponto de vista sociológico, quando procuramos imparcialidade na defensão de uma investigação e de uma argumentação justa e objectiva, devemo-nos afastar das nossas crenças (sejam estas quais forem) para seguirmos por um caminho esclarecido.
Mas, muito embora este seja o objectivo de muitos cientistas sociais (sublinhando a sociologia), este facto é bastante complicado de alcançar. O facto de nos distanciarmos de realidades que não pomos em causa e com as quais nos confrontamos no dia-a-dia, obriga-nos a adoptarmos uma atitude neutra (ou impessoal), facto que requer especial esforço de abstenção, que eventualmente nos poderá conduzir ao cepticismo.

Nomeadamente nestas circunstâncias, penso que a minha posição seria, á partida, de tentativa de imparcialidade, mas, guiada pelas minhas próprias referências, posteriormente, com o decorrer da observação, não iria conseguir alcançar a objectividade pretendida (facto que só poderei de facto confirmar quando deposta a tal situação).

Tainã Steinmetz disse...

Bah... muito interessante o texto XD

Carlos Pires disse...

Tainã:

Não percebo nem o bah (depreciativo? irónico?) nem o XD.
cumprimentos