sábado, 7 de Novembro de 2009

A observação não-participante

«Se o observador não interage de forma alguma com o objecto de estudo no momento em que realiza a observação, não poderá ser considerado como participante.

Imagine-se, por exemplo, uma pesquisa sobre comportamentos racistas em sala de aula. Se o investigador optar por observar a dinâmica do grupo em situação de aula, oculto por detrás de um painel espelhado, está a fazer uma observação não-participante.

Este tipo de técnica possui características interessantes, pois:

· Reduz substancialmente a interferência do observado no observado*.

· Permite o uso de instrumentos de registo sem influenciar o grupo-alvo.

· Possibilita um grande controlo das variáveis a observar.

No entanto, a sua aplicação é limitada não só porque o equipamento adequado apenas está disponível em algumas instituições (escolas Superiores de Educação, por exemplo) mas também porque só se adequa a alguns objectos de estudo.

Grande parte das pesquisas exige um trabalho de campo em situação natural não se podendo simular em laboratório situações de alta complexidade com grande número de actores e de variáveis. Para tais situações o investigador tem de recorrer a técnicas de observação caracterizadas pelo seu envolvimento através da assunção de um papel junto da população observada: são as técnicas de observação participante.

* Não reduz totalmente a interferência, uma vez que, por imperativo ético, o observador deve previamente colher a autorização dos elementos do grupo-alvo de observação.»

Hermano Carmo e Manuela Ferreira, Metodologia da Investigação – Guia para Auto-aprendizagem, Universidade Aberta, Lisboa, 1998, pág. 106.

camaras de vigilânciaA observação de situações através de painéis espelhados que permitem ver sem ser visto não é o único modo de efectuar a observação não-participante. O desenvolvimento tecnológico proporciona outros meios para observar pessoas sem interagir com elas, como por exemplo a observação das situações através da sua filmagem por câmaras de vídeo (mais discretas que a da imagem) – podendo a observação ser efectuada em tempo real ou posteriormente. O que naturalmente coloca diversos problemas éticos.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Ficha de Trabalho sobre Observação Participante

«ROBERT WUTHNOW: O SOCIÓLOGO COMO CRENTE RELIGIOSO
Muitos sociólogos que estudam a religião são membros de uma Igreja ou templo. Nos seus corações, podem acreditar que algumas visões religiosas se aproximam mais da verdade divina do que outras. Como é que os sociólogos equilibram a obrigação profissional de serem objectivos com as suas crenças pessoais?
Robert Wuthnow, cujo livro Christianity In the Twenty-fírst Century: Refections on the Challenges Ahead (1993) trata das perspectivas futuras do Cristianismo, dá-nos uma resposta. Apesar de ser um cientista social, Wuthnow tomou claro que a sua pesquisa foi efectuada tanto como Cristão como sociólogo. Como Cristão, Wuttmow preocupava-se com a manutenção da vitalidade da igreja no próximo século. Como sociólogo, procurava compreender como é que a mudança social afecta a igreja e os seus seguidores.
O método de pesquisa de Wuthnow consistiu em entrevistar alguns dos membros da igreja. Estas discussões levaram-no a concluir que a Identidade Cristã se está a tornar cada vez mais global. As fronteiras de denominação estão-se a desfazer. “No passado, as pessoas, sendo Cristãs, eram Baptistas ou Presbiterianas, mas agora, os Cristãos estão-se a aperceber da comunhão com outros Cristãos à volta do mundo.” Com o impacto da globalização, qual será o papel deste tipo de igreja?
Wuthnow acredita que os membros da igreja querem “pensar globalmente e agir localmente”. Isto é, procuram a identidade comum de outros crentes à volta do mundo, mas buscam companheirismo com outros crentes mais próximos, Portanto, se a Lilly e o Sam são Presbiterianos, não o são em virtude da lealdade para com a denominação num sentido lato, mas antes porque gostam do pastor, se sentem confortáveis com as pessoas, o edifício está de acordo com os seus gostos arquitectónicos, a igreja não é muito distante. Wuthnow argumenta que a única maneira de a Igreja continuar viva é “dotar as pessoas de um forte sentido de comunidade - comunidades de apoio, serviços e residência”.
Apesar de Wuthnow ser Cristão, as suas preocupações são sociológicas e o seu estilo de análise é objectivo. Os seus inquiridos olhavam-no mais como professor universitário do que como Cristão. As preocupações de Wuthnow enquanto cristão não parecem ter influenciado a sua recolha de dados.
Quando pensam em temas sociológicos como a secularização ou no fundamentalismo, acham difícil evitar que as vossas próprias visões acerca da religião interfiram nas vossas análises?»
Anthony Giddens, Sociologia, F. C. Gulbenkian, 3ª Edição, 2002, pág. 534.

A OBSERVAÇÃO DA VIDA NA RUA

«Como é que o sociólogo estuda a vida na rua? Na década de 90 (do século XX), Duneier estudou a natureza da vida na rua em Greenwich Village (Nova Iorque). Nas ruas desse bairro, vivia um grupo de homens pobres, negros, predominantemente sem abrigo, alguns vendiam livros e revistas nos passeios, outros vendiam objectos que tinham encontrado e outros eram mendigos.
Duneier abordou em primeiro lugar a investigação através de um contacto pessoal com um dos vendedores de livros, Hakim Hasan, de quem era cliente habitual. Hakim era um exemplo de uma «figura pública» e Duneier acreditava que ele poderia fornecer informações importantes sobre a vida nas ruas do bairro.
Deste modo, Duneier, com o consentimento de Hakim, observou a vida do vendedor no seu quotidiano - à sua mesa de venda, as relações com os clientes, etc. Ao fim de dois anos de observação, descreveu a sua investigação num manuscrito.
O manuscrito foi aceite para publicação, mas Hakim criticava-o por se concentrar demasiado nele e na sua mesa, ou seja, era demasiado estreito para capturar outras dinâmicas importantes que ocorriam no passeio.
Duneier aceitou a validade destes comentários e propôs um novo modo de desenvolver o projecto. Assim, quando regressou às ruas de Greenwich Village, não o fez simplesmente como observador, mas como participante activo na sua vida diária. Com a ajuda de Hakim, chegou a um acordo com Marvin, um vendedor de revistas do quarteirão adjacente, para trabalhar um Verão para ele na sua mesa de venda. Marvin apresentou-o aos outros homens que ganhavam as suas vidas na rua e deu credibilidade à sua investigação.
Contudo, mesmo com estes apoios, Duneier enfrentou um certo número de desafios como observador participante. Como homem branco, formado, da classe média alta, Duneier ocupava uma posição social muito diferente da dos homens pobres negros, que eram o objecto do seu estudo. Desde logo, reconheceu que seria inútil ‘adequar-se’, pois, mesmo se tentasse alterar a sua roupa e a sua forma de falar, continuaria de fora.
Deste modo, Duneier concentrou-se em construir lentamente relações de respeito mútuo com os homens de rua. Passou mais tempo a ouvir do que a falar e apoiou-se em conversas informais com os homens em vez de efectuar entrevistas formais.
A presença de Duneier foi gradualmente aceite e nos dois anos seguintes tornou-se uma figura regular na rua. Apesar de ter conseguido ser aceite, Duneier compreendeu que tolerar um observador participante e confiar nele não eram necessariamente a mesma coisa. Sabia que alguns homens do quarteirão tinham suspeitas sobre os motivos da sua investigação e pensavam que estava a tentar ganhar dinheiro com um livro acerca das suas vidas. Outros achavam que ele era ingénuo, sendo um alvo a explorar (pediam-lhe pequenas quantias de dinheiro).»

Anthony Giddens, Sociologia, 4ª Edição, 2004, Lisboa, F. C. Gulbenkian

1. O estudo de Robert Wuthnow constituiu uma forma de observação-participação ou de participação-observação? Justifique.

2. No seu estudo Robert Wuthnow recorreu apenas à observação participante ou recorreu também a outras técnicas de pesquisa? Justifique.

3. O estudo de Duneier constituiu uma forma de observação-participação ou de participação-observação? Justifique.

4. O grau de envolvimento de Duneier foi sempre o mesmo ou modificou-se ao longo da pesquisa? Justifique.

Envolvimento no objecto de estudo: 2 exemplos

Uma das modalidades da Observação Participante é a chamada Observação-Participação, em que o observador não faz parte do grupo observado e só se aproxima dele devido à pesquisa que está a efectuar. Essa aproximação pode envolver graus muito diferentes de envolvimento no grupo: desde a mera proximidade necessária à recolha dos dados (como numa reportagem) até à integração no grupo e na sua vida quotidiana.

Um sociólogo ou um jornalista que tenha observado a manifestação referida no Exemplo A terá efectuado uma Observação com uma participação mínima, com pouco envolvimento. Barbara Ehrenreich, tal como se mostra no Exemplo B, efectuou uma Observação com um grau muito elevado de participação e envolvimento no grupo estudado.

Exemplo A

Entre 5 a 10 mil pessoas participaram no dia 6 de Janeiro de 2008 numa manifestação convocada pela oposição em Tbilisi, capital da Geórgia, para protestar contra as eleições presidenciais consideradas fraudulentas, depois de ser anunciada a vitória do presidente Mikhail Saakashvili.

Exemplo B

«A jornalista Barbara Ehrenreich fez a seguinte pergunta: como é que as pessoas subsistem com salários baixos (seis ou sete dólares por hora)? Como pagam a renda, a comida, os transportes? O passo seguinte foi decidir fazer jornalismo à moda antiga: nas suas próprias palavras, “ir para o mundo real e viver a situação pessoalmente.”

Deixou a sua casa confortável, alugou o alojamento mais barato que encontrou e assumiu a identidade de uma dona de casa divorciada de meia-idade, sem diploma universitário e com pouca experiência de trabalho. Arranjou alguns empregos precários como empregada de mesa, empregada de limpeza e vendedora. Na tentativa de sobreviver e pagar as contas, chegou a ter dois empregos e a trabalhar sete dias por semana. Vários meses depois, completamente exausta e desmoralizada pelas regras de trabalho, Ehrenreich desistiu e confirmou aquilo de que já suspeitava: sobreviver naquele país com o baixo salário de um trabalhador não qualificado é uma aposta difícil de ganhar.

Nas suas tentativas de sobreviver disfarçada de trabalhadora não qualificada e mal paga em diferentes cidades dos Estados Unidos (entre 1998 e 2000), Barbara Ehrenreich desvendou padrões de interacção humana e usou métodos de estudos relacionados com a investigação sociológica. O estudo de Ehrenreich revelou uma sociedade desigual, o que constitui um tópico central da Sociologia, pois a desigualdade social tem uma influência determinante nas interacções e instituições humanas.

Ehrenreich descreveu a sua experiência no livro Nickel and Dimed. A tradução portuguesa deste intitula-se Salário de Pobreza e foi editada pela Caminho em 2004.»

Adaptado a partir de: Richard Schaefer, Sociologia, 6ª Edição, McGraw-Hill, São Paulo, 2006, pp. 2-3.

Observação participante

Mercado do Bulhão

Desenho de Antonia Santolaya. Mercado do Bulhão. Porto. Outubro 2008. Retirado do blogue Desenhador do Quotidiano.

"A observação participante, que muitas vezes é também designada por trabalho de campo, caracteriza-se pela “inserção do observador no grupo observado. Se o investigador apenas se integra no grupo a partir do momento em que se inicia o processo de investigação, falamos de observação-participação. É a situação do etnólogo que vai viver uns tempos com a tribo que vai estudar.

Se, pelo contrário, o observador faz parte integrante de um grupo e aproveita essa situação para o observar, estamos numa situação de participação-observação. É o caso do professor de Sociologia que investiga na escola onde exerce a docência. [Ou do crente religioso que aproveita o seu convívio com outros crentes e a sua participação em actividades religiosas para estudar o fenómeno religioso.]

A observação-participação tanto pode ser uma participação distanciada e ligeira (caso de uma reportagem sobre uma conferência ou sobre outra qualquer prática social; ou da observação presencial de aulas), como uma participação mais profunda e mais integrada (como é o caso dos etnólogos que, ao estudarem sociedades primitivas, nelas se integram durante meses). Na participação-observação há a dificuldade acrescida da pertença íntima ao grupo social condicionar bastante a objectividade necessária ao processo investigativo.”

José Vargas, Sociologia, Porto Editora, 2002, pp. 119-120.

Teste a sua compreensão:

Num mercado, como o do Bulhão, poder-se-iam efectuar todas as modalidades de observação participante. Explique como e imagine exemplos.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Desigualdade entre homens e mulheres aumentou em Portugal

No “Global Gender Gap Index 2009”, com que o Fórum Económico Mundial pretendeAntónio Silva O Leão da Estrela Homem e Mulher medir a desigualdade entre os sexos, Portugal desceu cinco posições relativamente a 2008 e ocupa, agora, o mísero 46.º lugar. Islândia, Finlândia e Noruega ocupam os três primeiros lugares.

Segundo o jornal Público, “há um ano, Portugal conseguia mais pontos nos indicadores que medem a participação económica e as oportunidades de carreira dadas às mulheres, e conquistava vantagens no acesso à educação básica e superior. Comparando com 2008, há uma quebra na igualdade dos salários pagos para a mesma função, no acesso a cargos de topo nas empresas ou na justiça, e às profissões técnicas em geral. Mais: esta é a primeira vez nos últimos três anos que há uma descida na pontuação obtida. O ano passado, o fosso entre géneros reduziu 70,5 por cento. Hoje, essa diferença é de 70,1 por cento.”

Nem todas as desigualdades são más, como é o caso das desigualdades devidas ao mérito. Por exemplo: se a notícia fosse que a diferença salarial entre os bons e os maus professores ou entre os bons e os maus bibliotecários tinha aumentado a favor dos primeiros, seria uma boa notícia. Mas a desigualdade baseada no sexo não é uma boa notícia.

Seja como for, o facto de as razões que fazem com que essa não seja uma boa notícia serem evidentes é… uma boa notícia! As coisas estão realmente a mudar. Devagarinho, como sucede com quase todas as mudanças sociais profundas e efectivas, mas a mudar.

Na imagem: António Silva e actriz cujo nome não apurei, no filme “O Leão da Estrela”.

domingo, 25 de Outubro de 2009

Matriz do 1º teste de Sociologia

 

ESCOLA SECUNDÁRIA DE PINHEIRO E ROSA

SOCIOLOGIA – 12ºANO                                                                      Ano Lectivo: 2009-2010

Matriz do 1º Teste (Outubro)                                                        O Professor: Carlos Pires

Duração: 90 minutos.

Temas: 1. Sociologia e conhecimento da realidade social. 2. Metodologia da investigação sociológica.

Objectivos:

1. Explicar porque é que os seres humanos são seres sociais.

2. Explicar o que são “crianças-selvagens” e qual a relação desse fenómeno com o carácter social dos seres humanos.

3. Identificar pelo menos seis ciências sociais.

4. Reconhecer a Sociologia como ciência social.

5. Dar e reconhecer exemplos de fenómenos sociais.

6. Explicar porque é que os fenómenos sociais são complexos, ou seja, pluridimensionais.

7. Dar e reconhecer exemplos ilustrativos da complexidade dos fenómenos sociais.

8. Identificar nesses exemplos de fenómenos sociais os aspectos neles estudados pelas diversas ciências sociais.

9. Explicar a necessidade de interdisciplinaridade entre as várias ciências sociais.

10. Mostrar que a dimensão sociológica dos fenómenos sociais é o seu carácter “relacional”, dizendo sempre respeito às interacções de indivíduos que vivem em grupos.

11. Dar e reconhecer exemplos ilustrativos da dimensão sociológica dos fenómenos sociais.

12. Explicar as principais características do senso comum.

13. Dar e reconhecer exemplos ilustrativos de conhecimentos, superstições e outras crenças do senso comum.

14. Compreender as principais características da ciência.

15. Dar e reconhecer exemplos ilustrativos de conhecimentos científicos.

16. Mostrar porque é que o facto da Sociologia e das outras ciências sociais estudarem os seres humanos torna a obtenção do rigor e da objectividade mais difícil que nas ciências da natureza e na Matemática.

17. Explicar o que é um obstáculo epistemológico.

18. Explicar em que medida a condição de observador e observado do cientista social pode constituir um obstáculo epistemológico.

19. Explicar em que medida o facto da presença do observador poder modificar o que é observado constitui um obstáculo epistemológico.

20. Explicar em que medida a “familiaridade com o social” e a “ilusão de transparência do social” constituem obstáculos epistemológicos.

21. Explicar em que medida as explicações naturalistas constituem um obstáculo epistemológico.

22. Explicar em que medida as explicações individualistas constituem um obstáculo epistemológico.

23. Explicar em que medida as explicações etnocêntricas constituem um obstáculo epistemológico.

24. Dar e reconhecer exemplos ilustrativos dos diversos obstáculos epistemológicos.

25. Explicar porque é que os sociólogos e os outros cientistas sociais têm necessidade de se distanciar do senso comum.

26. Dizer o que é uma técnica de pesquisa.

27. Explicar em que consiste o inquérito por questionário e em que situações pode ser usado.

28. Explicar o que é uma amostra.

29. Explicar em que consiste a entrevista e em que situações pode ser usada.

30. Referir os tipos de entrevista utilizados nas ciências sociais: estruturada, não estruturada e semi-estruturada.

31. Distinguir questões fechadas, abertas e semi-abertas.

32. Referir os principais cuidados a ter na utilização do inquérito por questionário e da entrevista.

33. Explicar em que consiste a análise de conteúdo e em que situações pode ser usada.

34. Saber usar as técnicas do inquérito por questionário, da entrevista e da análise de conteúdo.

Leituras:

No Manual: da pág. 14 à pág. 18, pág. 20, pág. 24, da pág. 28 à pág. 35, da pág. 47 à pág. 51.

No Caderno de Sociologia:

· “Crianças selvagens: as meninas lobo”

· “O que estuda a Sociologia? Da infidelidade conjugal à religião, tudo um pouco!”

· “A Sociologia e as outras Ciências Sociais: o caso da pena de morte”

· “Os fenómenos sociais são complexos: o exemplo do consumo”

· “Os fenómenos sociais são complexos: o exemplo da emigração portuguesa”

· “A dimensão sociológica dos fenómenos sociais”

· “A Sociologia não estuda o individual”

· “Senso comum e ciência: alguns exemplos”

· “Algumas diferenças entre o senso comum e a ciência”

· “Superstições”

· “Números do “azar”: 4 e 13”

· “Obstáculos epistemológicos: a dificuldade de alcançar a objectividade nas ciências sociais”

Apontamentos tirados nas aulas.

Bom Trabalho!

Algumas diferenças entre o senso comum e a ciência

Os conhecimentos e outras crenças do senso comum baseiam-se na experiência quotidiana das pessoas, na chamada experiência de vida (que se distingue da experiência científica por ser feita sem um planeamento rigoroso, sem método). Nalguns casos trata-se de experiências pessoais, noutros casos são experiências partilhadas pelos membros da comunidade – no decurso do processo de socialização. Em suma, é um conhecimento que se adquire sem estudos, sem investigações.

Por exemplo: para aprender onde fica a padaria mais próxima de casa ou para aprender a atar os sapatos não é preciso efectuar uma investigação metódica, basta a experiência de vida.

Pelo contrário, a ciência implica investigações, estudos efectuados metodicamente.

Por exemplo: De outra forma, como se poderia descobrir a temperatura média de um planeta tão distante como Mercúrio? Como é que a simples experiência de vida podia permitir a descoberta de que a luz do Sol leva 8,33 minutos a chegar à Terra?

O senso comum é um saber assistemático, na medida em que constitui um conjunto disperso e desorganizado de crenças (algumas constituem conhecimentos e outras não), não implicando por parte dos seus detentores um esforço de organização. Por isso, algumas das crenças podem ser contraditórias.

Por exemplo: as mesmas pessoas podem acreditar que “Quem espera desespera” e “Quem espera sempre alcança”.

Ciência é um saber sistemático na medida em constitui um conjunto organizado de conhecimentos, havendo da parte dos cientistas um esforço para que as diversas teorias se articulem entre si e sejam coerentes.

Por exemplo: Os historiadores ficariam preocupados se descobrissem que, nas suas análises de um fenómeno do passado como a batalha de Aljubarrota, havia afirmações sobre o relevo da zona incompatíveis com as informações fornecidas pela Geografia.

O senso comum é um saber impreciso, na medida em que normalmente não se exprime de modo rigoroso e quantificável.

A ciência é um saber mais preciso, que o senso comum. As diversas ciências, naturais ou sociais, recorrem sempre que possível à Matemática, na tentativa de apresentar resultados rigorosos. Mesmo nas investigações em que não é possível quantificar (a observação psicológica de uma certa pessoa, por exemplo) existe essa procura do rigor.

Por exemplo: É de conhecimento geral que no Norte de Portugal chove mais do que no Sul. O conhecimento científico desse fenómeno é muito mais exacto: no mês de Janeiro de 2003 a precipitação em Faro situou-se entre os 20 e os 40 mm, enquanto no mesmo período no Porto situou-se entre os 350 e os 400 mm (de acordo com o Instituto de Meteorologia).

O senso comum é um saber superficial, na medida em que se conhece os próprios fenómenos mas muitas vezes desconhece-se as suas causas verdadeiras causas. Conhece-se o “é assim”, mas não o porquê de ser assim.

A ciência é um saber mais aprofundado, na medida em que procura descobrir a causa dos fenómenos, não se contentando com o “é assim”.

Por exemplo: Ao nível do senso comum sabe-se que a lixívia debota a roupa, mas um químico sabe explicar porque é que isso acontece.

O senso comum é um saber subjectivo ou pessoal, pois a sua aquisição depende das condições de vida, que não são iguais para todos os homens. É influenciado pela época histórica, pela cultura, pelos grupos sociais a que se pertence, pelo meio ambiente em que vive, pela idade, pela profissão, personalidade, etc. Por isso, uma determinada crença do senso comum nunca é universal. Algumas dessas crenças variam de pessoas para pessoa, outras variam consoante o grupo social ou a sociedade. Seja como for, nunca são partilhadas por todos os seres humanos.

Por exemplo: Um rapaz de 17 anos de Faro pode ter diversos conhecimentos relacionados com discotecas da região que o seu pai ignora e que outro rapaz de 17 anos também não possui – porque vive em Braga ou porque, apesar de viver em Faro, é introvertido e não gosta de sair à noite.

A ciência, pelo contrário, procura alcançar um saber objectivo. Ou seja: tenta mostrar as coisas (o objecto) como elas são, independentemente dos gostos e interesses do sujeito. Um conhecimento para ser científico tem de ser independente das particularidades do cientista. Por isso, tem validade universal: é aceite por toda a comunidade científica. (Claro que antes de uma teoria ter sido confirmada e aceite pode ter havido um período mais ou menos longo de controvérsia e discussão.)

«A ciência tem sempre defendido que, ao contrário de outras formas de conhecimento consideradas menos rigorosas, ela é objectiva. Não depende de quem faz, de quem mede, de quem segue a demonstração. O resultado da experiência, o número lido no aparelho, a lógica da dedução matemática são coisas objectivas, impessoais, podem ser repetidas.» Jorge Dias de Deus, Ciência, Curiosidade e Maldição, Gradiva.

Por exemplo: A ideia de que Plutão leva 247,7 anos a completar uma volta em torno do Sol e a ideia de que a temperatura média na sua superfície é de 237 graus negativos são completamente independentes da nacionalidade, do sexo ou da personalidade dos cientistas que as descobriram.

A objectividade é mais difícil de conseguir nas Ciências Sociais do que nas Ciências da Natureza e na Matemática.

Um conhecimento para ser considerado científico tem de ser testável. Ou seja: tem de ser possível confrontar as teorias com os factos, pô-las à prova através de experiências exigentes e rigorosas de modo a averiguar se são ou não falsas. Caso contrário, a teoria não passaria de uma mera opinião pessoal do cientista, de uma crença sem fundamento.

Por exemplo: Quando o astrónomo Clyde W. Tombaugh anunciou, em 1930, a descoberta de Plutão as suas observações tiveram que ser repetidas e confirmadas por muitos outros astrónomos.

No senso comum não existe essa preocupação constante de testar as crenças. Perceber-se-á melhor porque quando se explicar outra característica do senso comum: o facto de constituir um saber acrítico.

Por vezes descobre-se que conhecimentos científicos considerados verdadeiros, após terem sido muitas vezes testados, afinal são falsos e que é preciso corrigi-los. Isso significa que a ciência é falível e revisível e que o progresso do conhecimento científico constitui muitas vezes uma correcção de erros anteriores.

Por exemplo: “Até 1955 pensávamos que os seres humanos tinham 24 pares de cromossomas. Era um daqueles factos que todos tinham como certo. (…) Foi só em 1955 que surgiu a verdade. Joe-Hin Tjio e Albert Levan, utilizando melhores técnicas que as até então utilizadas, viram claramente 23 pares.” Matt Ridley, Genoma - Autobiografia de uma espécie em 23 capítulos, Gradiva.

O senso comum é um saber acrítico. Acrítico significa não reflectido, não examinado. É compreensível que assim seja, pois trata-se de saberes cuja aprendizagem é informal: aprende-se à medida que se vai vivendo e tendo experiências, aprende-se vendo, ouvindo e imitando os outros. Muitas vezes essa aprendizagem é inconsciente: as pessoas não têm noção de que estão a aprender, mas vão interiorizando crenças, costumes, saberes práticos, etc. Tanto podem aprender crenças verdadeiras como crenças falsas e injustificadas (superstições). De resto, essa atitude acrítica tem a ver com todas as características do senso comum aqui referidas.

Por exemplo: Algumas crianças portuguesas, ao observarem muitas vezes os pais e outros adultos deitarem lixo para o chão, aprendem a fazer o mesmo e interiorizam a ideia de que esse comportamento é correcto. Outras crianças portuguesas – talvez em menor número – ao observarem muitas vezes os pais e outros adultos deitarem o lixo para o caixote aprendem a fazer o mesmo e interiorizam a ideia de que esse comportamento é correcto. Na maior parte dos casos, tanto umas como outras realizam essas aprendizagens sem reflectir, sem discutir: limitam-se a imitar. Ou seja: aprendem acriticamente.

A ciência não pode ser acrítica como o senso comum. Pelo contrário, implica uma atitude crítica por parte dos cientistas. Ou seja: para fazer ciência é preciso reflectir, pensar pela própria cabeça, e ter uma preocupação permanente com a fundamentação das ideias. Os cientistas devem ter essa atitude crítica relativamente às suas próprias ideias e relativamente às ideias dos outros. De resto, essa atitude crítica tem a ver com todas as características da ciência aqui referidas.

Por exemplo: um cientista que queira publicar um artigo científico numa revista tem de submetê-lo a um processo de avaliação que costuma ser chamado “refereeing”: o artigo tem de ser lido primeiro por especialistas da área; o nome destes não é divulgado e estes também não sabem quem é o autor do artigo, para que a crítica possa ser mais livre e imparcial.

domingo, 18 de Outubro de 2009

Obstáculos epistemológicos: a dificuldade de alcançar a objectividade nas ciências sociais

A objectividade é uma característica fundamental do conhecimento científico, seja nas Ciências da Natureza e na Matemática seja nas Ciências Sociais.

Dizer que um conhecimento, para ser científico, deve ser objectivo significa que este deve ser independente da vontade e dos interesses do cientista. Ou seja: deve mostrar as coisas como elas realmente são e não como o cientista eventualmente gostaria que fossem; deve ser completamente impessoal. Essa objectividade deve ser tal que, relativamente ao mesmo tópico, dois cientistas pesquisando em condições semelhantes cheguem ao mesmo resultado. Caso contrário não passará de mera opinião e não será universal, ou seja, válido para todos.

À partida, é evidente que tal objectividade é mais difícil de conseguir nas Ciências Sociais do que nas Ciências da Natureza e na Matemática.

Há várias dificuldades que um cientista social tem de vencer. O programa de Sociologia do 12º Ano, na linha de certos autores, chama-lhes “obstáculos epistemológicos”. Essa expressão designa um entrave à produção de conhecimento científico rigoroso e objectivo. São vários:

• A observação modifica o comportamento de quem sabe que está ser observado.

• Os cientistas sociais são observadores e observados.

• A familiaridade com o social.

• A ilusão de transparência do social.

• As explicações naturalistas.

• As explicações individualistas.

• As explicações etnocêntricas.

A OBSERVAÇÃO MODIFICA O COMPORTAMENTO DE QUEM SABE QUE ESTÁ SER OBSERVADO.

Esta dificuldade prende-se com a própria natureza do objecto de estudo das Ciências Sociais. Os seres humanos são seres racionais, conscientes de si e do mundo. Se perceberem que estão a ser observados os seus comportamentos podem alterar-se. Desse modo, os observadores não captarão o modo como as pessoas habitualmente agem e poderão formar ideias erradas sobre o assunto que estiverem a estudar.

Eis um exemplo célebre, ocorrido numa pesquisa feita no âmbito da Psicologia Social.

“Quando as pessoas sabem que estão a ser submetidas a uma experiência, assumem comportamentos que julgam ser adequados à situação. Procuram reagir de acordo com o que supõem ser o desejo do experimentador. Um exemplo possível diz respeito a uma experiência orientada por Elton Mayo (1880-1949) numa fábrica de equipamentos telefónicos nos EUA. O investigador pretendia determinar a correlação entre a produtividade e a iluminação do local de trabalho. Para surpresa de Mayo, os operários reagiram de acordo com as suas suposições pessoais: devia-se trabalhar mais quando a intensidade da luz fosse maior. Esta situação foi comprovada quando os experimentadores trocaram as lâmpadas por outras da mesma potência, fazendo crer que a intensidade da luz variava. Verificou-se um nível de rendimento proporcional à intensidade da luz sob a qual os operários supunham trabalhar [trabalhavam mais quando julgavam que a intensidade da luz tinha aumentado e trabalhavam menos quando julgavam que tinha diminuído].” - M. Monteiro e M. Santos, Psicologia – 1º Vol., Porto Editora, 1997, pp. 55-56.

OS CIENTISTAS SOCIAIS SÃO OBSERVADORES E OBSERVADOS.

Uma outra dificuldade com que o cientista social se depara na sua busca de conhecimentos rigorosos e objectivos prende-se com o facto de ser ao mesmo tempo observador e observado. Ou seja: é um ser humano a estudar seres humanos, é um membro da sociedade a estudar a sociedade, estuda certos grupos sociais de que pode fazer parte (um partido político ou uma Igreja, por exemplo) ou acerca dos quais tem opiniões anteriores ao estudo (algumas delas provenientes do senso comum). Estuda realidades com as quais está envolvido e de algum modo comprometido. Essa proximidade em relação ao objecto de estudo pode eventualmente impedi-lo de ser imparcial. Mesmo que não faça de propósito, pode inconscientemente “puxar a brasa à sua sardinha”.

Por exemplo: Um sociólogo que seja religioso ao estudar a religião pode, mesmo sem consciência disso, retratar a religião de um modo favorável, ainda que os factos apurados não o justifiquem.

A FAMILIARIDADE COM O SOCIAL.

Os fenómenos sociais são normalmente coisas próximas, com as quais temos contactos frequentes no dia-a-dia e em relação às quais já temos algum conhecimento (ao nível do senso comum). Pense em casos como a droga, a imigração, o desemprego, a educação, etc. Vejamos com mais detalhe o exemplo da educação: um certo indivíduo já foi aluno, agora tem filhos que andam na escola, é vizinho de um Professor e cunhado de uma Contínua, passa todos os dias ao pé de duas escolas, vê notícias na TV sobre a educação, etc. Essa familiaridade com o social pode constituir um obstáculo epistemológico caso leve a pessoa a pensar que já sabe o suficiente sobre o assunto, que as crenças do senso bastam e que portanto não é preciso investigar mais. O que é um erro, pois mesmo que essas crenças sejam verdadeiras é preciso investigar para aprofundar o conhecimento e saber justificar aquilo que se sabe.

A ILUSÃO DE TRANSPARÊNCIA DO SOCIAL.

Este obstáculo decorre da familiaridade referida. Como os fenómenos sociais são coisas próximas e relativamente aos já sabemos algo, as pessoas podem cair no erro de julgar que são evidentes – que aquilo que se percebe à primeira vista corresponde à realidade. Ora, as coisas nem sempre são o que parecem. Muitas vezes aquilo que julgamos perceber intuitivamente é desmentido pelas pesquisas de ciências como a Psicologia ou a Sociologia.

Por exemplo:

Parece evidente a muitas pessoas que os gordos são sempre simpáticos, mas as pesquisas sociológicas mostram que não há relação necessária entre a personalidade e as características físicas.

Parece óbvio que os imigrantes se integrarão melhor na sociedade que os acolhe se substituírem a sua cultura de origem pela cultura dessa sociedade; no entanto, pesquisas sociológicas com imigrantes polacos no norte de França mostraram que os imigrantes melhor integrados na sociedade francesa eram aqueles que não abdicavam dos costumes e tradições polacas.

AS EXPLICAÇÕES NATURALISTAS.

As explicações de tipo naturalista interpretam o social a partir de factores que consideram inerentes à natureza humana, à natureza de um povo, de uma raça ou de um dos sexos. Consideram, portanto, que as causas dos fenómenos sociais são naturais e não sociais.

Um cientista social que dê esse tipo de explicação não estará a ser obviamente rigoroso nem objectivo.

Por exemplo:

Considerar que o menor desenvolvimento económico e industrial de certos povos se deve a um carácter preguiçoso e indolente inato.

Certas pessoas acreditam que uma das razões que deveria levar as mulheres a participar mais na vida política é a circunstância de terem uma maneira de ser mais sensível e comunicativa que os homens.

AS EXPLICAÇÕES INDIVIDUALISTAS.

As explicações de tipo individualista explicam os fenómenos sociais a partir de factores meramente individuais, como se tudo dependesse da vontade e das escolhas do indivíduo. Este tipo de explicações esquece que há tendências e mecanismos sociais, de que o indivíduo pode nem sequer estar consciente, que têm um enorme peso e influência.

Um cientista social que dê esse tipo de explicação não estará a ser obviamente rigoroso nem objectivo.

Por exemplo:

Considerar que há desemprego porque este e aquele indivíduo não querem trabalhar.

«A Mafalda não fuma e detesta que fumem ao pé dela. Ao conversar com um amigo acerca do filme “Casablanca” (realizado em 1942), em que a romântica e heróica personagem principal, representada por Humphrey Bogart, aparece frequentemente a fumar, a Mafalda disse que mesmo que vivesse naquela época detestaria o fumo do tabaco e nunca se apaixonaria nem casaria com um homem que fumasse. “Mesmo que mais ninguém pensasse assim, eu de certeza absoluta que pensaria”, concluiu a Mafalda.»

AS EXPLICAÇÕES ETNOCÊNTRICAS.

No planeta Terra existe uma enorme diversidade cultural. As diferentes comunidades humanas desenvolveram diferentes línguas, costumes, normas, valores, etc. Por isso, existem milhares de culturas diferentes. Por vezes, as pessoas de uma sociedade não respeitam as culturas de outras sociedades, consideram-nas inferiores e “atrasadas”. A essa atitude chama-se etnocentrismo cultural. Este é a atitude característica de quem só reconhece legitimidade e validade às normas e valores vigentes na sua própria cultura. As pessoas que pensam desse modo, consideram frequentemente que, sendo a sua cultura superior, têm o direito de a impor (pela força se necessário) a outros povos. Existem exemplos de atitudes etnocêntricas em muitas sociedades. Na Europa foi uma atitude habitual durante séculos, ostentada não só pelas pessoas do povo como por intelectuais.

Um cientista social que dê esse tipo de explicação não estará a ser obviamente rigoroso nem objectivo.

Por exemplo:

Os antigos gregos chamavam bárbaros aos estrangeiros. A palavra grega que se traduz por bárbaro significava “aquele que fala como os pássaros”. Ou seja: quem não falava grego, quem não era grego, não era considerado verdadeiramente humano.

“Os Índios americanos foram inicialmente olhados [pelos europeus] como criaturas selvagens que tinham mais afinidades com os animais do que com os seres humanos. Paracelso, nunca lá tendo ido, descreveu o continente norte-americano como sendo povoado por criaturas que eram meio homens meio bestas. Julgava-se que os Índios, os nativos desse continente, eram seres sem alma nascidos espontaneamente das profundezas da terra. O Bispo de Santa Marta, na Colômbia, descrevia os indígenas como homens selvagens das florestas e não homens dotados de uma alma racional, motivo pelo qual não podiam assimilar nenhuma doutrina cristã, nenhum ensinamento, nem adquirir a virtude [sendo, portanto, legítimo escravizá-los].” - Anthony Giddens, Sociology, Polity Press, Cambridge, p. 30.

“Durante o século XIX, os missionários cristãos em África e nas ilhas do Pacífico forçaram várias tribos nativas a mudar os seus padrões de comportamento. Chocados com a nudez pública, a poligamia e o trabalho no dia do Senhor, decidiram reformar o modo de vida dos "pagãos". Proibiram os homens de ter mais de uma mulher, instituíram o sábado como dia de descanso e vestiram toda a gente. Estas alterações culturais, impostas a pessoas que dificilmente compreendiam a nova religião, mas que tinham de se submeter ao poder do homem branco, revelaram-se, em muitos casos, nocivas: criaram mal-estar social, desespero entre as mulheres e orfandade entre as crianças. Se bem que o complexo de superioridade cultural não fosse um exclusivo dos Europeus (os chineses do século XVIII consideraram desinteressantes e bárbaros os seus visitantes ingleses), o domínio tecnológico, científico e militar da Europa, bem vincado a partir das Descobertas, fez com que os Europeus julgassem os próprios padrões, valores e realizações culturais como superiores. Povos pertencentes a sociedades diferentes foram, na sua grande maioria, desqualificados como inferiores, bárbaros e selvagens.” - Luís Rodrigues, Filosofia - 10º Ano, Plátano Editora, pág. 79.

Alguns destes obstáculos epistemológicos (nomeadamente a “familiaridade com o social”, a “ilusão de transparência do social”, a condição de observador e observado e as explicações etnocêntricas) podem ser vistos como diferentes manifestações da influência do senso comum.

Tal como qualquer outro ser humano, o cientista social possui senso comum: um certo conjunto de crenças e saberes práticos, que adquiriu através da experiência de vida, no decurso do processo de socialização. Algumas dessas crenças podem ser falsas, podem ser superstições e preconceitos. Esse cientista pode nem se aperceber que as possui. Se essas crenças influenciarem as suas investigações o rigor e a objectividade destas serão afectados.

Por exemplo: Se um sociólogo (educado de maneira muito religiosa e moralista) ao entrevistar uma prostituta utilizar uma linguagem valorativa e tendenciosa (“Porque é que se dedica a esta profissão vergonhosa e imoral?”, “Porque é que se deixou arrastar para esta vida desgraçada?”) terá dificuldade em comunicar com ela e não conseguirá recolher informações rigorosas.

No manual de Sociologia fala-se de “ruptura com o senso comum” na medida em que o cientista social deve tentar libertar-se dessa influência: muitas crenças do senso comum são falsas e devem ser corrigidas pela pesquisa científica (outras crenças até podem ser verdadeiras, mas ao nível do senso comum não existe justificação para elas, sendo tarefa da ciência fornecer essa justificação).

sábado, 17 de Outubro de 2009

Matriz do 1º mini-teste

Objectivos:

1. Compreender porque é que os seres humanos são seres sociais.

2. Saber o que são “crianças-selvagens” e compreender a relação desse fenómeno com o carácter social dos seres humanos.

3. Identificar pelo menos seis ciências sociais.

4. Reconhecer a Sociologia como ciência social.

5. Identificar exemplos de fenómenos sociais.

6. Compreender porque é que os fenómenos sociais são complexos, ou seja, pluridimensionais.

7. Reconhecer exemplos ilustrativos da complexidade dos fenómenos sociais e identificar os aspectos neles estudados pelas diversas ciências sociais.

8. Compreender a necessidade de interdisciplinaridade entre as várias ciências sociais.

9. Compreender que a dimensão sociológica dos fenómenos sociais é o seu carácter “relacional”, dizendo sempre respeito às interacções de indivíduos que vivem em grupos.

10. Reconhecer exemplos ilustrativos da dimensão sociológica dos fenómenos sociais.

11. Compreender as principais características do senso comum.

12. Identificar exemplos ilustrativos de conhecimentos, superstições e outras crenças do senso comum.

13. Compreender as principais características da ciência.

14. Identificar exemplos ilustrativos de conhecimentos científicos.

15. Compreender porque é que o facto da Sociologia e das outras ciências sociais estudarem os seres humanos torna a obtenção do rigor e da objectividade mais difícil que nas ciências da natureza e na Matemática.

16. Compreender o que é um obstáculo epistemológico.

17. Compreender em que medida a condição de observador e observado do cientista social pode constituir um obstáculo epistemológico.

18. Compreender em que medida o facto da presença do observador poder modificar o que é observado constitui um obstáculo epistemológico.

19. Compreender em que medida a “familiaridade com o social” e a “ilusão de transparência do social” constituem obstáculos epistemológicos.

20. Compreender em que medida as explicações naturalistas constituem um obstáculo epistemológico.

21. Compreender em que medida as explicações individualistas constituem um obstáculo epistemológico.

22. Compreender em que medida as explicações etnocêntricas constituem um obstáculo epistemológico.

23. Identificar exemplos ilustrativos dos diversos obstáculos epistemológicos.

24. Compreender porque é que os sociólogos e os outros cientistas sociais têm necessidade de se distanciar do senso comum.

Leituras:

Páginas indicadas do Manual, posts do Caderno de Sociologia indicados nas aulas e apontamentos tirados nas aulas.

Natureza das questões:

Escolha múltipla, itens verdadeiros e falsos e identificação de exemplos.

Bom Trabalho!

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Overdose de populismo e demagogia

mentir a si próprio

Cartoon de Cathy Thorne, retirado daqui.

Hoje é o último dia de campanha eleitoral para as eleições autárquicas, que decorrerão no próximo domingo. Antes houve a campanha para as eleições legislativas (que se realizaram no passado dia 27). Contando com os períodos de pré-campanha, há meses que os políticos dos diversos partidos andam a prometer mundos e fundos aos portugueses. Se fosse um jogo de futebol, o populismo e a demagogia teriam vencido o debate de ideias e o esclarecimento por muitos golos de diferença. Uma autêntica overdose de mentiras e meias mentiras, eis o que - felizmente - termina hoje à meia-noite.

Foi nisto que pensei quando descobri, há minutos atrás, este cartoon. Mas claro que não são apenas os políticos que mentem a si próprios para mais facilmente conseguirem enganar as outras pessoas. A vida quotidiana oferece-nos exemplos frequentes dessa estratégia, mesmo em períodos em que não existem campanhas eleitorais.

As relações afectivas costumam ser um manancial inesgotável no que a isso diz respeito. Mas consideremos antes um exemplo ligado à educação, já que, antes de mais nada, este é um blogue de estudo.

Por vezes fico boquiaberto com as dificuldades manifestadas por alguns alunos do 10º ano e vou espreitar o seu processo escolar. É frequente descobrir casos de alunos que no 8º e 9º anos tiveram seis ou sete negativas no primeiro e no segundo período e no terceiro período só tiveram uma ou duas negativas. Se não conhecesse inúmeras histórias de pressões directas e indirectas para os professores transformarem classificações negativas em classificações positivas, poderia acreditar que tal se deve aos inúmeros planos de recuperação (com esse ou com outros nomes) que existem no Ensino Básico. Mas assim não acredito.

Como se sentirão esses professores que, levados por essas pressões ou antecipando-se a elas, atribuem classificações positivas a alunos que claramente não as merecem? Como viverão consigo próprios? Para diminuir a frustração talvez recorram à atitude descrita no cartoon: “Se eu me convencer que é verdade, então não será realmente uma mentira”.

Só que é de facto mentira, como se percebe quando esses alunos chegam ao 10º ano.

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

O que é, realmente, o senso comum?

Em livros e sites de Sociologia (e de Filosofia) encontra-se muitas vezes a afirmação de que o senso comum é um conhecimento prático e a afirmação de que o senso comum é o mesmo que o conhecimento vulgar. No entanto, ambas as afirmações são incorrectas.

Escrevi detalhadamente acerca desse assunto no blogue Dúvida Metódica: Equívocos acerca do senso comum.

cozinheira-anos-50 Sem entrar em detalhes filosóficos (desnecessários no estudo da Sociologia), vou explicar porque é que as afirmações referidas são incorrectas.

O senso comum inclui conhecimentos práticos (aquilo que se chama saber-fazer, como por exemplo saber cozer um ovo ou saber coser um botão), mas estes são apenas uma parte e não a totalidade do senso comum.

O senso comum inclui também conhecimentos que não são práticos. Nomeadamente, conhecimentos (embora pouco elaborados) de ideias – aquilo que em Filosofia se chama conhecimento proposicional ou “saber que”. Por exemplo: saber que (em Portugal) só se pode votar a partir dos 18 anos, saber que a lixívia debota a roupa, etc.

Por outro lado, o senso comum inclui também superstições (crenças falsas e sem qualquer justificação plausível, como por exemplo acreditar que ver gatos pretos traz infelicidade) e crenças não supersticiosas sobre os mais diversos aspectos da vida (convicções morais, políticas, sociais, etc., como por exemplo acreditar que se deve pagar as dívidas, acreditar que não se deve matar pessoas inocentes, etc.), que não têm um carácter prático.

Não se pode também dizer que o senso comum é o mesmo que o conhecimento vulgar. Os conhecimentos que fazem parte do senso comum são, sem dúvida, “vulgares”: são saberes simples, pouco elaborados e resultam da experiência de vida e não de investigações. Todavia, e como já foi dito, o senso comum inclui também superstições. Estas, sendo crenças falsas e sem justificação, não são conhecimentos. O problema não está, portanto, na palavra “vulgar” mas na palavra “conhecimento”. Não se pode identificar senso comum e conhecimento vulgar pois alguns conteúdos do senso comum não são conhecimentos.

As distinções que fiz entre senso comum e conhecimento prático e senso comum e conhecimento vulgar estão de acordo com a compreensão que os sociólogos habitualmente têm da natureza e do papel da Sociologia.

A segunda distinção é, nesse contexto, particularmente relevante. Os sociólogos reconhecem que têm de se precaver contra o senso comum. Alguns utilizam a esse respeito a expressão “ruptura com o senso comum”. O que tal expressão significa é que, para constituir conhecimentos sociológicos de carácter científico, o sociólogo não se deve deixar influenciar pelas crenças falsas que adquiriu no seio da sua comunidade ao longo do processo de socialização e não se deve contentar com as crenças verdadeiras que adquiriu do mesmo modo, pois aquelas são superstições enganadoras e estas não passam de conhecimentos vulgares e superficiais que precisam de ser aprofundados.

Bons anfitriões?

“As medidas adoptadas por Portugal com vista à integração dos imigrantes foram premiadas pelas Nações Unidas. É o país com melhor classificação na atribuição de direitos e serviços aos estrangeiros residentes.”

Num estudo promovido pelas Nações Unidas tentou-se perceber como era o acesso aos serviços de educação e de saúde, se os imigrantes tinham direito de voto e quais os seus direitos laborais e a assistência social às suas famílias”.

Tem lógica que Portugal procure receber bem os imigrantes, uma vez que precisa manifestamente deles.

trabalhadores imigrantes casa sem condições Mas, mais importante que isso, trata-se de direitos humanos básicos que um estado democrático não deve negar a ninguém.

Infelizmente, nem tudo são rosas. Como é perceptível no dia-a-dia, mesmo sem efectuar estudos, existem em Portugal imensos imigrantes ilegais (estima-se que sejam cerca de 50 mil) e muitos deles trabalham em condições degradantes e são explorados. Segundo o jornal Público, as associações de imigrantes a esse respeito falam de “escravatura moderna”.

A fotografia ilustra melhor a exploração que a boa recepção. Pode ser que as medidas agora elogiadas pelas Nações Unidas  (muitas delas foram adoptadas apenas em 2007) permitam acabar rapidamente com essa exploração.

domingo, 4 de Outubro de 2009

As ditaduras são todas más, não são?

Mercedes Sosa Segundo o jornal Público, a cantora argentina Mercedes Sosa, que faleceu hoje aos 74 anos, “lutou contra as ditaduras fascistas na América do Sul”. Suponho que a restrição à América do Sul seja uma imprecisão jornalística: a cantora de “Gracias a la Vida” indignava-se certamente com a falta de liberdade e com a repressão fosse qual fosse a sua localização geográfica. O que me leva a perguntar: mas então e as ditaduras comunistas?

Não me parece que a tortura e a privação da liberdade custem menos a um prisioneiro político cubano (em Cuba existe, ainda hoje, uma ditadura comunista) do que a um prisioneiro político da – felizmente desaparecida - ditadura de extrema-direita de Pinochet, no Chile. Qualquer um deles é, na minha opinião, merecedor das canções e dos protestos de Mercedes Sosa.

Parte do que escrevi atrás é irónico. Mas quero terminar sem ironia: porque é que muitos artistas, intelectuais, jornalistas, etc., são mais tolerantes com as ditaduras de esquerda do que com as ditaduras de direita? Essa tolerância fará sentido? Na minha opinião, não faz.

sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

Músicas do mundo: todas diferentes, todas belas!

Hoje é o Dia Mundial da Música. Num blogue dedicado à Sociologia fica bem comemorar a data com sugestões culturalmente diversas. Nestas músicas, para além dessa diversidade há duas coisas que se encontram em todas as sociedades humanas, embora (lá está) com aparências muitos diferentes: o amor e a beleza.

Clique aqui e ouça outras duas boas sugestões musicais, também a propósito do Dia Mundial da Música.

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

Senso comum e ciência: alguns exemplos

A Sociologia é uma ciência social. Mas, o que é uma ciência? Há outros tipos de conhecimento: o senso comum, a filosofia, a religião, etc. O que há de distintivo no conhecimento científico? No âmbito do estudo da Sociologia torna-se especialmente importante distinguir o conhecimento científico do senso comum.

A - Os textos a seguir apresentados referem vários conhecimentos. Identifique quais é que são científicos e quais é que pertencem ao senso comum.

1. Muitos habitantes de Lisboa sabem onde fica o café “O Pato”.

2. Em Portugal (nas zonas urbanas mas sobretudo nas zonas rurais) é muito frequente a crença de que alimentos como a canja de galinha e os citrinos (laranjas, tangerinas, limões, etc.) ajudam a curar as constipações.

3. O conhecimento de que a lixívia estraga a roupa colorida é bastante vulgar.

4. «A secreção de progesterona leva a um espessamento do endométrio (revestimento das paredes uterinas), o que constitui um primeiro passo na preparação do útero para receber o embrião. Se o óvulo for fertilizado terá origem um processo que transforma progressivamente o útero de forma a permitir o desenvolvimento do embrião. Se o óvulo não chegar a ser fertilizado, o espessamento do endométrio é reabsorvido e inicia-se um novo ciclo. Na nossa espécie e em alguns outros primatas há uma deposição tissular demasiado grande para que esta reabsorção possa realizar-se. O espessamento é, neste caso, libertado sob a forma de um fluxo menstrual». Henry Gleitman, Psicologia, F. C. Gulbenkian, Lisboa.

5. «Numa tradução da História Natural, de Plínio, escrita no início da era cristã, pode ler-se o seguinte parágrafo (...): “A mão da mulher com a menstruação torna o vinho em vinagre, seca as colheitas, mata as sementes, murcha os jardins, embacia os espelhos, oxida o ferro e o latão (sobretudo quando a Lua está na fase de quarto minguante), mata as abelhas, o marfim perde o seu brilho, os cães enlouquecem se lambem o seu mênstruo...” (...) Algumas comunidades judaicas da Europa Oriental acreditam que, se as mulheres se aproximarem das conservas durante a menstruação, estas estragar-se-ão. Na Carolina do Norte mantém-se a crença tradicional de que, se a mulher amassar um bolo durante o período, este não será comestível.» Enciclopédia de Psicologia.

6. Plutão leva 247,7 anos a completar uma volta em torno do Sol.

7. A temperatura média na superfície de Plutão é de 237 graus negativos.

8. No planeta Mercúrio, que é o mais próximo do Sol, chegam a registar-se temperaturas de 430 graus (positivos).

B - Que características permitem distinguir o conhecimento do senso comum do conhecimento científico?

O que estuda a Sociologia? Da infidelidade conjugal à religião, tudo um pouco!

Não é fácil delimitar com precisão o objecto de estudo da Sociologia e indicar de uma vez por todas o que estuda a Sociologia.

Essa dificuldade existe porque há inúmeros assuntos que podem ser estudados pela Sociologia: do namoro à infidelidade conjugal, passando pelo insucesso escolar na disciplina de Matemática ou pelo modo como a prática desportiva é socialmente percepcionada, muitos fenómenos sociais podem ser alvo de investigação sociológica.

telemóvel-sms Alguns tópicos da investigação sociológica podem deixar de existir e outros novos surgirem, em virtude de mudanças ocorridas na sociedade. Por exemplo: há uns anos atrás a influência dos telemóveis nas interacções sociais (nomeadamente nos exemplos dados anteriormente: o namoro e a infidelidade conjugal) era um tema sociológico impossível, pois ainda não existiam telemóveis.

Outra razão explicativa dessa dificuldade prende-se com o facto desses fenómenos sociais também serem estudados por outras Ciências Sociais. Assim, por exemplo, a infidelidade conjugal e o insucesso a Matemática também podem ser estudados pela Psicologia ou mesmo pela História.

Outro exemplo possível é a religião. Esta pode ser estudada pela Sociologia, Filosofia, Psicologia, Antropologia, etc. Neste sítio pode encontrar um texto interessante que, através de diversos exemplos, distingue com clareza o que é que, no fenómeno religioso, interessa à Sociologia e o que interessa à Filosofia.

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Mafalda: 45 anos a fazer pensar

mafalda a infelicidade de escolher em quem votar

Quino, Toda a Mafalda, Edições Dom Quixote, Lisboa, 1990, pág.

A primeira história de Mafalda foi publicada a 29 de Setembro de 1964. Fez ontem 45 anos. Parabéns!

Quanto a estas duas tiras: qualquer semelhança com a realidade portuguesa não é mera coincidência! A esse respeito dê uma vista de olhos aqui e aqui.

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Keep walking…

Keep Walking a evolução do fato banho feminino

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. E as dimensões dos fatos de banho femininos. Keep walking…

Mas será realmente um progresso?

Imagem encontrada aqui.

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

A Sociologia e as outras Ciências Sociais: o caso da pena de morte

“As Ciências Sociais são o estudo das características sociais dos seres humanos e das maneiras pelas quais eles interagem e mudam. As Ciências Sociais incluem entre outras disciplinas a Sociologia, a Antropologia, a Economia, a História, a Psicologia e as Ciências Políticas.

Essas disciplinas das Ciências Sociais têm um foco comum no comportamento social das pessoas, mesmo que cada uma delas tenha uma orientação particular. Os antropólogos geralmente estudam culturas passadas e sociedades pré-industriais que ainda existem, bem como as origens dos seres humanos. Os economistas exploram as maneiras pelas quais as pessoas produzem e trocam mercadorias e serviços, bem como o dinheiro e outros recursos. Os historiadores estão preocupados com as pessoas e os eventos do passado, e seu significado para nós hoje. Os cientistas políticos estudam as relações internacionais, os actos do governo e o exercício do poder e da autoridade. Os psicólogos investigam a personalidade e o comportamento individual.

ENFORCAMENTO no Irão Então, o que fazem os sociólogos? Eles estudam a influência que a sociedade tem nas atitudes e nos comportamentos das pessoas, bem como na maneira como as pessoas interagem e formam a sociedade. Como os seres humanos são animais sociais, os sociólogos examinam cientificamente as nossas relações com os outros.

Vamos considerar como as diferentes Ciências Sociais podem abordar o tema polémico da pena de morte. Os historiadores estariam interessados no desenvolvimento [nos EUA] da pena capital do período colonial até ao presente. Os economistas poderiam fazer uma pesquisa para comparar os custos das pessoas encarceradas durante toda a vida com as despesas dos recursos que ocorrem nos casos de pena de morte. Os psicólogos observariam os casos individuais e avaliariam o impacto da pena de morte na família da vítima e na do preso executado. Os cientistas políticos estudariam as diferentes posições assumidas pelos políticos eleitos e as implicações dessas posições nas suas campanhas para a reeleição. [Por seu turno, os filósofos discutiriam se a pena de morte é certa ou errada em termos morais.]

E qual seria a abordagem dos sociólogos? Eles poderiam verificar [entre outros aspectos] como a raça e a etnia afectam o resultado dos casos de pena de morte. De acordo com um estudo publicado em 2003, 80% dos casos de pena de morte nos Estados Unidos envolvem vítimas de cor branca, apesar de apenas 50% de todas as vítimas de assassinato serem brancas. Parece que a raça da vítima influencia a decisão sobre se o réu será condenado à pena capital (...). Assim, o sistema de justiça criminal parece tender a impor penas mais pesadas quando as vítimas são brancas do que quando elas pertencem a uma das minorias.”

Richard T. Schaefer, Sociologia, 6ª edição, McGraw-Hill, São Paulo, 2006, pp. 6-7.

Na imagem: enforcamento público de cinco criminosos condenados por um tribunal, no Irão .

A dimensão sociológica dos fenómenos sociais

Os fenómenos sociais têm várias dimensões e por isso cada um deles é estudado por diversas Ciências Sociais – cada uma com a sua perspectiva própria.

Qual é a perspectiva da Sociologia? Qual é exactamente a dimensão dos fenómenos sociais que interessa à Sociologia?

Dito por outras palavras. É relativamente fácil indicar qual é dimensão económica ou histórica de um fenómeno social. Mas qual é a dimensão sociológica dos fenómenos sociais?

Recordemos algumas das questões colocadas pela Sociologia relativamente aos fenómenos sociais que analisámos nas aulas.

  • Relativamente à emigração portuguesa, Sociologia pode, por exemplo, perguntar: Qual é o grau de integração dos emigrantes portugueses nos países de destino?
  • Relativamente ao consumo, Sociologia interessa-se, por exemplo, pela relação entre o consumo de certos produtos e os grupos e classes sociais a que as pessoas pertencem ou querem pertencer.
  • Relativamente ao comportamento dos jovens, Sociologia interessa-se, por exemplo, pela relação entre o estilo de vida (tipos de música, maneiras de conviver, hábitos de vestuário, hábitos alimentares, etc.) e os grupos de que o jovem faz parte.
  • Relativamente à pena de morte, Sociologia interessa-se, por exemplo, pelo modo como a raça pode afectar o resultado dos processos judicias e a condenação ou não à pena capital.

Como se vê, os sociólogos interessam-se por coisas diferentes. Todavia, há algo comum entre todos esses tópicos. O que será?

Em todos eles o que está em causa não são os meros indivíduos, mas, as suas interacções, o seu relacionamento enquanto pessoas que vivem em comunidade.

Um sociólogo pode interessar-se e estudar coisas muito diversas, mas têm sempre a ver com esse “relacionamento”. Assim, a dimensão sociológica dos fenómenos sociais é o seu carácter relacional ou interactivo.

O sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), um dos fundadores da Sociologia, descreveu bem a dimensão sociológica dos fenómenos sociais quando escreveu as palavras seguintes no livro As Regras do Método Sociológico:

“Para que exista o facto social é preciso que vários indivíduos tenham misturado as suas acções, e que desta combinação se tenha desprendido um produto novo”.

A Sociologia não estuda o individual

domingo, 27 de Setembro de 2009

Elogio do voto

Hoje há eleições legislativas em Portugal. Em diversas eleições passadas a percentagem de eleitores que se absteve foi elevada. Por exemplo: 35,7% nas últimas eleições legislativas e 63,5% nas últimas eleições para o Parlamento Europeu. No primeiro caso a abstenção foi superior à percentagem obtida pelo segundo partido mais votado. No segundo caso a abstenção foi muito superior à percentagem obtida pelo partido que venceu as eleições.

Taxas tão elevadas de abstenção são prejudiciais para a “saúde” da democracia. Escrevi no blogue Dúvida Metódica um pequeno texto (Defesa do voto e crítica da abstenção) defendendo a ideia de que os democratas nunca se deviam abster: deviam votar sempre, nem que seja em branco.

Espero que daqui a algumas horas se descubra que a abstenção foi tão pequena que, se a transformassem em votos, não elegeria nenhum deputado. Porque viver numa democracia é muito melhor que viver numa ditadura.

manifestação de sufragistas Suffrage parade NewYork City May 6 1912

Na fotografia: parada das sufragistas americanas, realizada em Nova Iorque a 6 de Maio de 1912.

(A respeito de eleições veja também aqui e aqui.)

sábado, 26 de Setembro de 2009

Os fenómenos sociais são complexos: o exemplo da emigração portuguesa

emigrantes portugueses filme o salto emigração portuguesa frança emigração dolorosa

exemplo da emigração portuguesa

Antonio Rocco os emigrantes emgrigração portuguesa para canadáportugueses operários emigrantes

Os fenómenos sociais são complexos: o exemplo do consumo

Os fenómenos sociais são complexos ou pluridimensionais. Não são apenas económicos, nem apenas políticos ou sociais. Possuem simultaneamente várias dimensões. O sociólogo Marcel Mauss exprimiu essa ideia através da expressão “fenómeno social total”.

Vejamos a título de exemplo o caso do consumo.

Consumo consumismogravatas consumismo

image

Maria Luz Oliveira e outros, Sociologia - 12º Ano, Texto Editora, Lisboa, 1998, pág. 25.

Quais serão os aspectos do fenómeno do consumo que interessam à Sociologia?

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Crianças selvagens: as meninas lobo

AMALA Y KAMALA “Nas regiões da Índia, onde os casos de crianças-lobos foram relativamente numerosos, descobriram-se, em 1920, duas meninas - Amala e Kamala de Midnapore – que viviam numa família de lobos. A primeira, a mais nova, morreu um ano depois; a segunda, Kamala, que deveria ter uns oito anos, viveu até fins de 1929.

Segundo a descrição do Reverendo Singh que as recolheu, elas nada tinham de humano, e o seu comportamento era exactamente semelhante ao dos pequenos lobos, seus irmãos: incapazes de permanecerem de pé caminhavam a quatro patas, apoiadas nos cotovelos e nos joelhos para percorrem pequenos trajectos e apoiadas nas mãos e nos pés, quando o trajecto era longo e rápido; apenas se alimentavam de carne fresca ou putrefacta comiam e bebiam como os animais, acocoradas, com a cabeça lançada para a frente, sorvendo os líquidos com a língua. Passavam o dia escondidas e prostradas, à sombra; de noite, pelo contrário, eram activas e davam saltos, tentavam fugir e uivavam, realmente, como os lobos. Nunca choravam ou riam, característica que se encontra em todas as crianças-selvagens.

meninas lobas Reintegrada na sociedade dos homens onde viveu oito anos, Kamala humaniza-se lentamente, mas, note-se, sem nunca recuperar o atraso: passaram seis anos antes de conseguir caminhar na posição erecta. Na altura da morte apenas dispõe de umas cinquenta palavras. Contudo, se esses progressos são lentos, são também contínuos e realizam-se simultaneamente em todos os sectores da sua personalidade. Surgem atitudes afectivas: Kamala chora, pela primeira vez, quando morre a irmã, torna-se, pouco a pouco, capaz de sentir afeições pelas pessoas que cuidam dela, especialmente pela senhora Singh; sorri quando lhe falam. A sua inteligência desperta também; consegue comunicar com as outras pessoas, por meio de gestos, gradualmente reforçados com algumas palavras simples de um vocabulário rudimentar; consegue compreender e executar ordens simples, etc.

No entanto, a dar crédito a outro observador, o bispo Pakenham Walsh, que viu Kamala seis anos depois de ser encontrada, a criança não tomava qualquer iniciativa de contacto, nunca utilizava espontaneamente as palavras que aprendera e, especialmente, mergulhava numa atitude de total indiferença mal as pessoas deixavam de a solicitar.”

REYMOND-RIVER, O Desenvolvimento Social da Criança e do Adolescente, Ed. Aster.

Não consegui confirmar completamente a informação, mas aparentemente as fotografias retratam Kamala.  Fotografias encontradas aqui.

As crianças nas sociedades ocidentais actuais

Compare a imagem e a informação que tem sobre os costumes dominantes nos países ocidentais com a informação do post anterior acerca dos costumes esquimós e incas no que diz respeito às crianças.

Diversidade de costumes quanto ao tratamento das crianças

As crianças na sociedade esquimó
No início da década de 1890, o médico americano Frederick Cook realizou suas primeiras incursões visando à conquista do Pólo Norte. Descrevendo a inclemência do frio e as difíceis condições de sobrevivência naquelas paragens, dizia:
“Quando uma mulher entrava em trabalho de parto era conduzida a um igloo, onde permanecia sozinha, com alimento suficiente para duas semanas. Se ela sobrevivesse e o choro do bebé fosse ouvido, os demais se aproximavam para dar assistência à mãe e à criança. Se tudo silenciasse, o igloo era fechado para sempre. Quando nasciam gémeos, ambos eram mortos, pois se considerava impossível que a mãe carregasse e cuidasse de duas crianças. Quando morria a mãe ou o pai de uma criança com menos de três anos, ela era estrangulada com uma tira de couro de foca. Ter pai e mãe era factor decisivo para uma criança numa região onde não existe animal ou vegetal vivos durante meses seguidos.”
Adaptado a partir do blogue brasileiro “Lista de livros”.
As crianças na sociedade Inca
Desde a gravidez, a mulher tinha que cumprir com uma série de requisitos como não comer determinados alimentos e, frequentemente se abster da vida sexual. Um adivinho era consultado para prever se o nascimento viria com boa ou má sorte. As mulheres do povo pariam sem parteira e com dor. Depois de dar a luz, cortavam o cordão umbilical com um pedaço de cerâmica e o guardavam para dar ao bebé para comer caso ficasse doente. Depois, tomavam banho com a criança em uma corrente de água próxima, envolviam o bebé em uma coberta, colocando-o em uma cuia, para voltar ao trabalho que haviam interrompido antes do parto. Uma prática muito comum era matar ou abandonar as crianças consideradas deformadas. Os bebés cujas mães morriam no parto ou durante a amamentação também eram abandonados, a não ser que alguém se encarregasse deles. Depois do nascimento de seu filho, o pai se encostava a uma rede queixando-se das dificuldades que havia sofrido no parto, enquanto que a mãe continuava trabalhando. Na realidade, esta era a forma de proclamar publicamente que ele era o pai do recém-nascido. O cuidado com as crianças não era excessivamente complicado. Em geral os bebés mamavam até os dois anos. Isso porque o leite supria uma alimentação infantil deficiente. Apesar de o leite materno ser combinado progressivamente com comestíveis, tirar o peito era muito complicado. Para conseguir, as mães colocavam nos bicos dos peitos determinadas substâncias amargas, e maltratavam seus filhos fisicamente quando pediam o peito. Para poder continuar trabalhando, as mulheres incas carregavam os seus filhos. O mais frequente era levá-lo nas costas, com tiras de pano feitas com lã de lhama ou algodão, decoradas com finos bordados que expressavam a ternura da mãe.

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

O círculo vicioso da pobreza: não ofereças peixe, ensina a pescar

pais pobre barracas Diversos estudiosos do fenómeno da pobreza reuniram-se no Porto para trocar e discutir ideias. O mote do encontro foi "o que sabemos sobre a pobreza em Portugal".

Foi dito que em Portugal existem aproximadamente 2 milhões de pobres, ou seja, cerca de 18% da população portuguesa. (Considera-se uma pessoa pobre quando o seu rendimento é inferior a 60% do rendimento médio dos seus concidadãos.) Uma vez que esses números não se alteram significativamente há dez anos, os especialistas consideram que essa pobreza é estrutural.

De acordo com o jornal i, no encontro constatou-se que as políticas de combate à pobreza que têm sido seguidas em Portugal, além de caras, têm sido ineficazes e contraproducentes – pois promovem a dependência dos subsídios. "É difícil dizer isto, mas as pessoas habituam-se à pobreza (…) as medidas provisórias [os subsídios]tornaram-se permanentes", afirmou a professor universitária Aurora Teixeira.

"Estamos condenados à persistência da pobreza se não se mudar a forma como este problema é abordado", afirmou Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar contra a Fome. Segundo os participantes no encontro, é preciso que, em vez do mero assistencialismo e da entrega de dinheiro, "as ajudas sociais sejam acompanhadas de capacitação dos beneficiários para que, no final do apoio, possam estar realmente preparados para integrar o mercado".

Mas como conseguir essa “capacitação”?  Para essa “capacitação” ser possível é preciso responsabilizar as pessoas ajudadas. Ou seja: é preciso que quem pode estude ou trabalhe em troca da ajuda e é preciso que fique definido à partida que essa ajuda será temporária.

Infelizmente, não são essas ideias que têm sido defendidas na campanha eleitoral em curso em Portugal. Da esquerda à direita, quase todos os políticos têm defendido mais e mais subsídios, mais e mais assistência – sem mencionar quaisquer contrapartidas. Os poucos políticos que têm defendido a responsabilização das pessoas ajudadas têm sido acusados de populismo.

Na verdade, populismo é prometer subsídios sem  contrapartidas, pois isso não permite quebrar o círculo vicioso da pobreza.

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

“O Véu Pintado”: parte das cores deste filme são sociológicas

 

“À la claire fontaine” é uma canção infantil francesa que faz parte da banda sonora do filme “O Véu Pintado” (de 2006), de John Curran, baseado no romance homónimo de Somerset Maugham.

“O Véu Pintado”  não faz parte das sugestões de filmes incluídas nos diversos manuais de Sociologia para o 12º ano, mas poderia fazer, uma vez que nele são aflorados muitos temas sociológicos: a socialização, a diversidade cultural, o etnocentrismo, o “conflito” entre a ciência e certos costumes e crenças, a estratificação e a desigualdade social, o papel da mulher na sociedade, o casamento, a mudança social e a resistência à mudança, etc.

Quem ler também o romance de Somerset Maugham fica habilitado a reflectir sobre outro tópico sociológico: a valorização contemporânea do amor romântico. (A esse respeito espreite aqui e aqui.) É que a história de amor em que, a certa altura, o filme se torna, não existe no romance. Os autores do filme devem ter receado que a ausência de romantismo prejudicasse as audiências.

À la claire fontaine

À la claire fontaine,
M'en allant promener
J'ai trouvé l'eau si belle
Que je m'y suis baigné

Il y a longtemps que je t'aime
Jamais je ne t'oublierai

Sous les feuilles d'un chêne,
Je me suis fait sécher
Sur la plus haute branche,
Un rossignol chantait

Il y a longtemps que je t'aime
Jamais je ne t'oublierai

Chante rossignol, chante,
Toi qui as le cœur gai
Tu as le cœur à rire,
Moi je l'ai à pleurer

Il y a longtemps que je t'aime
Jamais je ne t'oublierai

J'ai perdu mon amie,
Sans l'avoir mérité
Pour un bouquet de roses,
Que je lui refusai

Il y a longtemps que je t'aime
Jamais je ne t'oublierai

Je voudrais que la rose,
Fût encore au rosier
Et que ma douce amie
Fût encore à m'aimer

Il y a longtemps que je t'aime
Jamais je ne t'oublierai

Na Fonte Clara

Na fonte que clara
Eu vou passear
Acho a água tão bela
Que vou me banhar

Há muito tempo que te amo,
Jamais te esquecerei.

No alto d'um carvalho,
Eu me sinto seguro.
Sobre o mais alto galho,
O rouxinol faz seu trabalho.

Há muito tempo que te amo,
Jamais te esquecerei.

Cante rouxinol, cante,
Teu coração vive,
Teu coração sorria...
Enquanto o meu ardia.

Há muito tempo que te amo,
Jamais te esquecerei.

Eu perdi minha amiga
Sem saber o que causei,
Por um ramo de rosas
Que não lhe dei...

Há muito tempo que te amo,
Jamais te esquecerei.

Eu queria que a rosa
Fosse plantada,
E que minha doce amiga
Fosse assim amada...

Há muito tempo que te amo,
Jamais te esquecerei.

Tradução portuguesa da canção encontrada aqui.

sábado, 19 de Setembro de 2009

A morte da ciência e a vitória da ideologia, a propósito de uma canção de Jorge Palma … e das eleições

Vamos lá contar as armas
tu e eu, de braço dado
nesta estrada meio deserta
não sabemos quanto tempo as tréguas vão durar...

há vitórias e derrotas
apontadas em silêncio

no diário imaginário
onde empilhamos as razões para lutar!

Repreendo os meus fantasmas
ao virar de cada esquina
por espantarem a inocência
quantas vezes te odiei com medo de te amar...

vejo o fundo da garrafa
acendo mais outro cigarro
tudo serve de cinzeiro
quando os deuses brincam é para magoar!

Vamos enganar o tempo
saltar para o primeiro comboio
que arrancar da mais próxima estação!
Para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário?
Pode ser que, por milagre,
troquemos as voltas aos deuses

Entre o caos e o conflito
a vontade e a desordem
não podemos ver ao longe
e corremos sempre o risco de ir longe demais
somos meros transeuntes
no passeio dos prodígios
somos só sobreviventes
com carimbos falsos nas credenciais
Vamos enganar o tempo...

Jorge Palma, “Passeio dos Prodígios”

As palavras desta canção podem ser interpretadas de vários modos. Podem referir-se a duas pessoas que se amam mas que não se conseguem entender ou a duas pessoas que se amam mas que não conseguem ficar juntas devido a obstáculos exteriores. Se (como passamos a vida a fazer!) dermos mais importância a uns versos que a outros, é plausível achar que a canção fala de duas pessoas que gostam uma da outra, mas em que só uma (o narrador) está realmente apaixonada. E, nesse caso, os verdadeiros obstáculos não são coisas sociais e exteriores mas os próprios sentimentos. Por outro lado, não é impossível interpretar a canção como descrevendo a tragédia de duas pessoas (amantes ou apenas amigos) esmagadas por um grande problema qualquer: talvez um vício como a droga ou o álcool.

Essa ambiguidade, essa multiplicidade de sentidos, tratando-se de uma canção ou de outra obra de arte, pode ser uma qualidade. Pode significar riqueza e profundidade intelectual. É o caso de Passeio dos Prodígios” de Jorge Palma.

Porém, se se tratar de um texto com pretensões cognitivas (ou seja, que pretenda ser conhecimento, que pretenda descrever ou explicar de modo verdadeiro e justificado um qualquer fenómeno) – como sucede na sociologia e nas outras ciências sociais, bem como nas ciências da natureza, na matemática e na filosofia – uma tal ambiguidade não constitui uma qualidade. Pelo contrário, significa falta de rigor e, possivelmente, falta de méritos cognitivos; significa que não é um texto científico.

Seja como for, o perigo de cair nessa falta de rigor “literária” (por assim dizer), embora não seja raro, não é o perigo mais frequente para um cientista social. O perigo mais frequente é, de longe, a circunstância de mesmo na prosa mais seca poder faltar completamente a objectividade – roubada pelas convicções religiosas, sociais, políticas, etc.

Quando se tenta compreender fenómenos como a globalização, o insucesso escolar ou a crise económica esse perigo é mortal. Para ser mais exacto: é a morte da ciência e a vitória da ideologia.

Em períodos como aquele que  se está agora a viver em Portugal (haverá eleições legislativas daqui a uma semana e autárquicas daqui a três semanas, pelo que o país foi “invadido” pelas campanhas eleitorais dos vários partidos), os textos de alguns sociólogos, economistas ou pedagogos são simultaneamente um autêntico cemitério científico e um alegre festival de ideologia.

De alguns, mas não de todos – pois a objectividade é possível.

(Se quiser ler mais acerca do conceito de ideologia veja aqui e aqui.)